
O jornalismo é a quarta força do Estado, o pilar da democracia, o garante da verdade. Mas na província do Bié, esta nobre missão foi reduzida a um espetáculo vergonhoso de submissão e mendicância.
Durante um encontro de auscultação promovido esta quinta-feira, 06, pela governadora Celeste Adolfo os jornalistas locais — aqueles que deveriam questionar, fiscalizar e denunciar os desmandos do poder — tornaram-se súplices de um Estado que deveriam escrutinar.
Em vez de exigirem maior liberdade de imprensa, acesso irrestrito às fontes de informação e melhores condições para exercerem a profissão com independência, os profissionais presentes no evento optaram por um caminho inesperado: estenderam a mão, não para segurar o microfone da verdade, mas para mendigar terrenos, subsídios e até mesmo internet grátis.
O encontro, que deveria ter sido um espaço de debate sobre os desafios estruturais da comunicação social, rapidamente se transformou numa sessão de petições digna de um orfanato desesperado por assistência governamental.
Os pedidos foram dos mais básicos aos mais bizarros:
E o cúmulo da submissão veio do próprio secretário provincial do Sindicato dos Jornalistas do Bié, Edson Vieira, que, em vez de levantar a voz contra a censura e as dificuldades que os profissionais enfrentam para reportar a verdade, foi o primeiro a estender o chapéu, pedindo desde viaturas a gravadores e máquinas fotográficas pagas pelo governo.
Enquanto a classe jornalística se ajoelhava, Celeste Adolfo desempenhava o papel de governadora generosa, prometendo estudar formas de melhorar as condições dos jornalistas, incluindo a atribuição de terrenos e projetos habitacionais.
Para os mais ingênuos, parecia um gesto de boa vontade. Para os atentos, soava como o aperto da coleira que mantém a imprensa bem domada e submissa.
A governadora soube jogar bem. Em vez de ser confrontada por falhas na gestão da província, pela falta de transparência ou pela ineficiência das instituições locais, Celeste Adolfo saiu do encontro como a mãe protetora dos jornalistas, garantindo que tudo será feito para atender às suas necessidades.
E assim, mais uma vez, a independência da imprensa foi trocada por migalhas.
O que aconteceu no Bié não é um episódio isolado. É um sintoma da crise profunda que assola o jornalismo angolano. A falta de condições de trabalho, os salários miseráveis e a pressão política tornaram os profissionais vulneráveis e, pior ainda, dependentes de quem deveriam denunciar.
Mas onde está a dignidade? Como pode um jornalista, que deve servir o interesse público, pedir favores ao governo e depois ter coragem de criticá-lo? Como podem reivindicar credibilidade se, na primeira oportunidade, se transformam em pedintes de luxo?
O encontro com a governadora do Bié foi mais do que uma reunião. Foi um funeral. O enterro da independência jornalística e da coragem de dizer a verdade. Restam apenas os ecos das vozes que, em vez de rugirem contra as injustiças, sussurram pedidos de esmola.
A imprensa do Bié precisa decidir: vai continuar a ser um cão domesticado do governo ou retomará a sua postura de guardião da verdade?
Porque, até agora, o que se viu foi uma matilha bem treinada, abanando o rabo em troca de um osso.
*Jornalista e Jurista