Luanda: Dezenas de pedonais em degradação e “impróprias para cardíacos”
Luanda: Dezenas de pedonais em degradação e "impróprias para cardíacos"
Pedonais

Pilares roídos pela erosão, furos enormes nas suas estruturas, amontoados de lixo, fezes, cheiro enjoativo à urina, venda ambulante, poças de água e outros obstáculos marcam as pedonais de Luanda que, no período nocturno, ganham outra dimensão, com o registo de assaltos, por falta de iluminação.

Um passo em falso, em muitas dessas estruturas metálicas, pode ser fatal, devido a alguns buracos na base. É, seguramente, um perigo à vista. Em todos os pontos de Luanda, o clamor da população é de socorro por uma intervenção imediata das autoridades competentes, para se evitar danos maiores a qualquer instante.

“É preciso que se tomem medidas urgentes para a preservação destas importantes infra-estruturas sociais e económicas”, afirmou uma cidadã, interpelada pela nossa equipa de reportagem na Estrada da Samba.

As pedonais servem apenas para peões, pelo que é proibida a circulação de motociclistas. Mas, a realidade é completamente diferente. Os moto-taxistas, visando encurtar distâncias, fazem-no a seu bel-prazer, colocando em perigo a vida dos cidadãos.

Na cidade de Luanda, segundo fonte do Gabinete Provincial de Transportes, Tráfego e Mobilidade Urbana do Governo Provincial de Luanda (GPL), estão registadas 141 pedonais. O município de Viana, de acordo com um estudo elaborado em Novembro de 2019, conta com 36 pedonais, seguido de Luanda com 29, Cacuaco 28, Kilamba Kiaxi 18, Talatona 15, Cazenga 8 e Belas 7.

A Estrada da Samba, também conhecida pelos automobilistas como a Estrada Nacional (EN) 100, possui várias pedonais, com realce para as localizadas nas proximidades do Centro Materno-Infantil, Cosal (da Hyundai) e a paragem do Morro da Luz.

Há uma interligação entre o asfalto e as zonas à beira-mar, algumas localizadas na parte alta, isto é, com os bairros Prenda, Rocha Pinto e Morro da Luz. Mas, os amontoados de lixo, fezes, águas e base do piso degradadas, passagem frequente de moto-taxistas colocam as pedonais da Cosal e do Centro Materno Infantil da Samba em sinais de alerta.

Por falta de iluminação nas pedonais da Samba, a travessia durante as noites tornou-se para os pedestres num desafio de “vida ou morte”, com os marginais a controlarem quem passa.

“É cada vez mais difícil a circulação normal à noite. As pedonais da Estrada da Samba e Morro da Luz, devido à onda de assaltos à mão armada e amontoados de lixo, registam a ausência de pedestres. As pessoas preferem fazer a travessia na estrada”, acrescentou a cidadã abordada na Samba.

“Casas de banho a céu aberto”

A pedonal do Jumbo, localizada numa das zonas nobres da cidade de Luanda, a Praça da Independência, é conhecida, entre os citadinos, como uma obra emblemática em termos arquitectónicos. Desenhada como uma autêntica “jibóia”, a pedonal, na Avenida Deolinda Rodrigues ou Estrada de Catete, é um esconderijo de meliantes. É, também, o poiso de pessoas sem tecto.

Inoperante há anos, por razões desconhecidas, a majestosa infra-estrutura tornou-se num autêntico quarto de banho a céu aberto. É o local escolhido por algumas pessoas para, de dia ou de noite, defecar, urinar e praticar actos de prostituição. A falta de fiscalização coloca a pedonal do Jumbo como um lugar singular e imprevisível.

Joana Caetano, uma vendedora de recargas de telemóveis e de divisas, no local, relatou várias ocorrências. “Esta pedonal é das primeiras construídas na Estrada de Catete. Se durante o dia é casa de banho, à noite alberga marginais, que assaltam estudantes”, explicou. “A prostituição é outra praga na pedonal. Tornou-se uma das áreas para encontros amorosos, apesar do mau cheiro.”

Pedonal de referência

O engenheiro civil Edmundo Sapalalo indicou que a pedonal do Jumbo, em betão armado, na zona da Vila Alice, é de referência em Luanda, mas se encontra inoperante devido ao mau estado de conservação.

“É preciso resgatar o sentimento de pertença, pois estamos a falar de uma pedonal que faz parte do património de bens públicos. É um meio que ajuda, de que maneira, na travessia de peões naquela zona e mantém a beleza e estética da cidade de Luanda”, disse.

Explicou que a recuperação destas pedonais degradadas passa pela realização frequente de inspecções visuais e físicas, semestralmente, como medida de constatação de irregularidades.

A limpeza frequente dos perfis, a realização dos trabalhos de soldas, reapertos de porcas e parafusos, com as calibragens recomendadas, é outra solução, bem como a aplicação de películas anticorrosivas e pintura (película de protecção) com duas a quatro mãos.

Sapalalo revela que existem muitos lugares ainda com falta de pedonais em Luanda. Cita, como exemplo, a zona da Mabor, junto à Praça das Mulheres, que carece de uma pedonal, com a máxima urgência, dada a demanda da travessia de populares na zona.

Números por municípios e estado de conservação

BELAS – Existem oito (8) pedonais, uma das quais inoperante, todas partilhadas com o município do Talatona. Deste número, quatro estão em bom estado de conservação e três razoáveis, sendo que a iluminação existe apenas em uma e seis com o sistema totalmente vandalizado.

CAZENGA – Existem, nesta localidade de Luanda, oito pedonais, das quais duas partilhadas com o município de Cacuaco e duas com o município do Kilamba Kiaxi. Foi verificada apenas uma pedonal com boa iluminação e seis com a iluminação totalmente vandalizada.

