
Miramar, criado a partir dos anos 30 do século XX, é um bairro de Luanda com uma das melhores vistas panorâmicas para o litoral. Antigamente, a circunscrição era um espaço rodeado de capim, numa altura em que não existia qualquer construção para lá da antiga lagoa do Kinaxixi. Com o decorrer dos anos, transformou-se num dos bairros mais selectos da capital do país.
O icónico bairro Miramar é um dos poucos de Luanda que, além de preservar a identidade cultural de um povo hospitaleiro e divertido, conta com construções de alto padrão com vista incrível para o mar.
Situado no município do Sambizanga, o Miramar está dividido em dois quarteirões e é considerado um dos melhores bairros luandenses, muito por conta da sua urbanidade, lugares icónicos, bem como dos espaços de lazer que oferece.
Desde o tempo colonial, o bairro é tido como local de prestígio, com as suas moradias de alto padrão e o simbolismo de lugares carregados de história que o tornam igual a si mesmo e diferente de outros bairros.
À semelhança dos bairros Alvalade, Vila Alice, Vila Clotilde e Saneamento, só para citar estes que antigamente não eram considerados musseque, o Miramar cresceu de forma notável.
Construída de acordo como os preceitos da arquitectura modernista, a emblemática circunscrição foi, durante muitos anos, habitada por gente importante proveniente de Portugal.
Depois ganhou um grande simbolismo político, porque foi também ali que, a partir de 1975, à semelhança do bairro Alvalade, passaram a residir membros da elite governamental, partidária e militar da Angola independente.
O Miramar, que se confunde com o bairro do Saneamento, viu nascer nos anos 70, concretamente nas imediações do cemitério do Alto das Cruzes, mais de cinco prédios mandados construir pela Cooperativa Alegria pelo Trabalho.
É nos confortáveis apartamentos destes imponentes edifícios onde residiam alguns dos quadros médios do funcionalismo público. Os emblemáticos imóveis tornaram-se, também, verdadeiros cartões de visita da circunscrição.
A par da gente de elite (altos funcionários de companhias petrolíferas e diamantíferas) e dos funcionários públicos de médio escalão, residiam no bairro famílias da pequena burguesia.
Arejado e calmo, o Miramar, tal como o Alvalade, era considerado bairro das embaixadas, pelo facto de acolher um número significativo de representações diplomáticas. Isso contribuía imenso para o seu elevado estatuto.
Ilídio Brás, que vive no bairro há mais de 40 anos, refere que a zona onde está a Embaixada dos Estados Unidos da América, entre 1624 e 1654, período da ocupação de Luanda pelos holandeses, era um cemitério, o chamado Cemitério dos Holandeses.
Origem do bairro
Como dito acima, o bairro Miramar nasce nos primórdios dos anos 1930, na encosta de uma pequena montanha de terra vermelha e capim alto e verdejante. O local era regularmente frequentado por animais selvagens que por ali procuravam as suas presas.
Os garotos residentes nas zonas adjacentes iam ao local para brincar, caçar pássaros com visgo e apanhar piteiras e outras frutas silvestres. Uma narrativa sobre as origens indica que o Miramar era uma extensão do Bairro Operário, que era propriedade da família Burity.
O nome Miramar diz muito sobre a localização do bairro, que na verdade é um “miradouro do mar”. Efectivamente, o nome tem a ver com a maravilhosa vista que o bairro oferece, sobretudo em direcção ao mar, mas, também, para outros pontos.
“Se repararmos, a cidade tem alguns pontos altos. Estamos a falar do Miramar, do Mutu-ya-Kevela e da Nocal. A partir do actual Hotel Intercontinental, a panorâmica do pôr-do-sol é uma coisa fantástica”, afirma Ilídio Brás.
Antigamente, a partir da zona alta do Miramar era também possível ver, com nitidez, grandes planos da circunscrição e das localidades da Boavista, Ilha do Cabo, Mussulo, Sambizanga e das fortalezas de São Miguel e de São Pedro da Barra.
