Luiz Lopes de Sequeira, o “mulato dos prodígios”
Luiz Lopes de Sequeira, o "mulato dos prodígios"
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Filho de mãe angolana e do capitão português de infantaria Domingos Lopes de Sequeira, o mestiço Luiz Lopes de Sequeira (Luanda, c. 1634 – Katole/Kassanje, 1681) distinguiu-se na História de Angola, no século XVII, como comandante militar do exército português, em quatro importantes confrontos armados contra os soberanos angolanos durante a história colonial: a batalha de Ambuíla (1665), a batalha de Mpungu-a-Ndongo (1671), a campanha do Libolo (1679) e a campanha da Matamba (1681).

O herói colonial, deu nome a um largo de Luanda e a quem José Mena Abrantes chamou “O Mulato dos Prodígios“.

Comandou as forças que venceram o revoltoso Quitequi no Reino de Benguela, em 9 de Agosto de 1679, o rei do Congo na batalha de Ambuíla, dominou o rei de Ndongo nas Pedras Negras de Pungo-a-Ndongo, em 29 de Novembro de 1671, e ainda o rei de Matamba, caindo morto nesta última acção.

O primeiro autor a dar notícia da família Lopes de Sequeira é António de Oliveira de Cadornega, quando em Novembro de 1643, durante uma trégua entre os invasores holandeses de Luanda e os portugueses de Massangano, o governador interino António Abreu de Miranda envia a Lisboa, a pedir reforços ao rei de Portugal contra os flamengos, o capitão português de infantaria Domingos Lopes de Sequeira, pai de Luís Lopes de Sequeira.

De Lisboa, Domingos Lopes de Sequeira logra seguir para o Brasil, onde, em São Salvador da Baía, consegue obter um exército de duas centenas de homens, que zarpa da costa brasileira com rumo a Angola a 8 de Fevereiro de 1645.

Esta expedição, todavia, estava votada a um destino trágico, pois, havendo desembarcado em terras angolanas a 12 de Abril – algures perto de Benguela, uma vez que a crónica refere que a tropa se embrenha pelos territórios compreendidos entre os rios Cuvo e Longa -, viria a ser totalmente massacrada, a 19 de Junho, pelos guerreiros do soba Ngunza-a-Kissama.

O “Mulato dos Prodígios” tinha, pelo menos, duas irmãs. Em contrapartida, permanecem misteriosas, quer a identidade da sua mãe, quer a sua data e localidade de nascimento.

No que diz respeito à mãe de Luís Lopes de Sequeira, tratava-se decerto de uma mulher negra, embora não necessariamente de uma escrava, como o diz José Mena Abrantes, podendo ter sido, com toda a probabilidade, uma parente de um chefe político com o qual Domingos Lopes de Sequeira, como aliás era frequente entre os oficiais portugueses, houvesse celebrado, pela via matrimonial, uma aliança com vista à salvaguarda de interesses políticos, económicos e militares.

Quanto ao nascimento de Luís Lopes de Sequeira, presumimos, tal como Mena Abrantes, que tenha ocorrido em Luanda no ano de 1634 ou no de 1635. António de Oliveira de Cadornega, mais velho do que Luís Lopes de Sequeira, apenas cerca de dez anos, tem a particularidade de ter sido o único cronista de Angola seu contemporâneo e a conhecê-lo pessoalmente.

Por este motivo, a obra de Cadornega é inegavelmente a principal fonte narrativa de três das quatro campanhas militares em que Luís Lopes de Sequeira se distinguiu: a batalha de Ambuíla (1665), a batalha de Mpungu-a-Ndongo (1671) e a campanha do Libolo (1679).

É nos primeiros meses de 1664 – portanto, por coincidência, logo após o falecimento da rainha Njinga Mbandi, ocorrido em Dezembro do ano anterior –, que o duque (ou dembo) do Uando, vassalo do rei do Kongo D. António I Manimulaza, no trono desde 1661, envia ao governador de Luanda um mensageiro dando notícias acerca de alegadas minas de ouro e de cobre localizadas em território conguês.

Entendendo que o soberano do Kongo, ao ocultar a existência de tais jazidas, desrespeitava o tratado de paz assinado em 1649 pelo seu antecessor D. Garcia II Afonso-Nkanga-a-Lukeni (reinado 1641-1652) com o então governador Salvador Correia de Sá (mandato 1648-1652), André Vidal de Negreiros apressou-se a encarregar o já então capitão-mor Luís Lopes de Sequeira de se deslocar ao local a fim de recolher amostras das ditas minas, o que, segundo Cadornega, veio efectivamente a acontecer.

Permanece misteriosa a razão pela qual o duque de Uando traiu o seu soberano e se acoitou junto dos portugueses, mas o certo é que estes se viram impedidos por D. António I Manimulaza de efectuarem as pretendidas prospecções nas quiméricas minas de ouro e cobre e, consequentemente, impelidos a declarar-lhe guerra.

