
Há algures uma criança a ser exibida ao público sob a designação de «Junior Tsunami». A graça, dizem-nos, consistiria em vê-la imitar Tsunami, esse cantor que edificou a sua pequena celebridade à custa de contorções corporais e de refrães saturados de insinuação sexual.
Esperam de nós o riso fácil, a partilha maquinal, o comentário enternecido. Basta, porém, demorar o olhar um instante para que a cena perca a sua inocência postiça e revele o que nela há de mais sombrio: adultos a moldarem uma criança à imagem degradada da sua própria vulgaridade e a baptizarem esse exercício de corrupção precoce com o nome de ternura.
No fundo de tudo isto, há uma tirania do gosto rebaixado, que se impõe como se fosse o derradeiro critério de sofisticação. Tudo quanto é grosseiro, ruidoso ou espiritualmente desqualificado avança com a arrogância de quem já conquistou a praça; e muitos calam-se, não por convicção, mas por receio de serem tidos por antiquados ou moralistas.
Assim se vai formando uma guarda pretoriana da decadência: pequenos árbitros da cultura, pobres de espírito e curtos de pensamento, que vigiam o espaço público para garantir que a vulgaridade entre sem resistência e ali se instale como norma.
«Júnior Tsunami» não é, por isso, uma alcunha inocente. É uma marca. É a redução da infância a rótulo; a sua conversão num produto reconhecível, pronto a circular no mercado da atenção.
Não se trata de filmar um bebé que, por acaso, mexe o corpo ao som da música. Trata-se de lhe colar o nome de um homem adulto cuja notoriedade assenta na deformação lúbrica do corpo e no grito sexualizado, convidando o público a achar deliciosa essa comparação. Nesse instante, a criança deixa de ser sujeito da cena; passa a ser adereço.
Dir-se-á, como sempre, que tudo isto não passa de pânico moral. O argumento é cómodo, mas intelectualmente desonesto. Uma coisa é uma criança tropeçar, por osmose social, numa insinuação que não compreende; outra, muito diversa, é ser treinada, nomeada, filmada e exibida como miniatura de um gesto sexualizado de adulto, com enquadramento de câmara, identidade de marca e circuito digital já preparado para a consagração viral.
Passou-se de registar a infância para a dirigir; de guardar memória para ensaiar performance; de acompanhar o crescimento para o explorar.
O problema mais fundo não é sequer apenas o sexo; é a pedagogia do valor que aqui se transmite. A arte séria convida os mais novos a imitarem disciplina, estudo, paciência, forma.
Uma rapariga que observa uma violinista de excepção aprende, ainda sem o saber plenamente, que a mestria exige trabalho. Um rapaz que escuta um grande poeta entende que as palavras podem conter experiência, memória, densidade humana. Nessas imitações há já um princípio de elevação.
Que aprende, ao contrário, uma criança que imita Tsunami?
Aprende que o ruído vale mais do que a nuance; que o corpo, torcido em figura grotesca, basta para obter atenção; que o caminho mais curto para a relevância consiste em transformar-se em espectáculo antes mesmo de ter construído um eu. «Junior Tsunami» é, nesse sentido, o emblema perfeito de uma cultura que já não distingue entre talento e visibilidade.
Há ainda algo que precisa de ser dito com inteira clareza. Há letras em que se sugere levar uma rapariga a um hotel como se a sua presença devesse constituir recompensa automática; e, se ela não corresponder ao guião esperado, insinua-se a violência como prolongamento natural da frustração masculina.
Já não se trata de brejeirice, nem sequer de mau gosto no sentido ligeiro da expressão. Trata-se de uma imaginação moralmente decomposta, na qual a humilhação da mulher é convertida em matéria de aplauso público. A sociedade vê, ouve, encolhe os ombros e festeja.
Por detrás da piada há, pois, uma renúncia grave ao dever adulto. Pais, familiares e tutores deveriam funcionar como filtro, não como agentes de promoção. Devem às crianças uma zona de resguardo entre a enxurrada tóxica da internet e esses anos formativos em que se lançam as primeiras ideias de dignidade, intimidade e limite corporal.
Esse dever não se extingue porque um vídeo indecoroso provoque gargalhadas num churrasco ou alcance milhares de visualizações numa aplicação. Pelo contrário: quanto mais ruidosa for a turba, mais urgente se torna o recuo da consciência.
Uma sociedade digna desse nome não pode contentar-se em aplaudir aquilo que convoca os seus piores instintos e adormece os melhores. Não pode chamar liberdade ao rebaixamento, nem modernidade à podridão. Mede-se também pela qualidade daquilo que escolhe pôr diante dos olhos das suas crianças.
Se o que lhes oferece são palhaços obscenos e pseudo-canções de ameaça, e depois se ri quando os pequenos os imitam, então o problema já não está apenas no artista medíocre ou no vídeo de ocasião: está no abatimento geral do padrão moral.
Que os Tsunamis deste mundo se reservem para os seus palcos de adultos. Mas que a linha, no que toca às crianças, seja nítida e inflexível.
*Jornalista & escritor