
O Presidente da República, João Lourenço, admitiu estar ativamente envolvido no processo de definição de quem poderá sucedê-lo na liderança do país.
A declaração, feita durante uma entrevista à CNN Portugal, levanta sérias preocupações sobre o respeito aos princípios constitucionais e estatutários que garantem a independência dos partidos políticos na escolha dos seus candidatos.
“É meu dever pensar [no sucessor], porque não podemos deixar que o país fique nas mãos de um qualquer”, afirmou João Lourenço, acrescentando que está em “melhores condições do que qualquer outro cidadão de indicar o rumo a seguir”.
Embora o Presidente tenha frisado que atuará dentro dos limites da Constituição e dos estatutos do MPLA, a sua intenção de influenciar directamente a escolha do próximo cabeça de lista do partido no poder levanta dúvidas sobre a real autonomia dos órgãos internos de decisão do MPLA.
A história recente do próprio João Lourenço evidencia um precedente semelhante. Em 2016, enquanto ocupava o cargo de ministro da Defesa Nacional, foi escolhido directamente por José Eduardo dos Santos como candidato do MPLA às eleições gerais de 2017. Uma decisão tomada à margem de um processo amplamente participativo dentro do partido.
Depois de assumir o poder, Lourenço iniciou uma viragem política marcada por críticas à governação do seu antecessor, mesmo tendo sido seu protegido político. De forma notória, iniciou uma campanha contra figuras próximas de José Eduardo dos Santos, incluindo os seus filhos:
Durante a entrevista, João Lourenço reiterou a necessidade de uma renovação geracional, dando a entender que o seu sucessor poderá ser alguém jovem.
“Temos, não um, nem dois, nem três, mas alguns jovens preparados”, declarou, citando o exemplo do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, que chegou à presidência com apenas 37 anos.
Nos bastidores do MPLA, circulam os nomes de Adão de Almeida, actual ministro de Estado e chefe da Casa Civil; Manuel Homem, ministro do Interior; e Mara Quiosa, vice-presidente do MPLA, como possíveis favoritos para suceder a João Lourenço em 2027, afastando desde já a hipótese de apoio ao general Higino Carneiro, que recentemente anunciou publicamente a sua pré-candidatura à presidência do partido no congresso ordinário marcado para Dezembro de 2026.
A intervenção pessoal do Presidente da República neste processo interno levanta questões jurídicas e políticas relevantes. A Constituição da República e os estatutos dos partidos exigem processos democráticos e colegiais na seleção dos candidatos durante um congresso ordinário.
A tentativa de controlar ou influenciar essa escolha pode configurar uma violação dos princípios de pluralismo e alternância democrática.
Com as eleições gerais previstas para 2027, as recentes declarações de João Lourenço reacendem o debate sobre o verdadeiro compromisso com a democracia interna nos partidos angolanos e sobre a necessidade de garantir processos transparentes e livres de imposições unilaterais.