Miramar faz fronteira com as emblemáticas circunscrições do Cruzeiro, Ingombota, Boavista, São Paulo, Bairro Operário e Sambizanga. A arborização serve de cortina dos ventos provenientes do mar e de outras direcções. Herlander Cristóvão, antigo morador, realça o “ambiente favorável” do bairro, com o “ar fresco cheio de oxigénio”.
O Miramar sempre teve duas avenidas, sendo a principal a antigamente denominada António Enes (1848-1901, jornalista, escritor e administrador português), e actualmente, depois da Independência, Ndunduma (Rei do Bié, falecido em 1899 em Moçambique, para onde fora desterrado); a outra é a popularmente chamada Rua das Embaixadas, oficialmente rua Houari Boumedienne (1932-1978, antigo Presidente da Argélia). O resto das ruas na verdade são travessas.
Ilídio Brás conta que a rua Ndunduma já vai no seu terceiro nome. Depois de se chamar António Enes era designada rua das FAPLA, pelo facto de em 1975, pouco antes da proclamação da Independência Nacional, ter passado por ali uma coluna das ex-FAPLA em direcção a Kifangondo, onde se travou então a batalha decisiva pelo controlo de Luanda.
As travessas existentes não são muitas. Ilídio Brás afirma que “existe a travessa Companhia de Jesus, depois do largo que era Dom João II e posteriormente Praça da Unidade Africana. Uma outra está à entrada que dá para o antigamente chamado Miramar de Cima ou Zona do Frias”.
Na área acima mencionada, “próximo de um supermercado grande, dos “Zé”, havia uma grande peixaria, do Victor, logo a seguir ao Largo do Pedalé, junto ao qual viveu o ilustre comandante da guerrilha do MPLA.
Na parte de cima do bairro existe uma outra travessa, onde se situam as Embaixadas do Brasil, da Suécia e da Dinamarca. Mais acima estão as representações diplomáticas da Rússia e da China. “Portanto, o Miramar circunscreve-se a esses dois grandes quarteirões”, salientou Ilídio Brás.

Cine Miramar: Quem te viu e quem te vê
Situado no alto da encosta do bairro, com vista panorâmica para a Ilha de Luanda, e com a marginal “a seus pés”, o cine Miramar está, actualmente, mergulhado num autêntico caos, à semelhança do que acontece com o antigo cinema Avis (Karl Marx) situado no bairro de Alvalade.
A antiga sala de espectáculos clama por socorro, mas ninguém move uma palha. O cinema, que já foi uma das jóias da circunscrição, continua a cair de podre.
Nos seus velhos e bons tempos a sala ao ar livre, além de acolher os cinéfilos servia para concertos e outras actividades lúdicas. Tudo apoiado pelos serviços do restaurante-bar dotado de uma esplanada.
Hoje, este cenário está invertido. É um caos total. O antigo cinema está irreconhecível. As suas estruturas estão em acentuada degradação. Tanto no exterior como no interior é possível observar o pobre estado de preservação do que já foi uma grande sala de espectáculos.
O cine Miramar destacava-se lá no alto das barrocas do Miramar. Projectado pelos irmãos arquitectos Luís Garcia de Castilho e João Garcia de Castilho, o cinema abriu as portas no início dos anos 1960, como peça da nova vaga modernista e tropical dos cine-esplanadas.
Essa corrente arquitectónica idealizada e desenhada pela dupla de irmãos cimentou um pouco por toda a Luanda edifícios de fôlego que para lá da sua beleza estética primavam pelo lado funcional de aliviar do calor da cidade e proporcionar luz natural, a vista panorâmica nocturna e o ar puro.
A ida a uma sessão de cinema ou a outro evento qualquer no cine Miramar proporcionava a qualquer um, segundo Gabriel Pereira Bravo, antigo frequentador, a experiência de desfrutar de “um céu estrelado sem igual, um jardim mágico e o mar próximo de nós”.
Gabriel Pereira Bravo realça a “experiência memorável” de ver filmes à luz das estrelas, projetados num ecrã de 23 metros de comprimento, com a Avenida Marginal e os navios ao largo no ângulo de visão e o cheiro a maresia muito presente, a sobrepor-se ao perfume das pessoas.
