Liamba é mais perigosa que o cigarro para doenças pulmonares – segundo estudo
Liamba é mais perigosa que o cigarro para doenças pulmonares - segundo estudo
Nagrelha a fumar

Gelson Caio Manuel Mendes, mais conhecido como “Nagrelha”, o mais célebre cantor do estilo musical kuduro, morreu aos 36 anos na sexta-feira, 18, em Luanda, devido a um cancro no pulmão, segundo o comunicado médico. Mas, segundo os relatos, o malogrado também era, supostamente, seropositivo.

Antes da sua morte, Nagrelha admitia publicamente – em várias ocasiões – que fazia uso excessivo de droga do tipo cannabis sativa, ou seja, liamba. Sabe-se que também consumia bebidas alcoólicas e em inúmeras ocasiões concedia entrevistas sob o efeito dessas drogas.

Até aqui estamos todos de acordo. Mas o que ninguém sabia é que a liamba pode depositar quatro vezes mais partículas no pulmão que um cigarro, como refere estudo.

Um artigo científico publicado hoje, no jornal português CM, enfatiza que quem fuma liamba tem mais probabilidades de desenvolver doenças do trato pulmonar. Esta é, pelo menos, a conclusão de um estudo da Sociedade Radiológica da América do Norte.

Os resultados desta investigação demonstram que a “erva” deixa os fumadores ligeiramente mais propensos a estas doenças do que o tabaco, ou seja, o cigarro.

A mundial, muito se tem questionado sobre a legalização da liamba (marijuana ou cannabis sativa) para fins recreativos. Neste momento, a liamba é uma das substâncias psicoactivas mais populares no mundo e a segunda mais fumada a seguir ao tabaco.

Tendo em conta que vários países (europeus, em particular) já a legalizaram e outros estão a discutir essa possibilidade, a comunidade científica preocupa-se em encontrar respostas para as perguntas que surgem:

  • Se está a ser legalizada, significa que não faz tão mal para a saúde como o tabaco?
  • Fumar liamba não é prejudicial?
  • Se cortar no tabaco, posso fumar com a mesma frequência a liamba?

Com o objectivo de dar resposta às questões que a crescente legalização pode levantar, um grupo de cientistas da universidade de Ottawa, no Canadá, decidiu fazer um estudo que envolvia 150 pessoas. Estas fumadoras de tabaco, liamba, ambos e não fumadoras. O estudo pode ser encontrado na revista Radiology.

O grupo que esteve envolvido neste estudo tinha uma média de idades de 50 anos. Após alguns testes e algumas radiografias, foi possível observar que eram maioritariamente os fumadores de liamba que sofriam de enfisema, uma doença pulmonar.

No caso dos fumadores de tabaco e dos não-fumadores também foi diagnosticada esta doença a algumas pessoas, mas não com a mesma expressão. Da amostra de 150 pessoas, os que sofriam desta doença obstrutiva pulmonar, três quartos eram fumadores de canábis, dois terços eram fumadores de tabaco e apenas cinco pessoas eram não-fumadoras.

Para além de enfisemas, foram encontrados em algumas destas pessoas doenças como a inflamação das vias respiratórias e a ginecomastia, doença que leva ao aumento do tecido mamário masculino devido a um desequilíbrio hormonal.

Até os efectivos da polícia nacional fazem o uso da liamba

O número de casos de fumadores de liamba e de tabaco que sofriam deste problema foi contrastante. A ginecomastia foi encontrada em 38% dos fumadores de liamba, mas apenas em 11% dos fumadores de tabaco. Acredita-se que a liamba possa, como efeito secundário, agir como um estimulador de estrogénio.

Margem de erro elevada

Giselle Revah, autora do estudo e radiologista cardiotorácica e professora assistente da Universidade de Ottawa, viu-se impressionada com os resultados com que se confrontou. Os resultados do estudo levam a acreditar que “a liamba tem efeitos sinérgicos adicionais sobre os pulmões acima do tabaco”, refere no estudo.

Esta surpresa para com os resultados vinha do facto da maior parte do grupo de fumadores de tabaco já fumar há muitos anos e de, mesmo assim, evidenciar menos problemas do trato pulmonar.

Uma razão provável para a liamba trazer mais consequências negativas para o trato respiratório e pulmonar dos fumadores é o facto de ser muitas vezes fumada sem filtro. Enquanto os cigarros de tabaco são normalmente filtrados, a marijuana é usualmente fumada sem qualquer filtro. Isto pode levar a que irrite com mais facilidade as vias respiratórias.

Uma das maiores dificuldades na interpretação dos resultados deste estudo deveu-se à circunstância de muitos dos fumadores de liamba também fumarem regularmente tabaco. 56 pessoas da referida amostra de 150, tanto fumavam marijuana como tabaco comum. Este facto pode potenciar resultados com uma elevada margem de erro. Os danos tanto poderiam ser provocados pelo tabaco como pela liamba.

De acordo com o Centro de Controlo de Prevenção de Doenças, a marijuana contém muitas das toxinas que estão presentes no fumo do tabaco. “Fumar marijuana deposita quatro vezes mais partículas no pulmão do que um cigarro de tabaco médio. Estas partículas são provavelmente irritantes das vias respiratórias”, declara Revah após confrontar os resultados.

A investigadora destacou que os problemas respiratórios de um fumador de liamba activo (como Nagrelha e a maioria dos músicos e jovens angolanos) podem resultar também da forma como a ela é fumada já que tende a ser inalada durante mais tempo do que o fumo do tabaco. A investigadora Revah complementou que mais investigação sobre os efeitos de diferentes estilos de inalação poderia trazer respostas mais efectivas a todas as dúvidas que ainda existem sobre esta temática.

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido