Mera coincidência – Graça Campos
Mera coincidência – Graça Campos
opais

Produto da Nova Media, o maior grupo empresarial privado de comunicação social que alguma vez já existiu em Angola, o semanário O PAÍS chegou ao mercado em 2008 e definia-se a si próprio como o “jornal da nova Angola”.

Nunca se percebeu exactamente de que “nova Angola” o jornal falava. Em 2008, o cabritismo, disfarçado no que o então Presidente da República definiu como “acumulação primitiva do capital”, estava no auge.

A Constituição da República estava muito longe de abrigar elementares direitos e deveres em sociedades modernas.

Tal como hoje, também naquela altura o MPLA e o seu presidente, que também era o Presidente da República, eram o que hoje se diria “donos de tudo isto”.

Tal como hoje, também em 2008 os principais dignitários do regime se locupletavam aberta e despudoradamente do erário.

Tal como hoje, também naquela altura enfermidades como cólera, malária, doenças diarreicas e outras custavam diariamente vidas de várias centenas de angolanos, crianças sobretudo.

Com todas essas “malambas”, não era possível perceber a “nova Angola” de que falava o novel jornal.

O País nunca explicou onde terminou a “velha Angola” e começou a “nova”. Dezassete anos depois, o enigmático slogan foi reciclado por uma turma criada especificamente para idolatrar o Presidente da República, o que faz através de um portal.

De acordo com os novos lambe-botas, que incluem um transfuga da UNITA, indivíduo que, muito provavelmente, contribuiu com um nutrido feixe de lenha para a fogueira em que Jonas Savimbi incinerou, nos anos 80, mulheres e bebés, sob a acusação de serem feiticeiros, o Presidente João Lourenço é hoje o rosto reluzente de uma “Nova República”.

Mas, diferentemente do jornal, os idólatras de serviço são mais precisos e estabeleceram um horizonte temporal. Segundo eles, a “Nova República “foi iniciada em 2017 e alicerçada em 2022”.

Lendo-lhes, o leitor fica sem saber se os escândalos na Justiça, a sobrefacturação de aquisições públicos – como, por exemplo, autocarros que custam 500 mil dólares por unidade –, a adjudicação simplificada que transitou de excepção para regra e outros e muitos males, cabem na Nova República iniciada em 2017 e alicerçada em 2022.

Não se sabe se será mera coincidência, mas o director do jornal O País, à data em que falava de uma “nova Angola”, exerce hoje função importante na Presidência da República e, por via disso, é muito provável que tenha estreitos contactos com os criadores da “Nova República”.

*Jornalista

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