Indução do medo de ser assassinado – Marcolino Moco
Indução do medo de ser assassinado - Marcolino Moco
Marc Moco

Kolonial weza ni ‘correio’, mukanda watundu ku Putu, wo, wo, wo …” ou agora a indução do medo de ser assassinado, passa-me a vir partir da nossa antiga metrópole?

Os apreciadores puros da eternização do poder nas suas mãos, nunca têm mãos a medir quando se trata de amedrontar populações simples, nas mais das vezes, através da ameaça e da matança, se necessário, dos que procuram pacificar a sociedade, a partir de posições mais visíveis.

Não se fale aqui, de novo, de casos e nomes conhecidos de autores morais demasiado suspeitos e de vítimas lamentadas e a lamentar, por falta de espaço e propósito. Hoje, vim apenas falar-vos de uma suspeita de instilação do medo de morte que, desta vez, parece ter sido orquestrada a partir de fora, para o seu efeito ser maior, provavelmente.

Foi-me feita uma entrevista, supostamente, sobre os 50 anos de Independência de Angola, por uma estação de TV portuguesa, com toda uma grande importância e urgência antecipadas. No entanto, desde o dia 10 de Novembro do ano passado, até hoje, a entrevista não é divulgada (alguém viu e ouviu?), com todos os contactos subsequentes bloqueados.

Aparentemente, nada de assim tão grave. Podia ser apenas que as chefias, lá em cima, não viram bem o tom daquela entrevista, não adequada para determinados ouvidos lusos, que habitualmente não nos acompanham em canais que não sejam os especializados para as lusofonias africanas.

Isso pensará quem não viveu a inusitada agitação que acompanhou aquela entrevista. E especialmente quem não ouviu as últimas três questões que me foram colocadas e que parafraseio:

1 – O senhor pensa vir apoiar, novamente, a UNITA nas eleições de 2027?

2 – O senhor tem consciência que é seguido, permanentemente, de perto pelos serviços secretos angolanos…

3 – … e não tem medo que lhe aconteça alguma coisa, porque se sente uma figura muito visível nacional e internacionalmente?

Enquanto não se me justifica o porquê daquela tão trabalhosa entrevista não ir ao ar, bloqueada a comunicação que tão escancarada e insistente esteve, antes de a mesma ter sido consumada com a minha generosa colaboração, não é caso para se pensar que ela teve apenas por objectivo a formulação daquelas últimas três sinistras questões?

Saiba-se aqui, desde já, que as respostas, que provavelmente nunca serão ouvidas na sede esperada, foram dadas:

1 – Desde o fim da guerra civil o meu voto foi dado e ou proclamado sempre a favor de partidos que me pareceram, em cada altura, vir garantir a aplicação das linhas mestras da construção de uma Angola não mais de exclusão, como a proclamada a 11 de Novembro de 1975 e a que renunciamos através dos acordos de Bicesse, em 1991.

Para 2027, a prioridade, para mim, já não é decidir em quem votar, mas como contribuir para o levantar dos muros da opacidade que têm anulado qualquer lado útil das eleições que não seja o legitimar e o reaprender a tolerar a exclusão institucionalizada e suas terríveis consequências.

2 – Sobre as persistentes ameaças de morte, nas mais das vezes subliminares, de que tenho sido alvo, desde que divirjo da ideia de que devamos persistir na sustentação de um Estado de exclusão, mesmo que utilizemos uma terminologia diferente, a resposta foi a socrática de sempre: todos já estamos condenados à morte ao nascer.

É assim que alguns dos veículos dessas ameaças, mesmo sem ter sido do meu desejo, já se me adiantaram na inexorável viagem, pelas leis da natureza ou até por divergências posteriores entre eles próprios, aqueles que se vão julgando donos da vida eterna.

Espero que essa impressão com que fico, da respeitada estação televisiva portuguesa, que não nomeei por isso publicamente, me venha a ser afastada. De preferência, ainda em vida.

*Antigo primeiro-ministro e ex-secretário-geral do MPLA

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