
Vai hoje a enterrar em Doha, no Qatar, o mais alto dirigente político do Hamas fora dos territórios palestinianos, Ismail Haniyeh, morto na madrugada de quarta-feira no Irão, após participar na cerimónia de tomada de posse do novo Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, num atentado que está a ser atribuído aos serviços secretos israelitas.
Telavive não assumiu até agora a autoria da operação, que, de acordo com os media, terá sido executada com um míssil de alta precisão. Além de Haniyeh, o ataque ceifou a vida do seu guarda-costas. A mesma media avança que não é costume a Mossad – os serviços secretos israelitas – reivindicarem as suas acções.
Para o jornal francês Le Figaro, “embora Israel não tenha reivindicado a responsabilidade pelo ataque, todos os olhares se voltaram imediatamente para ele. Porque o Estado judeu é o único país que pode atacar desta forma e tem razões para o fazer. E porque desde a sua criação em 1948, desenvolveu uma verdadeira cultura de assassinato selectivo”.
Na quarta-feira, o Primeiro-Ministro israelita, Benjamin Netanyahu, fez um pronunciamento que, na prática, encerra um apelo à mobilização geral.
“Dias difíceis estão por vir. Desde o ataque em Beirute (operação israelita que matou o comandante Fuad Shukr, do Hezbollah), foram ouvidas ameaças de todos os lados. Estamos prontos para enfrentar qualquer cenário e continuaremos unidos e resolutos diante de qualquer ameaça. Israel pagará um preço elevado por qualquer agressão contra nós, seja qual for a sua origem“, disse Netanyahu, que admitiu que Israel desferiu duros golpes aos representantes do Irão nos últimos dias, incluindo o Hamas e o Hezbollah, mas não mencionou o assassinato de Haniyeh.
Não obstante as autoridades israelitas afirmarem que não pretendem a regionalização do actual conflito contra o Hamas, o crescendo de tensão que tem vindo a ser observado, a própria dinâmica dos factos e o cada vez maior impacto político dos mesmos apontam para um desejo do Governo de Netanyahu de escalar a guerra.
As últimas acções militares estão em consonância com o discurso musculado que o Primeiro-Ministro israelita tem vindo a brandir, com especial ênfase para o discurso que fez no Congresso norte-americano, em Washington, onde esteve de visita há uma semana.
Para as autoridades iranianas, este atentado em Teerão, que matou o líder do Hamas, é um desafio enorme aos seus serviços de segurança, na medida em que expõe de forma dramática as suas fragilidades.
Ismail Haniyeh era o líder político do Hamas no exílio e circulava entre o Qatar e a Turquia. Mas os serviços secretos israelitas preferiram esperar por essa oportunidade de ele se deslocar a Teerão para executar a operação em solo iraniano.
Com essa acção, Israel envia uma mensagem clara de que pode eliminar os seus oponentes onde quer que eles se encontrem. De modo muito particular, é um desafio ao Irão enquanto potência militar regional, e acontece depois do ataque israelita, em Abril, ao Consulado iraniano em Damasco, na Síria, que já havia feito subir a tensão entre os dois países.
Na altura o Irão ripostou com o disparo de mais de 200 mísseis e drones contra Israel, numa acção inédita, mas que foi feita com aviso prévio, o que deu tempo a Telavive e aos países seus aliados de se prepararem para neutralizar a maior parte dos engenhos e evitar estragos maiores.
O Irão já disse que vai ripostar. Mas quer o Irão quer o Hamas também anunciaram que não desejam uma escalada da guerra que opõe o grupo armado palestiniano a Israel na Faixa de Gaza.
O assassinato de Ismail Haniyeh vai, com certeza, atrasar as negociações entre Israel e o Hamas para um cessar-fogo em Gaza e a libertação de reféns – mais de cem – que ainda se encontram sob cativeiro. Mas isso pouco parece importar a Netanyahu, para quem quanto mais tempo a guerra durar e poder extremar as posições, mais tempo o seu Governo permanece no poder e adia o acerto de contas com o eleitorado israelita.
A forma como Netanyahu está a conduzir a guerra tem causado embaraços à Administração Biden, que gostaria de ver um acordo de cessar-fogo ser alcançado e celebrar a libertação de reféns, uma vez que entre eles encontram-se cidadãos com nacionalidade norte-americana.
O número de civis palestinos mortos desde o início da operação militar israelita em Gaza fez desencadear uma onda de manifestações de protesto nos Estados Unidos, em particular nas universidades, que chegaram a juntar árabes e judeus que condenam a guerra e sobretudo a morte de crianças inocentes.
Pressionada por esses acontecimentos e não podendo estar indiferente a uma franja significativa de eleitores, Kamala Harris, que se perfila agora como candidata democrata às presidenciais de Novembro nos Estados Unidos, em substituição de Joe Biden, optou por marcar um certo distanciamento em relação a Netanyahu. Mantém o apoio a Israel, reconhece o seu direito a defender-se, mas considera que é imperativo que se chegue a um acordo de cessar-fogo.
Kamala Harris sabe que ir a eleições com esta situação por resolver é um incómodo que pode se tornar ainda mais perturbador para a sua campanha se, porventura, as coisas piorarem e as responsabilidades forem atribuídas à Administração Biden.
*Jornalista