Maioria e oposição bebem do mesmo copo – Jorge Eurico
Maioria e oposição bebem do mesmo copo - Jorge Eurico
JL e ACJ

Marcolino Moco redigiu um artigo intitulado “Uma Opinião Honesta Sobre a Política.” Fê-lo por decência. Por coragem e autoridade. Fê-lo por dever patriótico. Por responsabilidade moral e política. O meu respeito. A minha vénia.

No seu texto, o político e académico bate no Chico e no Francisco. Tiro a tiro. Critica sem excepção. Expõe sem medo. Arrasa a incoerência da oposição. Questiona a idoneidade moral da sua liderança.

Destapa o véu da hipocrisia reinante na política angolana, ponto a ponto. Escalpeliza o que muitos cochicham entre dentes, mas poucos ousam proclamar de peito aberto: O País está entregue a uma política de fingimento. Travestida de patriotismo. Envernizada com discursos de moral pública.

Marcolino Moco teve apenas a coragem e a serenidade de dizer o que todos sabem: A oposição política angolana anda a beber vinho no mesmo copo que o partido no poder. E esse vinho é doce. Mas embriaga a consciência.

Falando bem e depressa: A oposição passou a agir dentro da lógica do Sistema. Ponto. A maior força da oposição é hoje o espelho deformado do mesmo poder que diz combater. Ponto. Há uma cumplicidade mal disfarçada e bem cristalizada. Ponto.

Moco recorda que a luta “nas instituições” virou piada de salão. Que a “mudança” prometida em 2022 não passou de uma operação de marketing com lágrimas de crocodilo e fundo partidário.

A moral foi substituída pela mesa dos negócios e a política pela arte de brindar entre adversários. Enquanto o cidadão-eleitor se afunda na indignidade e na fome, a elite política celebra o seu pequeno banquete de privilégios.

Eis a tragédia angolana: Confundimos perdão com cumplicidade. Reconciliação com partilha de negócios. A política virou confessionário, onde o pecador entra de fato e gravata, o padre está de férias e o altar serve vinho francês. Falamos de unidade nacional, mas o único consenso real é o preço da próxima viatura protocolar.

Marcolino Moco chama à reflexão e deixa uma advertência certeira: 2027 não pode ser a repetição da farsa de 2022. Angola precisa de uma liderança que pense no futuro da maioria. Não no futuro da sua conta bancária. Precisa de quem não colecione generais frustrados nem empresários arrependidos. De quem saiba que o perdão é virtude. Mas que a impunidade é vício. É a mãe todas a sorte de corrupção.

Angola precisa de um jovem. Mas não desses jovens que já nasceram velhos de alma, dobrados pelo conforto e pelas selfies da política de salão. Já viciados pelo vil metal. Moco não poupou o poder nem a oposição.

Fala do perdão como elo de reconstrução, mas alerta: O perdão não é abraço a quem traiu a confiança pública. É reeducação. É devolver à política a dignidade que a bebedeira do poder afogou. É ensinar à oposição que ser oposição não é ser convidado de honra à mesa do poder.

Angola precisa, sim, de perdoar. Mas não de esquecer. Precisa de paz. Mas não de silêncio. Porque o silêncio, neste país, é sempre o discurso oficial. E, como Marcolino Moco, também desejo o melhor a cada angolano. Mas desejo, sobretudo, que aprendamos a não repetir os mesmos erros com rostos novos.

O cidadão-eleitor não precisa de heróis de boutique. Precisa de líderes com vergonha. O resto, como sempre, é copo cheio e consciência vazia.

Antes de desligar o computador, uma espreitadela à minha bola de cristal confirma algumas movimentações: Adão de Almeida será, provavelmente, caucionado pelo Bureau Político e pelo Comité Central do MPLA como futuro Presidente da República; Pereira Alfredo poderá ser o próximo secretário-geral do MPLA; Manuel Homem deve rever suas ambições. O seu limite será o de governador de Cabinda; Mara Quiosa pode assumir o cargo de SG da OMA.

Observemos, atentos, as peças a mover-se no tabuleiro do poder.

*Jornalista

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido