Iémen descobre vasta rede de espionagem da CIA e do Mossad infiltrada em ONG
Iémen descobre vasta rede de espionagem da CIA e do Mossad infiltrada em ONG
Iémen

Investigação exclusiva do jornalista iemenita radicado em Sanaa, Ahmed AbdulKareem, que cobre a guerra no Iêmen para o Mint Press News, revela como os serviços secretos dos EUA e de Israel terão infiltrado estruturas civis e diplomáticas no Iémen para recolha de informações estratégicas e manipulação política.

Uma operação de contra-espionagem no Iémen revelou aquela que as autoridades locais descrevem como a maior rede de espionagem da CIA e do Mossad descoberta no país.

Documentos confidenciais e testemunhos de detidos, a que o portal MintPress News teve acesso, apontam para uma infiltração profunda de agentes norte-americanos e israelitas em organizações não-governamentais, agências internacionais e missões diplomáticas, com o objectivo de recolher informações militares e influenciar a política interna iemenita.

Segundo a investigação, a rede operava desde 2010 e integrava dezenas de cidadãos iemenitas recrutados sob cobertura de projectos humanitários e de desenvolvimento.

As autoridades de Sana – controladas pelo movimento Ansar Allah (conhecido como Houthis) – afirmam que os espiões transmitiam dados estratégicos utilizados em ataques aéreos da coligação liderada pela Arábia Saudita.

Embora as primeiras detenções tenham ocorrido em 2021, tanto Washington como Sana mantiveram o caso em sigilo. Só este ano, depois de fracassadas negociações discretas entre os dois governos, o movimento Ansar Allah tornou público o desmantelamento da chamada “Força 400”, uma alegada célula de espionagem norte-americana e israelita.

A investigação conduzida pelo MintPress News incluiu acesso a gravações de interrogatórios, documentos confidenciais e entrevistas a vários dos detidos.

Os relatos apontam para uma combinação de recrutamento, chantagem e manipulação ideológica, com agentes treinados para infiltrar estruturas governamentais, académicas e mediáticas.

O espião que se tornou cristão em Atlanta

Entre os detidos, destaca-se Abdul Mohsen Hussein Ali Azzan, de 56 anos, ex-funcionário do Instituto Nacional Democrático (NDI), uma ONG ligada à promoção da democracia.

Segundo o seu próprio testemunho, Azzan foi recrutado pela CIA em 2010 enquanto trabalhava em Atlanta, nos Estados Unidos, através de uma empresa de fachada com ligações missionárias.

De volta a Sana, Azzan terá liderado esforços de recolha de informações sobre defesas aéreas, drones e mísseis balísticos, que seriam posteriormente transmitidos à CIA e ao Mossad.

O detido afirmou ainda que uma das suas missões consistia em identificar líderes de opinião dispostos a defender a normalização das relações entre Israel e países árabes.

Recrutamento através da USAID e de bolsas académicas

Outro nome citado é o de Shaif Hafazallah Al-Hamdani, consultor sénior da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que admitiu colaborar com a CIA desde 1997.

O seu papel, segundo o próprio, passava por recolher dados sob o disfarce de programas de monitorização e avaliação da agência, em coordenação com empresas contratadas.

De acordo com o MintPress, bolsas de estudo e programas de intercâmbio cultural – como o Fulbright ou o Humphrey – também eram utilizados como instrumentos de recrutamento.

Jovens iemenitas considerados “promissores” eram avaliados durante a estadia nos EUA e, em alguns casos, cooptados pelos serviços de inteligência.

Subversão cultural e manipulação social

O relatório iemenita aponta ainda para uma vertente menos convencional das operações: a “guerra cultural”.

Segundo os testemunhos recolhidos, diplomatas norte-americanos e organizações associadas teriam promovido acções destinadas a “desestabilizar os valores tradicionais” iemenitas, explorando temas de género, religião e moralidade.

As autoridades de Sana descrevem essas iniciativas como parte de uma estratégia de “erosão social” com fins políticos, uma alegação que os Estados Unidos rejeitam.

A descoberta da rede gerou forte tensão diplomática entre Sana e Washington, num momento em que o Iémen permanece dividido entre forças pró-governamentais apoiadas pela Arábia Saudita e o movimento Ansar Allah, que controla a capital.

Analistas consideram que o caso poderá ter repercussões regionais, especialmente nas negociações mediadas por Omã entre os Houthis, os Estados Unidos e Israel.

Fontes próximas do processo afirmam que está em discussão uma eventual troca de prisioneiros que incluiria alguns dos detidos, em troca de garantias de cessar-fogo ou de redução dos ataques israelitas a Gaza.

Espionagem num país em ruínas

O Iémen, devastado por quase uma década de guerra civil, tem sido palco de múltiplas disputas geopolíticas. A descoberta desta rede de espionagem expõe uma dimensão menos visível do conflito: a guerra silenciosa travada nos bastidores por influência e informação.

Com a economia em colapso e a crise humanitária agravada, o país tornou-se terreno fértil para operações de inteligência estrangeira.

Como afirmou um dos analistas ouvidos pelo MintPress, “no Iémen, cada ONG, cada projecto humanitário e cada missão diplomática é um tabuleiro onde se joga poder, e onde nada é o que parece”.

O governo dos Estados Unidos e as Nações Unidas não comentaram oficialmente as alegações apresentadas pelas autoridades de Sana.

As organizações mencionadas negam qualquer envolvimento em actividades de espionagem e sustentam que as detenções constituem uma tentativa política de intimidar o sector civil.

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