
O antigo primeiro-ministro angolano, Marcolino José Carlos Moco, criticou ontem, quarta-feira, o silêncio do Presidente da República, João Lourenço, perante os graves episódios de violência e repressão policial registados em Luanda, nos últimos três dias, na sequência da greve dos taxistas.
Em mensagem publicada nas suas redes sociais, Moco manifestou preocupação com a ausência de um pronunciamento oficial do Chefe de Estado, após a morte de, pelo menos, 22 pessoas, alegadamente às mãos da Polícia Nacional, durante os tumultos que ocorreram entre segunda e quarta-feira, marcados por vandalismo, pilhagem e repressão violenta.
“Preocupa que o PR ainda nada tenha dito, até ao momento que escrevo este texto”, escreveu Moco, sublinhando que a actual situação era uma “inevitabilidade fatal” há muito anunciada, resultado de uma governação centrada em perseguições selectivas, estigmatização da oposição e culto à bajulação.
O também jurista e académico alertou para o risco de que o próximo discurso presidencial se limite a apontar culpados externos, sem assumir responsabilidades internas pela deterioração da situação política e social no país.
Marcolino Moco apelou ainda a que João Lourenço reflicta sobre os erros estratégicos cometidos e assuma uma postura de reconciliação, através de um diálogo nacional inclusivo, como forma de garantir que as eleições gerais de 2027 se realizem num ambiente de liberdade, transparência e esperança.
“Que o próximo discurso não venha ser a apresentação de mais um arraial de culpados que não sejam os que contribuíram para a não aplicação do slogan ‘corrigir o que está mal e melhorar o que está bem’”, declarou.
O antigo chefe do Executivo alertou ainda para o perigo de manipulação política da crise, sugerindo que determinados sectores possam estar a explorar o clima de instabilidade para justificar um eventual terceiro mandato presidencial, o que, nas suas palavras, poderia desencadear um cenário semelhante ou pior que o trágico 27 de Maio de 1977.
“Que, nesta hora grave, Deus ilumine o Presidente João Lourenço, para que inicie um rumo que não traga mais sacrifícios a este povo martirizado, devido aos nossos equívocos, como elite política que governou o país durante estes 50 anos”, concluiu.
A posição crítica de Moco surge num momento de forte tensão social em Luanda, após a subida do preço do gasóleo e o consequente aumento das tarifas de transporte, que desencadearam protestos, vandalismo e confrontos entre manifestantes e forças de segurança, deixando dezenas de mortos e feridos.