
Ser obrigado a ter que ir trabalhar no dia 26 de Dezembro ou 2 de Janeiro não só é sofrível, como também é contraproducente. Parece estarmos a nos aldrabar à nós mesmos!
O Natal é mundialmente reconhecido como uma época de celebração, renovação e fortalecimento dos laços familiares e sociais. Em Angola, onde aproximadamente 79,2% da população se identifica como cristã (INE, 2014), a quadra festiva assume um papel ainda mais significativo.
Pretendo neste pequeno exercício explorar os benefícios das férias de Natal, argumentando que a sua adopção oficial pelas autoridades angolanas seria uma medida estratégica que pode gerar impactos positivos na economia, na sociedade e no bem-estar dos trabalhadores da nossa terra.
A dimensão cultural e religiosa do Natal em Angola
A celebração do Natal em Angola tem raízes profundas na cultura cristã. De acordo com o censo de 2014 do Instituto Nacional de Estatística (INE), 41,1% dos angolanos são católicos, enquanto 38,1% pertencem a denominações protestantes. Essas estatísticas reflectem a importância do Natal como um evento religioso e cultural.
Mesmo durante o período do partido único, em que se vivia o Comunismo com a sua emulação socialista, quando as pessoas fingiam que não serem religiosas, o dia 25 de Dezembro era reconhecido como o “Dia da Família”, uma tentativa de valorizar os laços familiares e as tradições comunitárias, destacando a importância da data para o tecido social.
Nós em Angola temos o hábito de nos juntar em casa de um familiar ou amigo próximo para a tradicional ceia de Natal ou no réveillon, isso são manifestações de valores como união e empatia.
Além disso, a quadra natalícia promove valores de solidariedade, esperança e renovação, sendo um momento ideal para os trabalhadores descansarem e se reconectarem com as suas famílias, amigos e colegas de trabalho, eventualmente.
Estender as férias natalinas até o início de janeiro permitiria que os trabalhadores, especialmente aqueles em grandes centros urbanos, viajassem para as suas localidades de origem para celebrar a quadra festiva com os seus parentes.
Essa prática fortaleceria os laços familiares e promoveria uma maior sensação de felicidade e bem-estar, aspectos amplamente associados ao aumento da produtividade no ambiente de trabalho (Oswald, Proto, & Sgroi, 2015).
Como argumenta Costa (2017), períodos de descanso são essenciais para a produtividade a longo prazo, já que permitem a recuperação física e mental dos trabalhadores.
Impactos económicos das férias de Natal
As férias de Natal não apenas fortalecem os laços sociais, mas também impulsionam a economia. Durante a quadra festiva, observa-se um aumento significativo no consumo de bens e serviços relacionados ao Natal, como presentes, alimentos, decorações e viagens.
Esse aumento no consumo beneficia directamente sectores como o comércio, o turismo e a indústria de entretenimento. O aumento da movimentação financeira gerado pelas celebrações natalinas também traria ganhos fiscais para o Estado, derivando de impostos sobre vendas e serviços.
Como argumenta Kotler (2020), a sazonalidade pode ser uma poderosa aliada para alavancar a economia local, desde que seja bem planeada e explorada.
Além disso, permitir que os trabalhadores tenham mais tempo livre durante este período pode fomentar o turismo interno, incentivando deslocações para o interior do país.
O turismo interno, como destacado por Silva e Almeida (2021), tem um efeito multiplicador, gerando emprego, aumentando as receitas das pequenas e médias empresas e fortalecendo economias locais.
O pagamento do décimo terceiro salário e do cabaz de Natal, obrigatórios por lei, também desempenha um papel crucial. Esses benefícios aumentam o poder de compra dos trabalhadores, dinamizando a economia.
Por outro lado, estudos mostram que trabalhadores descansados tendem a ser mais produtivos e criativos (Robinson, 2015), o que beneficia as empresas no longo prazo.
Exemplo internacional e práticas globais
A prática de férias prolongadas durante o Natal é comum em muitos países. Em Portugal, Reino Unido e Estados Unidos, por exemplo, diversas instituições e serviços encerram as suas actividades entre o Natal e o Ano Novo, permitindo que as pessoas aproveitem esse período em família.
Embora certos sectores essenciais devam permanecer em funcionamento durante o período festivo, é plausível propor que serviços e departamentos não essenciais encerrem as suas actividades entre 20 de Dezembro e 5 de Janeiro.
Como já foi mencionado, essa prática é adoptada em muitos países, permitindo que os trabalhadores tenham tempo suficiente para descansar, viajar e participar de actividades culturais e religiosas.
Benefícios para os trabalhadores e a produtividade
A relação entre felicidade, descanso e produtividade está bem documentada na literatura académica. Segundo Fisher (2010), trabalhadores que têm tempo suficiente para descansar, renovar energias e se conectar com as suas famílias apresentam maior satisfação no trabalho e tendem a produzir mais e melhor.
Segundo o relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2019), políticas que priorizam o bem-estar do trabalhador têm um impacto directo na melhoria da produtividade e na satisfação profissional.
Além disso, o período natalino proporciona um descanso necessário após um ano de trabalho, reduzindo o estresse acumulado e promovendo maior disposição para enfrentar os desafios do ano seguinte.
A introdução de férias natalinas em Angola pode, portanto, ter benefícios significativos para a produtividade nacional.
Considerações finais
Implementar um período oficial de férias de Natal em Angola é uma proposta que oferece benefícios claros para os indivíduos, as famílias, a economia e o Estado.
Além de respeitar a tradição cultural e religiosa da maioria da população, essa medida poderia fomentar o turismo interno, aumentar as receitas fiscais e melhorar o bem-estar dos trabalhadores.
Embora seja essencial garantir que sectores estratégicos continuem a funcionar, a adopção de férias natalinas alinhadas às práticas globais seria um passo importante para promover um ambiente de trabalho mais saudável e produtivo.
Assim, conclui-se que investir na qualidade de vida dos trabalhadores durante a quadra festiva não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma estratégia económica inteligente.
Ao reflectir sobre a visão de John Magufuli, ex-presidente da Tanzânia, que enfatizava a importância do trabalho árduo e da autonomia económica, é essencial reconhecer que o sucesso das políticas depende do pragmatismo e da adaptação às realidades locais.
Estender as férias de Natal em Angola seria um passo pragmático, alinhado às necessidades da população e às possibilidades de crescimento económico.
*Docente
Referências
– Costa, P. (2017). Work-Life Balance and Productivity in Developing Countries. International Journal of Economic Studies.
– Fisher, C. (2010). Happiness at Work: The Role of Rest and Recreation. Journal of Organizational Behavior.
Instituto Nacional de Estatística (INE). (2014). Censo da População e Habitação. Luanda: INE.
– Kotler, P. (2020). Marketing 5.0: Technology for Humanity.
– Organização Internacional do Trabalho (OIT). (2019). Relatório sobre o Futuro do Trabalho.
– Oswald, A. J., Proto, E., & Sgroi, D. (2015). Happiness and productivity. Journal of Labor Economics, 33(4), 789–822.
– Robinson, J. (2015). The Productivity-Enhancing Effects of Vacation Periods. Human Resource Management Review.
– Silva, A., & Almeida, T. (2021). The Economic Impact of Domestic Tourism in African Countries. African Journal of Tourism Research.