A batalha de Ambuíla – sobado situado a sul do rio Dande e, tal como o ducado do Uando, já sob a vassalagem dos portugueses – travou-se no vale do rio Ulanga a 29 de Outubro de 1665. Cadornega exagera na disparidade de litigantes, pois fala de 100.000 homens armados do lado de D. António I e dos seus aliados – os duques de Mbamba, de Mbata e do Sundi, o conde do Soyo (ou Sonho) e os marqueses de Bumbi e Pemba – contra apenas 400 do lado das forças portuguesas, comandadas por Luís Lopes de Sequeira.

Estudos recentes, contudo, indicam que a componente conguesa incluía cerca de 15.000 arqueiros camponeses, cerca de 5.000 soldados de infantaria pesada equipados com escudos e espadas, e um Regimento de mosquetes de 380 homens, 29 dos quais portugueses, liderados por Pedro Dias Cabral, enquanto o lado português era composto, pelo menos, por 450 mosqueteiros e duas peças de artilharia, além de cerca de 1.500 soldados, entre os quais mercenários, quer brasileiros brancos e índios, quer ainda imbangalas (os chamados jagas) (THORTON, 1998).

Os congueses não conseguiram quebrar a formação portuguesa e, na investida final, D. António I foi morto e decapitado, sendo a sua cabeça – assim como a coroa de prata revestida de pedrarias, outrora oferecida pelo Papa Inocêncio X – transportada para Luanda, onde foi depositada com solenidade na recentemente erguida Igreja da Nazaré.

A querela de Mpungu-a-Ndongo (ou Maupungo ou Pungo a Ndongo) é indissociável da disputa centenária travada entre os portugueses e os mbundu pelo controle da rota comercial do escravo entre o interior e o litoral angolano, particularmente ao longo do corredor do rio Cuanza.

A fonte narrativa mais remota para o relato da campanha da Matamba, esse empreendimento militar onde Luís Lopes de Sequeira perderia a vida – durante a batalha de Katole, a 4 de Setembro de 1681 –, mas que a historiografia colonial elege como o encerrar do ciclo da “Conquista do Reino de Angola”, uma vez que dele sai derrotado D. Francisco Guterres Ngola Kanini, é a “História de Angola” de Elias Alexandre da Silva Corrêa (Rio de Janeiro, 1753-?).

Após prolongada caminhada a partir de Ambaca, o exército acampa em Katole, a três dias de jornada da corte de Francisco Guterres. Contudo, na madrugada de 4 de Setembro de 1681, é surpreendido na retaguarda por um ataque do inimigo e pela propagação de um incêndio provocado pelos assaltantes. Luís Lopes de Sequeira consegue dominar a situação e orientar os seus lugares tenentes no sentido de as forças portuguesas saírem vencedoras da contenda, mas perde a vida trespassado por uma flecha.

A descrição deste episódio por Elias Alexandre da Silva Corrêa é, por ventura, o primeiro registo escrito da representação que, ao longo de cem anos e pela via da oralidade, vinha sendo construída em torno do estatuto de herói que coube a Luís Lopes de Sequeira, quer no tocante à sua reputação de invencibilidade, quer no que diz respeito ao mito sobre o seu enigmático assassínio:

“[…] e também morre, /que sensível perda /, o famigerado Sequeira, este ilustrado Comandante, terror dos Sertões, e honra dos Angolenses: contudo os portugueses vencem; e assim consegue o memorável e falecido Chefe ser o vitorioso até o fim dos seus dias; por que não gozem os inimigos a vaidade de vencer a quem jamais poderão competir. O seu Nome respeitado, ainda hoje é temido entre os bárbaros; e as suas Cinzas veneradas entre os brancos. […] A maior sensibilidade que sentiu a conquista portuguesa nasceu da presunção de que não foi inimiga mas sim traidora a flecha que, com pontaria certa, atravessou o Coração deste invicto Comandante, e o derrubou do Cavalo, subitamente morto. Efeitos, sem dúvida, da emulação e inveja sempre oposta ao valor e fortuna daquele famoso Homem, que não se podia lembrar do meio mais vil para um infame desafogo”, [sublinhado nosso] (CORRÊA, 1972, Vol. I., p. 303).

Nem o texto de Elias Alexandre da Silva Correia, nem o único documento escrito anterior que se conhece sobre a morte de Luís Lopes de Sequeira, um relatório do governador João da Silva e Sousa, datado de 18 de Março de 1682 – portanto, de seis meses depois da batalha de Katole –, são suficientemente claros sobre se a flecha que vitimou o “Mulato dos Prodígios” foi disparada pelas costas, isto é, à traição e do lado das forças portuguesas, ou se foi disparada de frente, ou seja, pelo inimigo.

Em todo o caso, são ambos unânimes em reconhecer que a causa da morte do capitão-mor foi uma flecha e não uma bala “[…] a figura de Lopes de Sequeira adquirira um grande prestígio, não isento, como sempre acontece, dos dissabores provenientes de mesquinhas invejas: a sua qualidade de mestiço mais uma vez o tornou alvo de despeitos, que facilmente se poderão imaginar, tratando-se de uma sociedade em que perduravam os preconceitos de sangue e um invencível orgulho de raça” (DIAS, 1948, p. 151).

in África Oculta

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