Kassendo, Kulama, Nyamucho e Mungongue: rituais tradicionais do povo Luchazes em via de extinção
Kassendo, Kulama, Nyamucho e Mungongue: rituais tradicionais do povo Luchazes em via de extinção
principe dos luchazes

Com rituais tradicionais milenares e uma miscelânea de grupos étnicos, o município dos Luchazes, província do Moxico, é uma das regiões que possuem um rico acervo cultural, diferente de outros pontos do país.

A prática da magia e rituais tipicamente tradicionais são algumas das características do povo Luchazes, uma das tribos mais numerosas e expressivas de Cangamba, a par dos Kangalas, Bundas e Yahumas, grupos que devem obediência directa ao rei do povo Mbunda, Mwene MBandu, cuja sede se encontra na vila do Lumba Nguimbo, município dos Bundas.

Kassendo – pacto de amor eterno

Entre os vários rituais que tornam este povo distinto, encontra-se o Kassendo, também conhecido como casamento tipicamente tradicional, ou laço de união, consubstanciado num pacto infinito estabelecido entre um homem e uma mulher, por via de troca de sangue que simboliza o amor eterno.

Trata-se, de acordo com o príncipe Cangamba, António Canguya, de um ritual de juramento dos casais, de forma sigilosa, sem o conhecimento de ninguém, nem mesmo dos membros da família, ficando apenas em segredo dos pares.

“Este pacto, por via da troca de sangue, significa que, quando um morre, poucos dias depois, o outro/outra também morre de forma natural, simbolizando a união eterna”, detalha o príncipe.

Conforme esta autoridade tradicional, apesar de este ritual encontrar-se em vias de extinção, devido à influência da globalização e da emersão dos valores do cristianismo, um grupo “muito” restrito ainda o conserva.

Kulama – uma ‘oficina’ de maturidade

O Kassendo é antecedido de outra prática ritual da cultura dos Luchazes – o Kulama, considerado o primeiro estágio do relacionamento entre um homem e a futura parceira.

O Kulama é uma prática que permite aos pais escolherem as futuras parceiras/esposas dos filhos, o que pode ocorrer na fase da gravidez da mãe da menina ou na adolescência da rapariga.

Segundo António Canguya, os pais do rapaz têm legitimidade de identificar uma menina na aldeia para ser escolhida como futura esposa do filho, quando atingir a fase adulta.

“Quando a mulher é escolhida, nenhum outro pretendente deve aproximar-se dela”, explica, acrescentando ser uma prática que dá dignidade e sentimento de realização aos pais que escolhem a parceira para o filho, elevando a honra da família da menina.

“As mães mostram-se preocupadas quando a filha não é escolhida. É um acto vergonhoso”, sustenta.

Apesar de ser um ritual, igualmente ‘consumido’ pelo tempo, face à forte influência dos valores da modernidade, a autoridade tradicional argumenta que essa prática era considerada benéfica, porque permitia um conhecimento profundo dos usos e costumes do parceiro a partir da tenra idade.

“Hoje, há muitos conflitos nos lares, porque os jovens desrespeitam este estágio, limitando-se a casar sem ter conhecimento necessário da parceira”, sustenta a autoridade.

Para fazer jus à sua posição, exemplifica o caso da sua esposa, com quem se relaciona desde os nove anos, algo que já dura 40 anos.

Nyamucho – uma escola feminina

Entre os usos e costumes, na região destaca-se também o Nyamucho – a circuncisão feminina – um ritual que visa a preparação da mulher antes de se juntar ao seu parceiro.

O Nyamucho é considerado uma escola tradicional onde as mulheres recebem instruções de pessoas mais adultas da comunidade sobre o modelo de vida e de relacionamento, comportamento e tratamento do esposo.

Ao contrário do Mukanda, como acontece em várias outras tribos e culturas da região, em que o homem fica isolado num período de três a seis meses ou até um ano para receber instruções dos adultos, no Nyamucho as mulheres da região, normalmente na transição da adolescência para a fase adulta, beneficiam dos ensinamentos das matriarcas, num intervalo de duas semanas a um mês.

“Quando a mulher passa por este ritual, significa que atingiu a maturidade para constituir a sua própria família”, conta.

Mungongue – A magia dos líderes

Em tempos mais remotos, na região de Cangamba reinava uma prática mágica, denominada Mungongue, que servia para fortalecer a soberania e o poder das autoridades.

Quando uma autoridade era indicada para assumir um importante cargo no principado ou sobado, era levada de forma misteriosa para o Mungongue, um local clandestino, para ser baptizada e receber os poderes dos patriarcas.

Conforme o príncipe Cangamba, a autoridade é transportada, no período nocturno, por um animal voador, sem o conhecimento dos habitantes da comunidade, até ao Mungongue, onde é realizada uma festa especial, em gesto de acolhimento.

“Quando é transportada, a pessoa grita, mas ninguém da comunidade consegue ouvir os gritos ou se apercebe do cenário”, reforça.

Questionado se se tratava de uma prática feiticista, a autoridade negou, considerando-a um ritual próprio e cultural da tribo, que terá desaparecido com o tempo.

Várias tribos, mas unidas na diversidade

Apesar da diversidade linguística, face ao mosaico cultural da região, a coabitação das diferentes tribos da região é sadia.

De acordo com António Canguya, na região reina o espírito de concórdia e respeito entre as pessoas das diferentes tribos, que juntas trabalham por melhores condições de vida, num município marcado por falta de vias de comunicação para o escoamento de produtos agrícolas para os centros comerciais.

“Entre tribos, vivemos bem, casamos entre nós e amamo-nos”, assume a autoridade tradicional.

O município

Com 20 mil habitantes, residentes num espaço territorial de 43 mil e 180 quilómetros, o município dos Luchazes, região mais a Sul do Luena, tem quatro comunas, nomeadamente Tempué, Muié, Cassamba e Congombe.

Situado a mais de 350 quilómetros a Sul da cidade do Luena, capital do Moxico, Luchazes possui potencialidades agrícolas, produção de mel e recursos hídricos.

A também antiga Vila de Aljustrel na era colonial foi estabelecida em 1907. Em 1909, passou a capitania-mor dos Luchazes (PP 275, de 01 de Abril de 1909), segundo boletim oficial português de 14 de Março de 1922.

Sob Decreto-Lei n.º 109, a região foi desmembrada do Moxico (município-sede) para formar o distrito dos Luchazes, tendo fixado a sede capital em Cangamba.

Possui um mosaico cultural que congrega várias tribos étnicas, como Luchazes, Kangalas, Yahumas, Bundas, Nganguelas, Cokwes e Vasekeli, essa última pertencente ao grupo Khoisan.

Luchazes, antiga Vila Aljustrel, faz fronteira a Sul com a província do Cuando-Cubango, através dos municípios de Mavinga e Cuito Cuanavale, e a Oeste com o Bié, por meio das regiões de Chitembo e Camacupa.

in Angop

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