“Tudo isso estava incluído no preço do bilhete”, faz notar Gabriel Bravo. “Era um esplendor, um sítio que hoje faz lembrar os primeiros amores. Tudo isso o vento levou”, rematou pesarosamente.
“No Cine Miramar quem fosse ver filme ou outro espectáculo podia consumir, nos intervalos, refrigerantes, batatas fritas, tremoços, algodão doce, gelados, e muito mais”, recorda Manuel Saturnino, morador do Bairro Operário e frequentador assíduo.
“Era aí que nos primórdios do pós-Independência a nossa juventude via a beleza da vida nascer”, frisa António Constantino, antigo morador do vizinho bairro Cruzeiro.
Espectáculo Cazumbi
Uma das marcas incontornáveis das sessões de Domingo à tarde no Cine Miramar, nos finais da década de 1960, era, sem dúvida, o espectáculo Cazumbi, apresentado por Luís Montez e que teve muito sucesso.
Podemos mesmo dizer que, com este espectáculo, o Cine Miramar tornou-se num celeiro e viveiro de talentos artísticos. A artista espanhola Marisol actuou na estreia do programa Cazumbi e, até hoje, é recordada por muitos que lá estiveram.
Gabriel Santos diz que subiu tantas vezes ao palco do Cine Miramar para actuar no programa Cazumbi que perdeu a conta. Carolina Beirão recorda que frequentou o Cine Miramar na companhia da família.
“Eu ia aos Domingos com os meus pais e irmãos ao Cazumbi apresentado por Luís Montez. Este produtor deixou de apresentar o programa quando faleceu um dos filhos”, conta.
Além de Luís Montez, empresário, produtor musical e redactor, esse programa de entretenimento, de bastante audiência nas tardes de Domingo, contava, também, com a apresentação de Alice Cruz e Artur Peres.
Jerónimo Belo recorda que o seu amigo de infância Elmer Olavo Guerreiro Pessoa, o Mitinho, começou como Rocker, voz e guitarra eléctrica, nas tardes de Domingo do programa Cazumbi.
Ilídio Brás diz que o cine Miramar sempre teve dono. “Pertencia a uma rede detentora dos cinemas Avis, Kipaca, Kilumba e Lis, em Luanda, e de outros dois localizados nas cidades do Huambo e Cabinda”.
“As pessoas, hoje, dizem que o cinema Miramar está abandonado, mas não é verdade. Tem dono. As suas instalações foram compradas, recentemente, por um grupo chinês que tem a intenção de fazer uma série de edificações lá embaixo, na encosta do Bungo, e ir subindo até ao cinema”, informou Ilídio Brás, que acrescentou não saber a natureza de tais futuras edificações.
“Deveria haver a intervenção do próprio Estado, no sentido de negociar com a empresa chinesa para dar continuidade da parte cultural”, defendeu.
Imaginação sem limites
Mário Saturnino, antigo morador do Bairro Operário, diz sentir saudades do Cine Miramar. “Tive o prazer e o privilégio de viver momentos inesquecíveis naquele local. Não há palavras para descrever o ambiente que se vivia lá. Era um sonho. A imaginação não tinha limites”.
Mário Saturnino conta que assistiu a filmes memoráveis naquele cine. “Estávamos sentados a ver o filme na tela gigante e se olhássemos à nossa esquerda víamos as luzes dos barcos no mar. Como era maravilhoso!”.
“As cervejas frescas e a coca-cola, que na época não existia na metrópole e era servida ali no restaurante… Ai que saudades!”, suspirou Aniceto Cândido.
Nas telas do cinema em referência foram exibidos filmes como “Os Dez Mandamentos”, “Trinitá Cowboy Insolente”, “Marisol no Rio”, “Muitas Noites Cinéfilas”, “Lawrence da Arábia”, “Meu Nome é Ninguém”, “Cantinflas”, dentre muitos outros que marcaram várias gerações.
“De 1967 a 1975 morei na Rua da Companhia de Jesus, numa casa da Companhia de Diamantes de Angola, a uns cinco minutos do Miramar. Perdi a conta às vezes que fui àquele cinema com fantástica vista para a Baía e o Porto de Luanda”, rememora Sousa e Santos Manuel, que lembra que, além de grandes filmes, aconteciam, também, no local, as festas de passagem de ano e de carnaval, com farra até madrugada.
