Jovem morre na 9.ª Esquadra 10 dias após detenção sem acusações formais
Jovem morre na 9.ª Esquadra 10 dias após detenção sem acusações formais
victor cadete

Abílio José Pedro, conhecido por “Ti Dago”, perdeu a vida enquanto estava detido na 9.ª Esquadra de Polícia Nacional, vulgo Esquadra da Lixeira, no município de Sambizanga. A morte, ocorrida a 10 de Janeiro, está a levantar sérias questões sobre abuso de poder, negligência e corrupção por parte das autoridades envolvidas.

Segundo a família, “Ti Dago” foi detido Ti Dago foi detido na manhã do dia 01 de Janeiro do ano corrente, após uma altercação com a sua ex-companheira.

Conforme as testemunhas, o desentendimento começou quando o malogrado desconfiou de um telefonema recebido pela mulher e tentou receber o telemóvel dela à força. O conflito escalou, resultando na destruição do aparelho.

Irritada, a mulher chamou agentes da polícia que patrulhavam a área no âmbito da “Operação N24”, e acusou Abílio de agressão, levando os agentes a detê-lo.

A família diz que Abílio não resistiu à detenção e teria dito aos agentes: “O meu pai é da polícia, sei como funcionam os procedimentos. Não precisam de me tratar como um criminoso. Vou até à esquadra sem problemas.”

No entanto, ao chegar à esquadra, Abílio foi colocado numa cela juntamente com outros detidos. Durante os dias que esteve sob custódia, não foi ouvido nem formalmente acusado de qualquer crime.

Mas, antes de tudo, a família procurou repetidamente informações sobre o estado de Abílio, mas encontrou respostas evasivas tanto na esquadra como na Procuradoria-Geral da República (PGR).

Num dos encontros com um escrivão da PGR, foi-lhes informado que o jovem estava dado como desaparecido nos registos, apesar de estar detido na cela.

Corrupção e extorsão

Um familiar, identificado como porta-voz da família, denunciou ao Imparcial Press que um escrivão da PGR, conhecido como “Catala”, exigiu subornos para libertar Abílio.

“Ele começou por pedir 100.000 kwanzas e depois reduziu o valor para 50.000 e 30.000. Mesmo assim, não tínhamos como pagar. Expliquei que estávamos sem recursos, mas ele insistiu que sem dinheiro não haveria libertação,” afirmou ao Imparcial Press uma fonte familiar.

A família suspeita que o desaparecimento do processo foi deliberado, uma forma de justificar a detenção prolongada e de obter benefícios financeiros.

“É inaceitável que o processo de um detido desapareça. Isto foi claramente arquitetado para prolongar a sua prisão e obter dinheiro”, acusou o familiar.

A 12 de Janeiro, a família foi informada por terceiros sobre a morte de Abílio, que teria ocorrido devido a agressões na cela por outros detidos. O corpo foi removido no dia seguinte e levado para a morgue sem qualquer comunicação oficial aos familiares.

“Como é possível que ele estivesse preso por 10 dias sem qualquer processo? Como é que ele morreu na cela sem que a polícia interviesse? Ninguém nos informou e ninguém foi responsabilizado”, desabafou o tio de Abílio.

A família também questiona como o jovem foi dado como desaparecido nos registos da PGR enquanto estava na cela. “Claramente houve tentativa de encobrir o caso. Queremos saber onde estavam os agentes quando ele era espancado”, afirmou um parente.

Apelo por justiça

Os familiares de Abílio exigem uma investigação independente e responsabilização dos envolvidos, incluindo os agentes da polícia e os funcionários da PGR. “Já perdemos o Abílio, mas não podemos aceitar que os culpados fiquem impunes. Queremos justiça,” declarou um familiar.

O Imparcial Press procurou ouvir o comandante da 9ª Esquadra, inspector-chefe Victor Cadete, mas não foi possível.

Este episódio revela falhas graves no sistema de justiça e segurança pública de Angola, levantando preocupações sobre o abuso de poder e a falta de respeito pelos direitos humanos.

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