
A Guiné-Bissau viveu hoje um dos seus momentos mais críticos das últimas décadas, após intensos tiroteios junto ao Palácio Presidencial, em Bissau, por volta das 12h40, que culminaram na tomada do poder pelos militares e na alegada detenção do Presidente cessante Umaro Sissoco Embaló.
A tensão tomou conta da capital, onde se registou a circulação de tropas e o controlo militar das principais vias de acesso ao centro político do país.
Numa declaração transmitida pela Televisão Pública da Guiné-Bissau, o Comando Militar para a Restauração da Ordem Constitucional anunciou ter assumido “a plenitude dos poderes do Estado” e justificou a intervenção com a descoberta de um suposto plano destinado a desestabilizar o país.
Segundo Denis N’tchama, que leu a comunicação oficial, o alegado complô envolveria políticos nacionais e estrangeiros, a participação de um conhecido barão da droga e a existência de um depósito de armamento de guerra ligado a uma tentativa de manipulação dos resultados eleitorais.
Os militares decretaram a destituição imediata do Presidente da República, o encerramento de todas as instituições do Estado, a suspensão do processo eleitoral, o fecho das fronteiras terrestres, marítimas e do espaço aéreo, bem como um recolher obrigatório entre as 19h00 e as 06h00.
Todas as atividades dos órgãos de comunicação social foram igualmente suspensas até que “as condições para o pleno retorno à normalidade constitucional” estejam asseguradas.
Fontes próximas da Presidência e publicações atribuídas a estruturas ligadas a Sissoco Embaló afirmam que o chefe de Estado foi detido por militares associados à etnia balanta.
Relatos indicam que homens fortemente armados assumiram o controlo do Palácio Presidencial num momento em que a Comissão Eleitoral Nacional se preparava para anunciar os resultados das eleições gerais de domingo. Tanto Embaló como o candidato da oposição, Fernando Dias, reivindicavam vitória na primeira volta.
Um porta-voz do Presidente, Antonio Yaya Seidy, declarou à agência Reuters que indivíduos armados não identificados atacaram a sede da comissão eleitoral com o objetivo de impedir a divulgação dos resultados, prevista para quinta-feira.
Há também informações sobre a detenção do Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, do vice-Chefe do Estado-Maior e do ministro do Interior, Botché Candé, aprofundando a crise institucional.
As eleições de domingo já decorriam num ambiente controverso, marcado pela ausência do PAIGC, impedido de apresentar candidatos devido a alegadas falhas na entrega atempada da documentação. O país continuava a aguardar os resultados oficiais quando a intervenção militar interrompeu o processo.
Com um histórico de instabilidade política e pelo menos nove golpes ou tentativas desde 1974, a Guiné-Bissau entra agora numa nova fase de incerteza.
Os militares apelam à calma da população, enquanto a comunidade internacional aguarda esclarecimentos e tenta avaliar a profundidade da ruptura institucional em curso.