
Faleceu, na sexta-feira, o tenente-general José João “Mawa”, antigo comandante da Unidade de Segurança Presidencial (USP), aos 68 anos, vítima de doença prolongada, soube o Imparcial Press.
Exonerado do cargo em Janeiro de 2023, após mais de duas décadas à frente da USP, “Mawa” foi substituído pelo brigadeiro Yava Zeca Félix, que anteriormente chefiava a 6ª repartição da unidade, encarregue da contra-inteligência do Palácio Presidencial.
José João “Mawa” ingressou na vida militar em Outubro de 1974, através da guerrilha do MPLA, após abandonar o seminário. Posteriormente, frequentou o curso de Direito na Universidade Agostinho Neto e recebeu formação em segurança em Cuba.
A sua experiência na protecção presidencial ficou evidente em 2011, quando o então Presidente José Eduardo dos Santos foi forçado a abortar uma viagem à China devido a um incêndio num dos reactores da aeronave presidencial.
No momento da descolagem, um pássaro teria sido sugado para o motor, provocando o incidente. “Mawa” retirou JES do avião e levou-o para a ilha do Mussulo, acreditando tratar-se de um possível atentado, decisão que gerou um conflito com o então chefe da Casa Militar, Hélder Vieira Dias “Kopelipa”, que defendia a continuação da viagem.
Em Setembro de 2022, José João “Mawa” foi chamado a depor como declarante no julgamento do major Pedro Lussati, acusado de desvio milionário de fundos da Casa de Segurança do Presidente da República.
Despedida humilhante
Após a sua exoneração, o tenente-general viveu um episódio constrangedor durante a cerimónia de despedida na USP.
Ao dirigir-se à tropa para proferir as suas últimas palavras de agradecimento pelos mais de 20 anos de serviço, esperava uma recepção calorosa. No entanto, os soldados mantiveram-se em silêncio, sem qualquer manifestação de apreço, um gesto que muitos interpretaram como sinal de descontentamento com a sua liderança.
Antes da sua exoneração, “Mawa” já demonstrava sinais de fadiga e desinteresse, chegando a cochilar durante reuniões prolongadas e a negligenciar documentos importantes. O descontentamento entre os soldados cresceu, especialmente devido a problemas estruturais dentro da USP.
A sua gestão foi alvo de duras críticas, sobretudo pelo atraso nas promoções militares, com soldados de 50 e 60 anos ainda na patente de sargento sem possibilidade de reforma.
Outro motivo tinha a ver com a falta de condições nas casernas, com ar condicionado avariado, ausência de beliches e alimentação inadequada, tornaram-se queixas recorrentes.
Os soldados também denunciavam a não atribuição de subsídios de viagem, apesar da disponibilização dos fundos pelas Finanças. Apenas os oficiais recebiam os valores devidos, enquanto a tropa era negligenciada.
Este clima de insatisfação levou alguns militares a abandonar discretamente o país, emigrando para Portugal após obterem licenças médicas.
Com um histórico de decisões controversas e uma liderança cada vez mais contestada, a morte de José João “Mawa” encerra um capítulo na história da segurança presidencial em Angola, deixando para trás um legado marcado tanto por lealdade ao regime quanto por alegações de má gestão.