
Mercado financeiro ilegal existente no bairro Mártires de Kifangondo, em Luanda, está sempre disponível a atender os clientes mesmo que necessitem de milhões, quando os bancos comerciais nunca os têm a tempo oportuno, mesmo com remessas cíclicas que recebem do Banco Nacional de Angola (BNA).
O que se está a passar mina o bom desempenho da economia já que a inflação tem ali origem. Experts sugerem mais uma ‘Operação câncer’, para “correr com os estrangeiros”, que aqui se instalaram num exercício que só atrapalha o desenvolvimento sustentável do país.
Nos bancos comerciais há dificuldades para a movimentação de contas em dólares, ou em euros, uma situação agravada desde 2017 pelo Governo, sob o pretexto da crise económica e financeira que o país atravessa.
Dois anos depois, isto é, em 2019, veio um instrutivo do Banco Nacional de Angola (BNA) a dar ‘luz verde’ para a movimentação de contas em moeda estrangeira. Nesta altura, o BNA pediu aos bancos comerciais para que permitissem aos clientes aceder às suas contas sem constrangimentos.
Mas na prática, as coisas nunca funcionaram devidamente até hoje, já que mesmo desejam do viajar para o estrangeiro, em negócios, turismo, ou mesmo por motivos de saúde, o cidadão depara-se com uma multiplicidade de evasivas da falta de ‘notas verdes’, em tempo útil, nos balcões dos bancos.
Há momentos em que os funcionários bancários mandam aguardar nestes termos: “Caro cliente não temos ainda disponibilidade, mas o seu pedido será atendido, logo que possível”. O desespero do necessitado, começa logo ali, já que leva muito tempo o banco responder, quando o utente precisa de aceder ao seu dinheiro com urgência.
O problema não acontece apenas com o cidadão comum, mesmo os empresários, de param-se também com imensas dificuldades burocráticas sempre que queiram dis por de divisas para a importação.
É exactamente no meio deste imbróglio que surge como alternativa o mercado informal de divisas, onde o Mártires de Kifangondo leva vantagem.
“Este Mártires de Kifangondo é um mistério que tem de ser desmistificado rapidamente e de forma definitiva, porque quando se tenta derrubar esta praça financeira ilegal, de repente volta novamente a funcionar em cheio. É isto que está a dar cabo da nossa economia”, constata o economista Alexandre Manuel.
O empresário Adelino Pedro Sachilombo, com interesses na actividade agropecuária também lamenta a problemática dos dólares que já não pode movimentar para impulsionar a sua actividade.
“Sou agricultor e por vezes preciso também de me deslocar ao estrangeiro e observar como os outros lá trabalham e ao mesmo tempo desanuviar, mas sempre me foi negado o acesso ao dinheiro, por desconfiarem que talvez o receba para de seguida trocá-lo na rua, quando precisava para conhecer outros mundos ”, contou.
Agastado com a situação do seu dinheiro domiciliado num dos mais importantes bancos comerciais existentes, Sachilombo decidiu em tempos encerrar a conta, trocando o valor em divisas por kwanzas, no balcão, ao câmbio mais baixo do que o praticado na rua, onde uma nota de 100 dólares é actualmente vendida acima de 100 mil kwanzas.
E como um azar nunca vem só, viu a sua conta em kwanzas também ser violada ao serem fraudulentamente subtraídos cerca de cinco milhões de kwanzas, num processo que encaminhou à justiça que, entretanto, “está muito lenta a tratar do caso”.
“Abomina a forma como a polícia e a própria justiça actuam em processos do género. No meu caso concreto, desconfio que a operação fraudulenta tenha sido orquestrada a partir do interior do próprio banco”, indicou.
Como funciona o ‘Wall Street de Luanda’?
Em 2017 a polícia levou a cabo uma mega-operação para encerrar a venda ilegal de moeda estrangeira, em Luanda, e o Mártires foi o foco principal, tendo sido apreendidos oito milhões de dólares e 16 milhões de euros, além de duas máquinas para o fabrico de dinheiro.
