Morreu o escritor Jacinto de Lemos
Morreu o escritor Jacinto de Lemos
Jacinto de Lemos

O escritor angolano Jacinto de Lemos, autor de obras de referência da literatura contemporânea nacional, morreu na última sexta-feira, 5 de Setembro, em Luanda, vítima de doença, aos 64 anos de idade.

Nascido a 1 de janeiro de 1961, no Icolo e Bengo, Jacinto de Lemos destacou-se pela escrita marcada por uma linguagem simples e popular, retratando com sensibilidade e realismo o quotidiano de mulheres, crianças e comunidades marginalizadas dos subúrbios da capital.

Apesar do reconhecimento literário, o autor passou os últimos anos da sua vida em condições precárias, residindo num bairro de lata em Luanda, onde construiu um pequeno atelier de chapa para continuar a escrever.

Em entrevistas, afirmou ter produzido mais de 100 obras em dez anos, mas lamentava a ausência de patrocinadores que lhe permitissem publicar esse acervo.

Numa nota de imprensa, a União dos Escritores Angolanos (UEA) manifestou “profunda dor e consternação” pelo falecimento do escritor, destacando que a literatura angolana perde “uma das suas vozes mais genuínas e sensíveis”.

Jacinto de Lemos estreou-se em 1989 com a novela Undengue, distinguida com menção honrosa no concurso Sonangol, obra que o projetou como um dos nomes a seguir na prosa angolana.

Em 1997 publicou O pano preto da velha Mabunda (INALD), mais tarde adaptado ao teatro, e em 2001 conquistou o Prémio Sonangol de Literatura com A dívida da peixeira. Em 2008 lançou Chico Nhô, consolidando o seu lugar na narrativa angolana.

Além da ficção, foi considerado um “operário da palavra” e “griot moderno”, nas palavras da crítica Conceição Cristóvão, pela forma como conjugava oralidade, humor e crítica social.

Apesar de ter sido aguardado ansiosamente pelo público a cada lançamento, a sua produção literária recente ficou comprometida pelas dificuldades económicas e pela ausência de apoios institucionais para publicação, mesmo após a sua recente condecoração pelos 50 anos da Independência Nacional.

Com a sua morte, a literatura angolana perde não apenas um criador de histórias, mas também um símbolo das contradições entre o talento e o abandono em que muitos escritores nacionais permanecem.

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