CACUACO – Estão instaladas 28 pedonais, das quais uma é compartilhada com o município de Viana. Treze estão em bom estado de conservação e 15 em estado razoável. Apenas uma tem iluminação parcial e 23 têm o sistema de iluminação vandalizado.

LUANDA – No município de Luanda existem 26 pedonais, das quais três são partilhadas com o município do Kilamba Kiaxi e duas com o município do Cazenga. Dados fornecidos pelo GPL indicam que 17 pedonais se encontram em bom estado e 10 razoáveis. Duas estão em péssimas condições.

TALATONA – Estão erguidas 15 pedonais, das quais seis são compartilhadas com o município de Belas e três com o município do Kilamba Kiaxi. Das pedonais existentes, 11 estão em bom estado e quatro em condições razoáveis. Três pedonais possuem iluminação e 12 foram completamente vandalizadas.

VIANA – Nesta região de Luanda foram instaladas 36 pedonais, das quais uma é partilhada com o município de Cacuaco e outra com o Cazenga. O estado técnico das pedonais revela que 17 estão em óptimas condições e 12 razoáveis. Deste número, cinco (5) estão degradadas e duas fora de serviço.

Faltam parafusos e degraus

Na Estrada Nacional 230, em direcção ao município de Viana, está a pedonal da Belavista, que liga os municípios do Cazenga e Viana. No período diurno é notória na zona enorme concentração populacional. A pedonal da Belavista, mesmo sendo nova, é dominada pela venda ambulante.

Em todas as esquinas, há um vendedor. Apesar da estrutura metálica recente, depois de um olhar minucioso, saltou-nos à vista a falta de parafusos e degraus metálicos que compõem a pedonal. A infra-estrutura está localizada a escassos metros de uma unidade policial.

É na margem pertencente ao município do Cazenga que os meliantes levaram por completo os parafusos e os seus degraus. A infra-estrutura ficou sem a parte das escadas, o que periga a vida dos seus utilizadores. Apesar do movimento frenético de pessoas e de mercadorias, falta sinalização de advertência.

Qualquer movimentação em direcção àquela zona pode ser uma fatalidade. Daí o alerta: deve-se isolar imediatamente o perímetro. Não muito distante da zona da Belavista e da Robaldina, encontra-se a pedonal da Estalagem, também conhecida como da Mamã Gorda.

A exemplo da Fermat, que liga os edifícios da Filda ao município do Kilamba Kiaxi, na pedonal da Estalagem (Mamã Gorda) os cidadãos correm sérios riscos. De valor imprescindível para as populações do Bairro da Mamã Gorda e dos habitantes do Campo do Jacaré, a chaparia está completamente corroída pela ferrugem, com buracos e chapas soltas. Aliás, a cada passo, a velha chaparia solta um som ameaçador. Os pedestres ignoram os sinais de derrocada e circulam normalmente.

Para Adelaide Fernandes, a pedonal deve merecer uma atenção especial. “Não temos como não atravessar nestas condições. A água potável e o mercado de bens e serviços estão do lado do antigo mercado da Estalagem. Somos obrigados a correr risco, mesmo sabendo do mau estado de conservação”, disse , visivelmente triste, Adelaide Fernandes.

Na Estrada Nacional 100, que liga as províncias de Luanda e Bengo, encontramos a pedonal do Tanque de Água de Cacuaco, uma referência entre os luandenses e os citadinos de Cacuaco. Situada entre duas pedonais, regista o maior afluxo de pessoas na travessia, durante os períodos diurno e nocturno.

Conhecida como a pedonal Azul, o cenário é idêntico ao de pedonais como o da Ponte Amarela, em Viana, Che-Guevara, Bairro Popular e do Cemitério da Sant’Ana. Venda ambulante, circulação de moto-táxis e amontoados de lixo.

Travessia de risco

As conhecidas pedonais da escola Che-Guevara, no Bairro Popular ou Paragem da Sonangalp e do Velório do Governo Provincial de Luanda, nas imediações do Cemitério de San’Ana, apesar de apresentarem um excelente estado de conservação, foram invadidas pelos vendedores ambulantes.

A situação da venda ambulante tem obstruído a livre circulação de pessoas. No local, a nossa reportagem verificou que muitas pessoas, para evitarem os incómodos dos vendedores ambulantes, optam por fazer a travessia na estrada, correndo o risco de atropelamento.

Seguimos em direcção às pedonais da Shoprite e da Fermat, na Estrada Nacional 230 ou Estrada de Catete. É na pedonal da Fermat onde reside o perigo. Feita em metal, o avançado estado de degradação é visível.

Chapas soltas, pilares de sustentação corroídos, buracos na estrutura de passagem e abanões frequentes, em virtude do movimento de viaturas. “É uma pedonal imprópria para cardíacos”, atirou um dos transeuntes. É a pedonal utilizada frequentemente pelos populares dos edifícios da Filda, Vila da Mata e outros pontos do município do Cazenga e Capolo, no Kilamba Kiaxi. Mas, o mau estado de conservação obriga a que muitos pedestres desafiem a perícia dos automobilistas.

É o caso da passagem de nível da Unidade da Polícia Judiciária Militar do Grafanil, a escassos metros da pedonal junto à Fermat. No local, segundo relatos, registaram-se, nos últimos meses, vários acidentes, muitos dos quais resultaram em mortes.

A falta de outra pedonal próximo, para facilitar a travessia entre os municípios do Cazenga e Kilamba Kiaxi, deixa os populares sem alternativa. “Não temos outra aqui próximo. A pedonal da Shoprite está distante”, referiu Mário Dongala.

in Jornal de Angola

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