Uma operação muito aplaudida seria, porém, ‘sol de pouca dura’ num exercício que se pensava que fosse durar no tempo. Hoje, o Mártires voltou em grande a mandar na comercialização de divisas, uma prática que decorre sob o olhar impávido e sereno das autoridades.
Não há divisas nos bancos comerciais, como seria de esperar, mas há sempre no mercado informal. “Isso indica que há ligações muito fortes entre esse mercado e algumas entidades bem posicionadas no aparelho de Estado que deixam andar esse negócio para benefício próprio”, acusa um antigo adido militar angolano que trabalhou por vários anos na República Democrática do Congo (RDC).
Quem comercializa divisas no mártires são, na sua maioria, cidadãos estrangeiros como malianos, gambianos, guineenses, congoleses, entre outros. Esse oficial superior das Forças Armadas Angolanas (FAA), que por “razões óbvias” prefere o anonimato, acha que essa anarquia que se verifica no mercado financeiro nacional só pode acabar com o desmantelamento desses cartéis de divisas que, no seu ver, não agregam nenhum valor à economia.
“Desactivar os malianos e outras nacionalidades que estão na venda ilegal de divisas é também uma questão de soberania”, afirmou o oficial, salientando que, “na qualidade de militar muito viajado”, sente a necessidade de se “mover um combate a esse fenómeno nocivo ao nosso bem-estar”.
O nosso dinheiro não deve servir de abano nas ruas. Assim se exprimia o empresário Luís Gonzaga Teca que sempre criticou o comércio ilegal de dólares exercido por estrangeiros que acabam por ditar as regras do mercado.
Na verdade, a cotação, ou o ‘sobe e desce’ do dólar, ou do euro, é influenciado grandemente por estes ‘candongueiros’ de moeda que “vão se rindo ao conseguirem impor o seu jogo aos angolanos”.
“Quem permite que se mantenha o Mártires com toda essa anarquia conhecida da venda de dólares, não está interessado na produção nacional”, diz por sua conta o empresário Fidelino Queiroz que também, sugere acabar com o Mártires, ao mesmo tempo que aponta o aumento da produção para uma maior oferta de bens e serviços o que levará à valorização do kwanza.
Um há muito identificado
Num recente artigo publicado na sua conta no Facebook, o jornalista Jorge Eurico fala de um suposto ‘rei dos câmbios em Angola’, que identifica como Papá Bary. O artigo não refere a nacionalidade do homem, mas diz ser um cambista informal com muito poder e autoridade.
“Está muito à vontade em Angola. Mais que os cidadãos nacionais. Tem o seu escritório num dos andares do Hotel Presidente em Luanda. É o homem que abala a estrutura do sistema financeiro angolano”, aponta.
De acordo com o escrito, Papá Bary faz operações de câmbio para o estrangeiro de forma irrestrita e ilimitada, fazendo o que os bancos comerciais não fazem.
“Nessa empreitada conta com o concurso dos seus parceiros espalhados por Luanda. O ‘câmbio do dia’ é determinado por ele e adotado escrupulosamente. As regras do jogo são ditadas no bairro Mártires de Kifangondo. É lá que são determinadas impõe a política cambial e a regulação da moeda. É um Banco Nacional de Angola (BNA) paralelo”, sublinha o artigo.
Apontando que as autoridades sabem da existência de Papá Bary e dos seus esquemas, dos seus parceiros, do impacto negativo que tais esquemas causam ao sistema financeiro angolano, mas nada fazem, “não se sabendo se as autoridades assobiam para o lado por conveniência ou falta de vontade política”.
Como indica, a soberania económica do país está em risco há muito tempo. E prossegue: “O sistema económico e financeiro angolano é completamente dominado por cidadãos estrangeiros, sendo assim desde 1980”.
Ainda assim, mesmo que os cambistas informais estrangeiros tenham o Estado angolano no ‘cafrique’, o artigo sugere que é possível resgatar a soberania financeira do Estado angolano desde que haja coragem e vontade política.
“Desde que se desencadeie mais uma outra ‘Operação Câncer I e II’ com o fito de botar a correr os cambistas informais estrangeiros que criam constrangimentos à economia nacional”.
in Pungo a Ndongo