Lá se foi Justino Handanga – Carlos Kandanda
Lá se foi Justino Handanga - Carlos Kandanda
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A vida é válida para todos. A morte é chocante para todos. Somente, há morte que tem o impacto estrondoso sobre a consciência das pessoas. Isso não é apenas do gosto que sentimos pela pessoa defunta. Mas sim, por seu legado. Porque, o reflexo da vida mede-se na morte. A dimensão de um legado reflete-se na morte.

O legado é a dádiva, é aquilo que as gerações passadas transmitem às actuais. Quando morremos passamos à geração passada e o nosso legado fica para as gerações presentes e vindouras. O que significa, o legado se constrói durante o período da vida até a morte.

Para dizer que, a morte prematura do Justino Handanga tocou, de modo estrondoso, no fundo dos corações de muitos angolanos. Essa morte traiçoeira despertou mais uma vez a nossa consciência patriótica.

Importa afirmar que, o Justino Handanga não cantou por cantar. Mas cantou para despertar a nossa consciência patriótica e a nossa pertença à Pátria, que nos custou muito sangue derramado, muitas vítimas da guerra, muitas viúvas e muitos órfãos.

Ensina-nos amar as nossas mamas e os nossos papas, que vão à lavra, cultivar a terra, fazer a colheita, trazer-nos «olonamba», alimentar-nos, valorizar a família e viver na comunidade.

A guerra causou a ruina, a dor, sofrimentos e muita gente abandonada a sua sorte, que anda por ai nas ruas, nos contentores de lixo, nos musseques, nas vilas e nas aldeias.

O gigante Justino Handanga, sem medo de errar, foi a única pessoa que foi feliz em fazer a súmula da guerra, do seu impacto destruidor, das mortes, dos mutilados, dos órfãos, das viúvas, das injustiças sociais, das desigualdades, do ódio, do revanchismo, do egoísmo, da inveja, da insensibilidade, da exclusão social, da exploração, da pilhagem da riqueza, dos desvios, dos roubos, da fome e da pobreza extrema.

Uns ficaram ricos e muitos de nós fomos empurrados ao abismo da pobreza. Dizia ele, numa das suas músicas: “Nós somos apenas galinhas cegas, espalhamos aos que comem.” Na língua em Umbundu: «Tulo sanji vyo meke ño, tupayela ava valya».

Justino Handanga cantou na língua Umbundu, com conteúdos muito ricos e sofisticados. Uma melodia suave, de matriz folclore, poética e metafórica. Uma música sentimental, romântica, encantadora e lírica, que mistura a modernidade e o folclore Umbundu.

Essa música penetra dentro de nós. Ela flui no cérebro e no sangue. Encanta-nos, acalenta e relaxa os nossos nervos. Cria-nos saudades. Remete-nos ao período da guerra. Aconselha-nos sermos prudentes. Amar o próximo. Abraçar a fraternidade. Defender os nossos Direitos. Enfim, é uma obra monumental que nos orgulha. Pois, Justino Handanga destacou a tradição africana, a língua, o costume, hábitos, práticas e crenças.

Infelizmente, a sociedade angolana, sobretudo as elites intelectuais assimiladas, estão alienadas pela cultura luso-brasileira. Desvalorizam e desprezam tudo que é afro-angolano. Não fazem nenhum esforço para aprender as nossas línguas ou perceber os seus conteúdos. Prevalece a cultura xenófila.

Portanto, músicos como Justino Handanga, com mensagens muito profundas, de alta qualidade, são afastados dos grandes palcos da vida social do país. São empurrados à periferia, sem projeção adequada.

Faço apelo às pessoas de boa-fé, amantes da cultura, sobretudo à elite intelectual do planalto central, que devessem traduzir as obras do Justino Handanga em línguas europeias, tais como, Português, Inglês, Francês e Espanhol. Pois que, a sua música ultrapassa as nossas fronteiras. Aliás, é o património da humanidade.

O gesto de traduzir a sua obra seria uma honra ao Grande Homem da Cultura, que emergiu dos escombros da guerra civil prolongada, e que foi capaz de fazer uma leitura oportuna, profunda, minuciosa e objectiva do contexto da guerra civil angolana, das suas consequências e das perspectivas.

Note-se que, ele foi profético, cuja leitura do país corresponde exactamente à situação actual. O conteúdo da sua letra poética foi ao âmago da realidade não somente de Angola, mas sim, da África Subsariana, que vive a mesma tragédia humana como Angola. Chamando-nos a atenção aos valores e à essência da nossa cultura africana e das nossas línguas – ricas em doutrina e em sabedoria.

Fico por aqui com o coração dilacerado, cheio de lagrimas e dor. Vergando perante um Grande Homem, Justino Handanga, que despertou as nossas mentes. Ele fez-nos dançar e cantar, comer, beber e festejar o final da guerra civil atroz. Mesmo assim, ele teve todo o cuidado de abrir as nossas mentes, apontando às nuvens bem carregadas que pairam no nosso horizonte. Na metáfora, dizendo: «somos galinhas cegas».

Aproveito a oportunidade para dirigir os meus mais profundos pêsames à família enlutada. Descanse em Paz. Adeus Handanga. A sua voz será sempre ouvida e apreciada na eternidade.

*Ex-deputado da Assembleia Nacional

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