“Nas sessões da matinê, quando começava a exibição do filme, o Sol em segundos mergulhava no horizonte além-mar, o que era uma maravilha. Ah, que saudades”, afirma Filipe Estevão, que morou no bairro do Cruzeiro.
Por seu turno, Manuel Carvalho diz que “na época nenhum país, certamente, teve o privilégio de algo como ver um filme como naquele cinema-esplanada. Só quem por lá passou e usufruiu dele pode falar sobre o prazer da vista deslumbrante proporcionada pelo lugar”.
João dos Reis dá a conhecer que foi no espectacular cinema que foi apresentado pela primeira vez em Angola o filme “Temática Agrícola do Andulo”, considerado como um dos primeiros filmes feitos em Angola a cores, em technicolor. A película posteriormente representou Portugal num festival internacional agrícola.
No cine Miramar, num dos canteiros do jardim, havia um exemplar da Welwitschia Mirabilis, espécie de planta considerada carnívora, trazida do deserto do Namibe.
Clube dos caçadores: Antigo local da elite
Uma das grandes referências do bairro Miramar, o Clube dos Caçadores, no tempo da “outra senhora,” era um local frequentado por gente fina e endinheirada. Mesmo os brancos de segunda, como eram tratados os portugueses nascidos em Angola, não tinham acesso a esse emblemático recinto desportivo de tiro aos pratos.
Ajardinado e com uma vista panorâmica maravilhosa, a partir deste mítico campo desportivo podia-se observar, com nitidez, as grandes infra-estruturas económicas e sociais implantadas na zona da Boavista.
Situado geograficamente ao lado esquerdo das barrocas do Miramar, numa zona fortemente cimentada para conter a erosão do solo, na via dupla que desce da marginal em direcção ao Eixo Viário até ao Bungo, era assim que se podia situar o Clube de Caçadores, eterno vizinho do Cine Miramar.
Magalhães Paiva, que viveu durante muitos anos no Miramar e foi tesoureiro do Clube dos Caçadores, recorda no seu perfil, numa das redes sociais, que trabalhou “em companhia de gente honrada”.
No pós-Independência, o Clube dos Caçadores passou a ser pertença da agremiação desportiva 1º de Agosto. O Clube dos Caçadores é o local que alberga, com regularidade, o Campeonato Nacional de Tiro na especialidade de fosso olímpico, numa organização da Federação Angolana de Tiro.

O simbolismo do Alto das Cruzes
O campo santo do Alto das Cruzes é um dos mais antigos de Luanda e carrega consigo um grande historial, acolhendo os restos mortais de muitas personalidades que em vida desempenharam cargos importantes ou se notabilizaram nas suas áreas de actividade.
Construído em 1859, o cemitério do Alto das Cruzes rapidamente se tornou restrito. Os registos dos enterramentos consultados em 1968 permitem concluir que os primeiros mortos foram lá sepultados em 1859, logo a seguir a sua construção.
Antes os mortos da elite colonial eram sepultados no cemitério do Carmo, nas traseiras da Igreja e do Convento, na direcção da Mutamba.
A Igreja e o Convento do Carmo, de arquitectura barroca/maneirista, nasceram numa fase de expansão urbana de Luanda, e de grande desenvolvimento económico no século XVII. Lá, no antigo cemitério, estão sepultados dois bispos de Luanda: D. Frei António do Espírito Santos e D. Frei Francisco de Santos Tomás.
Antes da sua construção, o cemitério do Alto das Cruzes, como quase sempre acontece em Luanda, mesmo actualmente, já existia como tal. No local, existiam cruzeiros para assinalar as sepulturas.
Das figuras emblemáticas sepultadas no campo santo do Alto das Cruzes, se destacam Pedro da Paixão Franco, considerado um dos precursores do jornalismo angolano, e Alfredo Troni, fundador do Jornal Mukuarimi, uma das publicações surgidas na segunda metade do século XIX em Luanda, no período da efervescência do jornalismo angolense.
No pós-Independência, o cemitério do Alto das Cruzes continua a ser reservado para funerais de Estado, de figuras da elite política e militar e de elementos de famílias antigas que tiveram a oportunidade de adquirir talhões.
