
Confundido várias vezes como cidadão do Congo Democrático, cujas razões o próprio desconhece, porquanto o seu português é marcadamente fluente acima da média e livre de influência do francês e tão pouco do lingala, Arsênio Sebastião Kabungula nasceu em Luanda há 44 anos, mas assume-se como sendo da Quissama, província do Jacaré Bangão, terra dos seus progenitores, Moises Kabungula e Esperança Antônio Sebastiao.
E a história de ser confundido não termina por aí, pois pessoas há que por causa do brilharete do jovem na quadra de jogo, disseram sempre que Arsênio era seu conterrâneo do município Quijenge do Buenga Norte, mas com o sorriso nos lábios, o entrevistado diz que tudo não passou de histórias de pessoas famosas.
Tal como aconteceu com muitos jovens que chegaram a ser referência no futebol, Arsênio Kabungula começou a jogar no bairro da Cuca, onde vivia com os seus pais, exactamente no Hoje-Ya-Henda, junto ao tanque de água.
Depois de ter sentido que tinha algum traquejo, procurou, em companhia de alguns companheiros, já num número reduzido, ingressar na equipa da empresa cervejeira sediada no seu bairro, a Nocal.
Por ironia do destino, muitos desistiram, mas Arsênio Kabungula sentiu-se representante de toda esta juventude com quem marcou os primeiros passos e continuou.
Devido à sua entrega, dinamismo e perseverança, Arsênio passou a fazer parte da equipa principal do Desportivo da Nocal e daí nunca mais esteve distante da bola.
De Arsênio para Love que dança
Arsênio Sebastiao Kabungula é xará do teu falecido tio irmão do pai, Venâncio Love, nome pelo qual é tratado no ambiente familiar.
Explica que a alcunha, Love Kabungula surge colando o nome do seu xará, Love, que pela sorte que sempre norteia os audazes, é também palavra inglesa, uma das mais pronunciadas entre pessoas do sexo oposto que exprimem o sentimento de amor, ao Kabungula, que na língua nacional kikongo significa dançar com rigor, e assim ficou baptizado nas lides futebolísticas por Love Kabungula.
A longa caminhada
Ponta de lança indiscutível, Love Kabungula defendeu, em 1999 e 2017, o ASA, depois foi para o 1.º de Agosto, Petro de Luanda, Kabuscorp, Recreativo da Caála e Sagrada Esperança.
Foi o melhor marcador do Girabola por duas vezes, em 2004 e 2005. Já ganhou 3 edições do Girabola com o ASA em 2002, 2003 e 2004.
Jogou ainda por seu país na Copa do Mundo FIFA de 2006, e representou o elenco dos Palancas Negras em 4 Copas Africanas, 2006, 2008, 2010 e 2012. Entre 2017 e 2020, foi auxiliar-técnico das seleções Sub-17, Sub-20 e principal de Angola. Artilheiro do Girabola: 2004, 2005 (ambos pelo ASA) e 2011 (pelo Petro de Luanda).
A inspiração do Altíssimo
Questionado de onde buscava tanta inspiração, Love Kabungula respondeu que enquanto atleta de alta competição sempre acreditou em si como filho de Deus e a aposta era entregar-se de corpo e alma na quadra do jogo, fazendo tudo com dedicação e zelo, dando o melhor de si, para justificar as oportunidades a ele dadas.
Sobre o dia que mais o marcou nesta longa caminhada, Love Kabungula afirma que todos os dias foram especiais e marcantes, pois cada dia foi de experiência e de aprendizado.
Quem viu o Love caminhando enquanto esteve no activo, denota a mesma força quando, de seu fato de treino preto, caminha para o espaço onde exercita, daí a questão se aceitaria voltar aos relvados para fazer parte de uma equipa de futebol, Love respondeu sem rodeios que o prazer e o gosto de jogar é sempre o mesmo, pois quem jogou futebol ganhou um vício, um gosto e tem sempre grande prazer em volta tocar na bola, mas a dinâmica já não será a mesma, apesar da boa vontade, tudo porque a idade enquanto avança leva consigo algumas energias que não permitem, como é lógico, ter-se a mesma envolvência e dinâmica que se impõem numa alta competição.
Cedo demais
Questionado por que razão deixou cedo o futebol, Love Kabungula mergulha na sua simplicidade realçando que tudo tem o seu tempo.
Diz que o ano em que entendeu pendurar as chuteiras ainda teve alguns convites, mas porque em todo o processo da carreira futebolística foi obrigado a estar sempre longe da família, que sempre compreendeu este facto, preferiu ficar em Luanda, como assistente na selecção de todos nós e compensar o tempo em que por razões profissionais esteve longe dos seus.
O nosso futebol
Acordados em falarmos só do homem Love, durante a nossa entrevista, eis as mãos à palmatória, pois escorregamos, questionando como anda o nosso futebol, o nosso entrevistado afirmou, de forma cuidadosa, que como seres exigentes queremos sempre mais, mas é bom reconhecermos que o nosso futebol não vai bem, tem o lado positivo, assim como negativo.
Refere que o mais importante é a vontade que as pessoas têm de melhorar. Há muitas coisas que não andam bem, não só pela falta da vontade das pessoas, mas também porque há limitações, pois, há coisas que ultrapassam as competências das pessoas que em muitos casos não conseguem concretizar sem os desejos e objectivos preconizados para a práctica do futebol.
Por isto, “temos de dar o benefício da dúvida acreditando nas pessoas, pois qualquer gestor do futebol convive com dificuldades¨.
Para Love Kabungula, o mais importante são as intenções e a vontade que as pessoas têm de melhorar esta ou aquela situação. Solicitado para citar alguns nomes que tal como ele marcaram o futebol angolano, Love de forma inteligentemente cautelosa e mergulhado, como sempre na lagoa da humildade, preferiu não evocar nomes, sob pena de esquecer algumas figuras, mas sublinhou que são vários, quer de gerações anteriores, assim como as actuais.
¨Sairei ingrato citar nomes, mas a verdade o nosso futebol teve sempre a sorte de contar com grandes executantes¨, afirmou Love Kabungula, para quem se estes beneficiassem de uma formação e tivessem as oportunidades a nível da Europa, Angola teria jogadores de referência mundial como temos vistos noutros países africanos, tais como Drogba, Samuel Eto, Yaya Toure, Gege Okocha e tantos outros que orgulham os africanos.
À Nação Angolana, em geral, e aos executantes do futebol em particular, Love Kabungula desejou tudo de bom e que não se deixem derrotar em caso de dificuldades, pois qualquer que seja a actividade que exercemos, não só no nosso pais, como também em toda a parte do mundo, temos de ir até à exaustão.
in Pungo a Ndongo