Jack Ryan: O exemplo que o SINSE não deve continuar a ignorar – Carlos Alberto
Jack Ryan: O exemplo que o SINSE não deve continuar a ignorar - Carlos Alberto
Carlos Albert

Hoje não saí para dançar, como geralmente faço na sexta-feira até ao dia seguinte. Fiquei em casa entretido, já de madrugada, na Quarta Temporada de Jack Ryan.

Uma série de cortar a respiração e que revela o meu estado de espírito. Uma série que me faz lembrar o que aprendi quando este país me formou para ser oficial do SINFO (antes de ser SINSE), antes de imaginar que um dia eu pudesse seguir a minha trajectória como jornalista de investigação e não como oficial do SINSE.

Jack Ryan é um exemplo que todos os oficiais do SINSE, do topo à base, deviam ter como referência.

Há séries que servem apenas para entretenimento. E há séries que nos obrigam a pensar no país onde vivemos. Jack Ryan, disponível na Prime Video, pertence ao segundo grupo.

Não por causa das explosões, dos drones ou dos vilões internacionais, mas por causa de uma coisa muito mais rara e muito mais perigosa: a moralidade.

Jack Ryan, analista da CIA — Central Intelligence Agency (Agência Central de Informações dos Estados Unidos da América) — transformado em agente operacional, é aquele funcionário público que todo Estado democrático sonharia ter — e que muitos Estados autoritários e não transparentes temem.

Não porque desobedece por rebeldia, mas porque cumpre a lei quando os seus superiores a violam. Não porque é aventureiro, mas porque é íntegro.

Não porque quer protagonismo, mas porque quer proteger a Pátria, mesmo quando a própria instituição que serve se desvia da sua missão constitucional.

A série mostra um Jack Ryan especialista em finanças, que descobre padrões que ninguém vê, um investigador com faro apurado que junta peças que outros fingem não existirem, e um funcionário que acredita — imagine-se — que o interesse nacional está acima dos interesses pessoais dos seus chefes na CIA.

Ao longo da série, Ryan enfrenta ordens superiores ilegais, operações encobertas manchadas por corrupção, esquemas secretos destinados a favorecer grupos instalados dentro da CIA e directores que confundem o Estado com o seu quintal privado.

Ele denuncia, resiste, investiga e, quando a cúpula tenta silenciá-lo, ele continua, porque sabe que o juramento é à Constituição, não ao director. E, no final, a moralidade vence. A Pátria vence.

E o Presidente dos Estados Unidos, reconhecendo a sua rectidão, exonera quem estava a mais e promove quem estava a cumprir o seu dever: Jack Ryan torna-se director-adjunto interino da CIA.

A mensagem é clara: num Estado sério, quem serve a Pátria não é castigado — é valorizado.

E agora, a pergunta que dói: e em Angola?

O SINSE — Serviço de Informação e Segurança do Estado — existe, em teoria, para “proteger a legalidade, prevenir ameaças internas e salvaguardar o bom funcionamento das instituições”.

Belas palavras. Boa lei. Missão nobre. Mas, na prática?

Quantas vezes os angolanos não se questionam se o SINSE serve o país ou serve meia dúzia de indivíduos que mandam dentro do aparelho?

Quantas vezes o Serviço não age como polícia política, instrumento de conveniência, guardião de interesses particulares?

Quantas vezes fecha os olhos ao descalabro institucional — corrupção, incompetência, nepotismo, abuso de poder, imoralidade — que destrói o Estado angolano que devia proteger?

Se a missão é garantir transparência, como explicar a imoralidade pública que se tornou rotina?

Se a missão é garantir eficiência institucional, como explicar instituições paralisadas, capturadas, desacreditadas?

Se a missão é proteger a Pátria, como explicar que tantos relatórios internos nunca chegam ao Presidente da República — ou chegam filtrados pelos interesses de intermediários?

Os serviços secretos de qualquer Estado são a coluna invisível da República: quando se dobram, a República entorta. Nos EUA, o Presidente protege os íntegros. E em Angola?

Na série Jack Ryan, o Presidente vê o que acontece, entende quem está a defender a Pátria e quem está a sabotá-la, e age. Exonera o director corrupto da CIA. Valoriza quem ousou levantar a voz. Dá exemplo ao país: integridade é promoção, não punição.

E aqui entra um detalhe essencial, que falta em Angola: Nos Estados Unidos, o director da CIA não é nomeado sozinho pelo Presidente. É nomeado pelo Presidente, mas tem obrigatoriamente de ser confirmado pelo Senado, depois de audiências públicas rigorosas, transparentes e escrutinadas.

O país inteiro pode ver quem mente, quem esconde, quem tem conflitos de interesse. O Senado pode rejeitar um director se ele não respeitar a Constituição. É assim que se protege o Estado. É assim que se protege o povo.

E em Angola?

Será que o Presidente da República valoriza oficiais do SINSE que se recusam a compactuar com esquemas?

Será que quem denuncia corrupção dentro do aparelho é protegido — ou é afastado, humilhado, transferido ou silenciado?

Será que, entre nós, a rectidão profissional pesa mais do que falar a língua conveniente do grupo dominante do momento?

A resposta, infelizmente, a realidade mostra todos os dias.

Quantos oficiais do SINSE já foram promovidos por rectidão moral e não por conveniência política?

Alguma vez um oficial foi publicamente elogiado por denunciar corrupção dentro da própria instituição? Ou foi silenciado?

O SINSE tem mecanismos internos de protecção a denunciantes — ou tem mecanismos de perseguição a quem denuncia?

Quantos relatórios críticos chegam ao Presidente da República sem filtragem de interesses internos?

O SINSE vigia mais os corruptos dentro do Estado — ou os cidadãos que denunciam a corrupção?

Quantas operações internas são feitas para proteger o erário, e quantas são feitas para proteger carreiras pessoais?

O Presidente da República prefere oficiais leais à Constituição — ou leais ao grupo dominante de ocasião?

Há, hoje, em Angola, algum Jack Ryan que seria promovido — ou seria transferido para um gabinete sem função?

Quem serve verdadeiramente o SINSE: o povo angolano ou os interesses instalados?

E a pergunta definitiva: alguém dentro do sistema tem coragem de responder a estas perguntas sem medo de represálias?

Todos os oficiais do SINSE que me estão a ler deviam assistir a Jack Ryan não para aprender técnicas operacionais, mas para reaprender valores básicos:

1.⁠ ⁠A Pátria está acima de qualquer chefe do SINSE;

2.⁠ ⁠O juramento é à Constituição, não ao grupo que controla a instituição;

3.⁠ ⁠A função de Inteligência é investigar, não proteger corruptos;

4.⁠ ⁠A moralidade não é opcional: é a espinha dorsal de um Estado que quer durar.

O dinheiro, os carros, os apartamentos, os confortos, a sensação de intocabilidade — tudo isso é pó. O que fica é o nome. E a Pátria que se destruiu ou se construiu.

Um Serviço de Inteligência não se mede pela capacidade de escutar telefonemas ou seguir opositores. Mede-se pela coragem interna de dizer “não” quando o poder pede que se destrua o Estado para salvar conveniências políticas.

Mede-se por quantos “Jack Ryans” existem dentro da instituição — e por quantos são promovidos e não perseguidos. Mede-se, sobretudo, pela resposta à pergunta mais simples e mais grave:

O SINSE serve a Pátria — ou serve pessoas?

Enquanto essa pergunta continuar a ter mais silêncio do que resposta, Angola continuará a viver sob a sombra daquilo que a série tenta denunciar: quando os serviços secretos deixam de servir o povo, deixam de servir o Estado e passam a servir a si mesmo. E, aí, a Pátria perde.

E todos nós perdemos com ela.

*Jornalista

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