
O Presidente da República de Angola, João Lourenço, já efetuou 15 viagens só nos primeiros três meses de 2025. Se em 120 dias já fez 14 viagens, então o intervalo da andorinha em terra é de apenas uma semana e meia.
Só que não é o espírito de pássaro de João Manuel Gonçalves Lourenço que mais me ofende, ou entristece, mas sim a fatura debitada ao povo que vive com o cinto apertado. Num país produtor de petróleo, o povo revira contentores de lixo à espera de “lixo humano”.
Enquanto jornalista, faço uma avaliação negativa de tudo quanto já prometeu. Conclui-se que o Presidente João Lourenço não é uma pessoa séria, nem escravo das suas palavras. É um indivíduo com aparência de populista, mas que carrega um coração pesado de mágoa e rancor — um incompetente, em suma.
João Lourenço passou oito anos dos seus dois mandatos a competir com as andorinhas pretas, aves que passam mais tempo a voar do que em terra.
Com o fim do mandato, prestes a cair-lhe as asas, não vê outra saída senão arquitetar uma fraude eleitoral, na qual pensa deixar a sua esposa, Ana Dias Lourenço, coadjuvada por Adão de Almeida e Manuel Homem, para ele próprio continuar no cadeirão com o comando da tela nas mãos.
Azar terá batido à porta dos angolanos, que pensavam que João Lourenço seria uma solução para erradicar a pobreza, a desigualdade social ou a expansão das liberdades fundamentais — sobretudo as que mais criticámos nos últimos seis anos da governação de José Eduardo dos Santos.
João Lourenço passa mais tempo no ar do que em terra. Essa é já uma hipérbole que uso para caracterizar, sem censura, as vezes sem conta que o Presidente da República se ausenta do país.
Há quem fale em mais de 800 viagens ao exterior durante o seu consulado — 57 das quais privadas, segundo notas de imprensa do seu gabinete de apoio à comunicação institucional. Um Presidente que luta para realizar o seu sonho de infância — conhecer os quatro cantos do mundo — não passa de um brincalhão.
Só que o mais ofensivo não é o espírito de pássaro de João Lourenço, mas sim a fatura que impõe ao povo que vive em austeridade. Um país produtor de petróleo, onde o povo remexe o lixo para encontrar algo para sustentar os filhos.
Um pai de família a transformar-se em lotador de táxi para conseguir 3 mil kwanzas e comprar pão. A zunga (venda ambulante) é combatida com ferro e fogo, dentes e unhas, como se o Estado já tivesse organizado condições básicas para as populações.
Um povo mudo, à revelia, na luta pela sobrevivência. Para onde vai? O que anda à procura? Ninguém sabe, porque o que é bom, também nunca traz.
Às vezes é difícil compreender este tipo de indivíduos que constituem o principal obstáculo ao desenvolvimento dos seus próprios cidadãos.
“Para chegarmos onde chegámos hoje, foi um retrocesso incalculável — termos um Presidente que nunca parou no país, que fez tantas viagens à custa do povo. Todo o mundo sabe. Então, como pode prestar um serviço público sendo Presidente da República? Não teve tempo, sempre a viajar. Temos hospitais sem nada, escolas que não funcionam, estradas esburacadas, tudo por fazer. O MPLA é um vírus perigoso, e o povo precisava de coragem para ir às ruas e erradicar este mal. Pela via das eleições, podem governar por mais dois séculos e ninguém dirá fioko-fioko, porque temos uma oposição de manteiga: desarmada, medrosa e dominada pela fome e pelo medo, rendem-se ao regime e negociam a vida e o sofrimento de mais de 20 milhões de angolanos.”
A UNITA, PRA-JA, Bloco Democrático, PRS ou FNLA, para mim, não são soluções alternativas em Angola. Se um dia lhes for passada a governação em forma de transição soft, disfarçada como no Congo Democrático quando Joseph Kabila já estava na corda bamba, estarão no poder sobre imbalas por cima de um barril de pólvora.
Duas semanas é o máximo que João Andorinha permanece em terra. Se escrutinarmos os voos excessivos, vemos que, em menos de dois dias após regressar da Itália — onde ninguém o convidou — já está no Egipto. Amanhã estará na Índia.
O Presidente da República de Angola, João Lourenço, já efetuou 15 viagens só nos primeiros três meses de 2025. Se em 120 dias fez 14 viagens, então o intervalo da andorinha em terra é de apenas uma semana e meia.
As deslocações ocorrem no âmbito das suas funções enquanto Chefe de Estado angolano e também como Presidente em exercício da União Africana.
As viagens realizadas foram:
Há como exigir prestação de contas ou responsabilização pelo seu comportamento de pássaro?
Neste momento, não há como responsabilizar, porque os tribunais funcionam à base dos interesses do Presidente da República. O Parlamento está proibido de pedir contas ao Chefe do Executivo.
Mais tarde, poderá ser aferida não só a questão da responsabilidade político-social, mas também se lhe poderão ser imputados crimes como gestão danosa, peculato e desvio de fundos.
Lourenço, em questões internas, parece-se mais com uma avestruz — ave que não voa — preferindo enterrar a cabeça na areia, inclusive perante reivindicações político-sociais. Fala em diálogo com os outros, mas aqui em Angola privilegia dialogar apenas com parceiros internacionais, mesmo sem sucesso, apenas para promover a sua imagem no exterior.
Rejeita categoricamente dialogar com os partidos políticos. Parece que o Presidente não se sente responsável pelo que se passa com o povo angolano. Está apenas decidido a continuar com a sua agenda pessoal.
Por diplomacia, caprichos, convites ou mesmo visitas privadas, João Manuel Gonçalves Lourenço deixou o país mais de 20 vezes durante o ano de 2024, sem divulgar os custos de cada viagem.
As exageradas saídas do Chefe de Estado, além de causarem gastos desnecessários aos cofres públicos, refletem um espírito de egoísmo.
Em 2024, o Presidente da República efetuou mais visitas ao exterior do que às províncias do país. Comparado a 2023, quando visitou 13 províncias, em 2024 visitou apenas 12.
Algumas das deslocações de 2024:
*Jornalista