Barrocas do Miramar: Pista das provas de motocross
As barrocas do Miramar, lá para as bandas do Eixo Viário, em tempos idos não serviam apenas para depósito dos resíduos sólidos, mas também para a realização de actividades desportivas, concretamente, o motocross.
Populares provenientes dos bairros Operário, Sambizanga, São Paulo, Cruzeiro, Rangel e Prenda, só para citar esses, iam com regularidade àquele local para assistirem às grandes provas de motocross.
As disputas para os lugares cimeiros eram acirradas. A pista de terra vermelha era previamente borrifada com água por um camião cisterna da Câmara Municipal.
Em 1973, as provas de motocross atingiram o auge, por assim dizer, e mobilizavam “quase Luanda inteira”. Os prémios eram patrocinados por empresas influentes.
Zé Antunes, um dos emblemáticos corredores dos tempos que já lá vão, conta que na altura havia grandes referências da “malta da mota” como eram os casos do Mabeco, Marito, Russo da Garelli, Nandito, Zé Ideias, Stop, Carlos Magalhães, Toni Sanguito, Carlos Aniceto, Zeca Mulato, César Peixe e o Zé Tó.
O antigo “corredor de motas” – eram assim designados os motoqueiros – recorda que foi nas barrocas do Miramar “que o Stop deu um espectáculo com uma motorizada de 250 centímetros cúbicos perante corredores belgas e congoleses que possuíam motos de alta cilindrada, que iam até aos 500 centímetros cúbicos”.
O jornalista Faustino Henrique, um dos frequentadores assíduos, na época, das provas de motocross, reconhece, numa publicação nas redes sociais, que a pista das barrocas do Miramar era uma das emblemáticas de Luanda.
Nas provas, conta Faustino Henrique, o Sambizanga, bairro onde nasceu e cresceu, tinha seu representante: Daniel Bumba “Man Henhela”.
“Man Henhela, cognominado ‘Nariz de Batata’, representava o gueto e serviu como inspiração para gerações de meninos crescidos no bairro Sambizanga”, narrou o jornalista.
Por sua vez, David Mário, jornalista emprestado à diplomacia, igualmente antigo morador do Sambizanga, na zona do Camponês, recorda que muitas vezes, integrando um grupo de amigos, rumava para as barrocas do Miramar para assistir à gincana de motorizadas.
De nomes sonantes que disputavam as provas, diz recordar-se do Vitó, Bianchi, Manecas, Lili, Néné, Mancha, Vitó Colado, Manhela, Jado, Chico Franco, João Mula, Marito, Victor Santos e Chorão.
“Eram bons tempos. Depois da prova do motocross, o meu grupo dirigia-se à praia da rotunda ou do Ferrovia, junto à Casa de Reclusão, na Boavista, para dar alguns mergulhos”, conta David Mário.

Espaço de diversão
Os garotos acorriam também às barrocas do Miramar para apanhar objectos valiosos no aterro sanitário. David Mário afirma que era comum os garotos dos bairros Cruzeiro, Prenda, Marçal, Popular, Rangel, Cazenga, Cacuaco, e não só, usarem o argumento de irem assistir ao motocross nas barrocas do Miramar mas ficarem na lixeira a recolher artigos valiosos.
Miguel Castelo, que foi morar no bairro Miramar no pós-Independência e hoje é documentarista, corrobora dizendo que as barrocas do Miramar eram “um lugar maravilhoso” para as crianças que iam para lá brincar despreocupadamente.
“Nós pegávamos em pneus velhos e arremessávamos para baixo das barrocas, muito próximo da Boavista, onde existiam algumas cubatas. Essa acção tinha como finalidade os seus proprietários nos darem corridas. Brincadeiras de crianças…”
Outras brincadeiras dos garotos no local eram as “escorregas de papelão” e as corridas de trotinetas e carros de rolamento. “Descíamos o Eixo Viário com os papelões, trotinetas e carros de rolamentos em escorregadio, e voltávamos a subir com esses brinquedos ao ombro”, conta Miguel Castelo.
