
Faleceu na sexta-feira, 15 de Agosto, na província do Huambo, vítima de doença, aos 43 anos, Justina Ngoi César, a menina angolana cuja imagem ao lado da princesa Diana, em Janeiro de 1997, correu o mundo e se tornou símbolo da luta contra as minas antipessoais.
Justina tinha apenas cinco anos quando a sua vida mudou para sempre. Acompanhava a mãe, agricultora, até à lavra no bairro do Canhe, quando decidiram encurtar caminho por uma vereda estreita. O azar foi fatal. A criança pisou uma das milhares de minas terrestres espalhadas por Angola durante a guerra civil.
“Perdi a perna logo ali”, recordaria anos mais tarde, em entrevista à agência Lusa, em 2019. Não se lembra de como foi socorrida, apenas que a distância até casa era longa e que, a partir daquele momento, o seu destino ficou marcado pela dor e pela superação.
Cresceu entre muletas e próteses, habituando-se à rotina de fisioterapia e às dificuldades de adaptação. Foi nesse contexto que, uma década depois do acidente, os seus caminhos se cruzaram com a princesa Diana, no centro ortopédico do Huambo, hoje Centro de Reabilitação Física Princesa Diana.
Em janeiro de 1997, Diana chegou a Angola determinada a dar visibilidade ao drama das minas terrestres. Justina foi uma das 16 crianças mutiladas escolhidas para a receber.
“Disseram-nos: amanhã teremos uma visita – que era a princesa Diana – que tem o sonho de ajudar as vítimas de minas e será a madrinha dos vossos problemas. E nós fomos”, recordou.
Entre sorrisos, beijos na testa e gestos de ternura, Diana deixou uma marca que só mais tarde Justina compreenderia. “Naquele tempo, achei que foi uma coisa normal, como alguém que vem visitar-nos. Depois, quando cresci e já após o falecimento dela, percebi quem tinha sido a princesa Diana e o seu projecto para trabalhar com as vítimas de minas”.
Justina nunca se deixou vencer pela tragédia. Estudou, trabalhou e construiu família. No Huambo, integrava o gabinete jurídico do Governo Provincial e era mãe de três filhos.
Em 2006, surpreendeu ao participar num concurso de misses para vítimas de minas em Luanda, onde conquistou os títulos de “Miss Simpatia” e “Miss Fotogenia”.
Com a sua morte, Angola perde não apenas uma sobrevivente das minas, mas um rosto que deu voz a milhares de vítimas anónimas do conflito armado. A fotografia com Diana continua a correr o mundo, agora como um retrato eterno da força e da esperança.
A notícia da sua morte foi confirmada pelo Secretariado Executivo Provincial da Organização da Mulher Angolana (OMA) no Huambo, através de um comunicado fúnebre.