Memória do arroz – Artur Queiroz
Memória do arroz - Artur Queiroz
arroz massa

Naquele tempo ia com o Brukutu Estiloso ver a saída das alunas do Colégio das Madres também chamado São José de Cluny. Meninas manda-fama! Todas branquinhas, algumas loiras, e no meio um mestiça. Não nos davam confiança mesmo quando lhes dizíamos que eram mais belas do que a lua espraiada na baía. Rosqueiros.

Um dia passávamos diante do belo edifício, todo murado, não fosse alguém atrever-se a penetrar naquele templo de beldades femininas. Uma jovem freira estava numa das varandas.

Mano Brukutu disse com um tom melífluo: Boa tarde madre! E a irmã da caridade, muito simpática, respondeu: Boa tarde!

Brukutu voltou à carga: Madre posso dizer-lhe um piropo? E a freirinha respondeu sorridente: Podes!

Aí ele rebentou: Eu sou melhor do que Deus para casar. Case comigo, menina! A freirinha retirou-se da varanda deixando no ar um discreto adeus. Voltou para Deus.

O Brukutu: Viste mano? Ela deu-me sorte!

Tudo mentira. Anos mais tarde acabou embrulhado com uma bailarina da Tamar, que o trocou por um roceiro cheio de dinheiro do café. Ao ser rejeitado tentou suicidar-se, cortando os pulsos com uma Lâmina nacet jacaré.

Levei o meu avilo para a urgência do hospital no meu velho Skoda que só virava à esquerda porque quando estacionava, batia com a roda direita da frente nos passeio. Partiu a rótula. Desde então o meu sonho é morrer ao volante de um Rolls-Royce La Rose Noire Droptail. Não é por vaidade.

Mas quem anda num veículo desses não é amigo do Brukutu Estiloso nem suja os estofos do carro com sangue. Um dia vou descobrir por que razão os milionários não se matam nem vão presos!

Vera Daves também não. Porque será? Dezenas de altos funcionários de um serviço que ela tutela foram presos por estarem implicados em desvios de milhões dos cofres públicos, à sua guarda. A senhora continua exibir penteados e óculos a condizer com roupas de marca.

No governo de João Lourenço ninguém sabe o que é responsabilidade política. Também não sabem o que é pobreza. Por isso aceitam as ordens do FMI, Banco Mundial e outros patrões, que tornam os pobres ainda mais pobres.

Os donos ordenam: Acabem com os subsídios aos combustíveis! E eles obedecem, em vez de acabarem com as mordomias e os desvios dos milhares de biliões. Mobutu volta. Estás desculpado.

A refinaria de Luanda sempre garantiu a produção de gasolina, gasóleo, gás de cozinha e combustível para aeronaves. Até à Independência Nacional, Angola não importava produtos refinados de petróleo.

Graças a fortes investimentos do Estado, hoje tem capacidade para refinar 65 mil barris de petróleo bruto por dia. São dois milhões de litros/dia de gasolina e quatro milhões, de gasóleo.

Angola tem 12 milhões de adultos. Cada um pode consumir seis litros de gasolina e 12 de gasóleo por dia. Este ano estão em circulação cerca de 2.500.000 veículos automóveis.

Nos últimos cinco anos, Angola importou 15.000 veículos certificados para carga. Camiões. Podem tomar banho em gasóleo refinado em Luanda!

As autoridades distribuíram 1.991 autocarros a operadores privados nas províncias, entre 2019 e 2024. Este ano já circulam mais 500 e em breve entram em circulação 600 novos autocarros.

Na capital, existem atualmente em circulação 270 autocarros para transportes públicos. Os especialistas dizem que precisamos de 450! Que seja. Também podem tomar banho no gasóleo da refinaria de Luanda.

Não precisam da produção das excelentes refinarias do Lobito e Cabinda onde o Estado já investiu biliões de triliões. Mas valeu a pena. Perguntem ao Pai Querido, ao Diamantino Azevedo, ao chefe Miala e ao Empregado do Povo.

Naquele tempo em que dávamos tudo pela Independência Nacional, Luanda não tinha comida. Mas o meu compadre Tarique Aparício todos os dias me punha à frente um prato com arroz e peixe-espada.

Quando ele não tinha nada para me dar, assaltava a casa do meu compadre Ndozi, onde a minha querida Mana Netita tinha sempre alguma coisa para dar ao dente. Sem abusos. Nunca mais quis ver à frente peixe-espada e quanto ao arroz, só mesmo na memória.

Volto ao princípio. Uma irmãzinha da caridade gravou um vídeo onde afirma que os salários estão enterrados cada vez mais fundo e o arroz nas mesas das famílias é apenas uma memória.

Não frequento religiões, nem morto. Mas quando era menino, o padre capuchinho Samuel ensinou-me a amar os meus irmãos longínquos. Isso do amor aos próximos é muito fácil.

O meu amigo cónego Apolónio ensinou-me que amar o Povo Angolano é viver com ele, nos bons e maus momentos. O Papa Francisco avisou que vivemos num sistema que mata os fracos e torna os ricos mais ricos Agora uma freira de fala doce e sorriso bondoso veio dizer-me que falhámos em toda a linha. Nem conseguimos matar a fome aos famintos.

Ouvi a madre cujo nome não conheço e fiquei envergonhado. O que ela disse, dito por um facínora travestido de político, metia-me nojo. Dito por ela deixou-me de rastos. Perdão, minha irmã. Perdão, meu povo.

Dou comigo a pensar que o discurso daquela freira anónima tinha que ser proferido obrigatoriamente por um dirigente do MPLA.

Dirigentes, militantes, simpatizantes e amigos do MPLA só pensam em apoiar João Lourenço. Precisa de mais apoios para quê, se já tem uma maioria parlamentar apoiando o Titular do Poder Executivo, o Presidente da República, o Chefe de Estado, o comandante supremo das Força Armadas? Mistério!

No sábado passado houve uma manifestação em Luanda contra o aumento absolutamente injustificado dos combustíveis, Esta acção política só podia ser convocada pelo MPLA. E à frente tinha de ir o líder, todo o Comité Central e todo o Bureau Político. Nada.

Minha querida irmãzinha da caridade. Por favor, candidata-te à direcção do MPLA no próximo congresso. Tens o meu voto. Posso dizer-te um piropo? Gosto tanto de ti como das Mamãs que me deram a vida e me alimentaram quando era criança. Deram-me o leite materno que minha Mamã não tinha.

Informo que o líder do MPLA e os membros da direcção que lhe permitem todos os desmandos estão a fazer muito mal ao Povo Angolano. Mas mais, muito mais, ao MPLA.

Mais um dia que passou e os caloteiros da Administração da Empresa Edições Novembro não dizem como e quando vão pagar o que me devem há dez anos. Abusam porque têm o apoio da tutela, do Empregado do Povo e do deputado Faria. Não chega! Eu tenho do meu lado a freirinha que denunciou os baixos salários e a falta de comida na mesa do Povo.

*Jornalista

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