Uma parte das barrocas do Miramar desapareceu no final dos anos 70, quando toda a encosta, desde o Cine Miramar até ao Eixo Viário, foi regularizada e ajardinada.
Trumunos debaixo do sol ardente
A zona onde foram instaladas algumas carruagens de comboio, aí próximo ao Cine Miramar, no tempo colonial era um grande campo de futebol, pelado, dos meninos do bairro. Havia um outro campo de terra vermelha na zona adjacente ao cemitério do Alto das Cruzes e que desapareceu com a construção, no local, do Complexo Habitacional dos Suecos. Segundo Ilídio Brás, esse campo era caracterizado por ter muita areia e toda a gente que para lá fosse jogar a bola tinha de ter uma resistência física acima da média.
Posteriormente, fruto do desenvolvimento da modalidade, a juventude local passou a jogar futebol também nos largos de Ambuíla e do Pedalé. Nestes recintos, despontaram vários craques que posteriormente ingressaram nos grandes clubes oficiais da capital. Um desses elementos talentosos, no dizer de Ilídio Brás, era o Esquerdinho, da família Cabila. “Era um fenómeno. Tivemos aqui também o Tony Bazuqueiro, que se transferiu para o Clube 1º de Agosto e depois para o Grupo Desportivo da Chela, na província da Huíla”.
Outros craques da bola, no bairro, eram o velho Manuel Loth e seus irmãos, e o famoso cabo-verdiano Lucílio. Ilídio Brás conta que Lucílio era de uma compleição física “muito grande e começava a jogar calçado, mas, de repente, tirava as chuteiras. O seu remate era muito forte”.
Miguel Castelo, antigo morador, recorda-se também dos feitos do Lucílio. “Todos jogavam de chuteiras, mas ele preferia jogar descalço. Já aconteceu ele numa truca lesionar alguém. O seu remate era mais forte que o do Loth, antigo jogador do Clube 1º de Agosto”.
O antigo treinador do 1º de Agosto, Mário Imbeloni, descobriu vários talentos no Miramar, com destaque para Mano Mano. Outros jovens talentosos eram Macaca, Miguel, Bakalof, Gomito (Jorge Gomes), e outros.
O incontornável Hotel Intercontinental
Há dois anos, o bairro Miramar ganhou, na zona do Eixo Viário, uma unidade hoteleira de grande dimensão, que, de repente, passou a ser considerada a nova coqueluche da circunscrição. Trata-se do Hotel Intercontinental Luanda Miramar, um investimento da Sonangol orçado em mais de setenta mil milhões de kwanzas.
Com um design inspirado nos contornos graciosos do diamante lapidado, o Intercontinental Luanda Miramar é o primeiro hotel angolano de cinco estrelas. Combina os mais altos padrões de luxo com a essência da capital angolana, numa experiência inesquecível. O edifício vistoso foi desenhado por um grupo sul-coreano de arquitectura, possui 25 andares, cobre uma área total de 53.153 metros quadrados e possui 389 quartos.
O multifacetado edifício, com vista privilegiada para o mar, é completamente envidraçado e desperta a atenção pelo seu estilo peculiar. Construída num local estratégico do bairro Miramar, na zona do Eixo Viário, defronte ao campo santo do Alto das Cruzes, a unidade hoteleira fica a curta distância, a pé, da Baía de Luanda.
Figuras memoráveis que residiram no bairro
No pós-Independência, várias figuras emblemáticas viveram no bairro, dentre eles o nacionalista Lopo do Nascimento, os comandantes Iko Carreira, Pedro Maria Tonha “Pedalé”, Dimuka, Mona, Guinape, o nacionalista tio Loth (pai do Loth do 1º de Agosto), as famílias Bens, Pitra, Agnelo, Amaro, Albuquerque…
Num dos prédios adjacentes a actual Maternidade Augusto Ngangula residiu o comandante Eduardo Ernesto Gomes “Bakalof”. Na Rua da Companhia de Jesus moraram figuras referenciáveis como Olímpio Freitas, a família Monteiro que tinha vindo do Bairro Operário, o Necas, o Monteirinho e o senhor Luís, que tinha uma grande oficina.
O supermercado Esperança, cujo dono era o senhor César, é guardado na memória de muitos antigos moradores como um dos maiores estabelecimentos comercias da circunscrição. Havia, também, o supermercado Supremo.
Os prédios da rua Ndunduma foram, na sua maioria, construídos pela Cooperativa Alegria pelo Trabalho, do Namibe, e por uma série de particulares portugueses.
Defronte à Brás Som havia um prédio particular que era do senhor António, um comerciante que veio para Angola com os seus 18 anos e que, apoiado por um tio, começou a fazer negócios na zona do Bengo, particularmente no Úcua e em Quibaxe, no sector da madeira.
“Foi com os rendimentos desse negócio que ele foi ao banco solicitar um financiamento, com o qual conseguiu erguer um edifício de cinco andares”, recorda Ilídio Brás.
“O comerciante António viveu aqui até pouco tempo. Teve uma grande recauchutagem aqui em baixo. Mais acima havia o chamado prédio Joaquim Teixeira, que, também era propriedade particular. Havia aqui uma série de edifícios que eram de particulares, tinham donos”, lembra o nosso interlocutor.
Conjunto musical “Grito di Povo”
Nos anos 1960, havia uma comunidade cabo-verdiana próximo ao bairro Miramar, concretamente na zona da Casa Branca e da Madeira, no Sambizanga.
Muitos membros dessa comunidade trabalhavam em restaurantes de propriedade de portugueses. Com o eclodir da guerra civil e a debandada dos portugueses, os cabo-verdianos acabaram por se tornar proprietários dos restaurantes e de outros estabelecimentos dos portugueses no bairro Miramar.
O senhor João foi um dos felizardos. Cabo-verdiano nascido na Ilha do Fogo, João era fisicamente robusto, apesar de lhe faltar um dos membros superiores.
No seu restaurante, denominado “Suiça”, herdado do seu antigo patrão, além do objecto social padrão introduziu no “menu” o jogo de cartas, o famoso “setimeio”, conhecido pejorativamente como “batota”.
Foi nesse jogo que, tendo se endividado com um dos seus empregados, o senhor João perdeu a propriedade do estabelecimento em favor de um seu empregado.
Ao contrário do que se poderia pensar, esta situação não o deixou muito aflito, pelo facto dele possuir outras propriedades de grande valor.
Na zona da Petrangol tinha terrenos onde fazia a criação de porcos e galinhas para venda em estabelecimentos comerciais do Miramar, Sambizanga e Prenda.
Dotado de uma grande veia empreendedora, o senhor João era também um promotor e dinamizador da cultura do seu país. Fruto disso, esteve na origem da criação do agrupamento musical “Grito di Povo”.
Fundado nos finais dos anos 1970 nas instalações do bar “Suíça”, o conjunto cabo-verdiano teve grande aceitação pública. Era integrado por artistas já com uma certa experiência, como foram os casos de Pedro Rodrigues (voz e guitarra ritmo), Baptista Dias (baixo), Jorge Lima (guitarra solo), Amadeu Magalhães (bateria), António Nelson (baixo) e Alfredo Miguel (órgão).
Uma das serenatas marcantes abrilhantada pelo “Grito di Povo” aconteceu na Ilha de Luanda, no chamado bairro do João, à entrada da Chicala, numa badalada casa cultural da época.
Mas era no Miramar, no bar “Suiça”, onde o grupo habitualmente se “acantonava” e fazia as suas actuações. Segundo Ilídio Brás, “era muito funaná, muita morabeza. Bebericando goles de grogue e deliciando-se com fatias de torresmo e um prato de cachupa, os boémios faziam a festa até madrugada a dentro”.
Com o surgimento da banda a comunidade cabo-verdiana passou a estar bem servida em termos de convívio e recreação. Realizavam-se noites especiais de fim-de-semana dançantes que eram abrilhantadas pelo conjunto “Grito di Povo”.
Nesses concorridos ambientes, era notória a presença massiva dos cidadãos cabo-verdianos que viviam nos arredores do bairro Miramar, como o Sambizanga, Casa Branca, Bairro da Madeira, Santo Rosa e São Pedro da Barra, só para citar esses.
in Jornal de Angola