
Faleceu na última quinta-feira, vítima de doença, em França, onde se encontrava em tratamento médico, o jornalista Siona Casimiro. O malogrado foi director de informação da Angop.
Considerado por muitos colegas de profissão “decano do jornalismo angolano”, Siona Casimiro estava vinculado ao jornal “O Apostolado”, à Rádio Ecclésia, onde assinava uma crónica semanal, denominada “Visão Jornalística”.
Reacções da classe
O administrador de Conteúdos da Angop, José Chimuco, que trabalhou durante anos com o malogrado, disse que “Siona Casimiro foi uma das figuras de peso que teve grande impacto no meu percurso profissional na Angop”, confessou, adinatando, a seguir, que “estive com ele , recentemente, e falamos de muitas recordações do nosso percurso profissional”.
Relativamente trajecto da fundação da Angop, José Chimuco explicou que as diligências, dentro e fora do país, começaram muito cedo e envolveram nomes como o de José Mena Abrantes, que produziu um dos primeiros despachos noticiosos da Angop, nos dias 26 e 27 de Outubro de 1975, remetido ao estrangeiro apenas no dia 28 do mesmo mês, por ordem de Agostinho Neto.
Enquanto Mena Abrantes efectuava contactos no estrangeiro, o também jornalista Siona Casimiro se empenhava internamente e nas actuais República Democrática do Congo e República do Congo na concretização de passos que viriam a contribuir para a criação da Agência Angola Press (Angop).
O secretário-geral do Sindicato dos Jornalista Angolanos (SJA), Teixeira Cândido, disse, em declarações ao Jornal de Angola, que Siona Casimiro foi para o jornalismo angolano um dos grandes impulsionadores. ” Defendeu, como poucos, a liberdade de imprensa, o jornalismo independente, ético e responsável”.
“Estas são as grandes virtudes que se podem ressaltar da personalidade de Siona Casimiro, e, felizmente, inspirou isso em alguns de nós, que com ele convivemos de perto durante quase 30 anos”, salientou o líder sindical.
De acordo com Teixeira Cândido, para a classe, “Siona Casimiro não foi um mero co-fundador do Sindicato dos Jornalistas, não foi um mero ancião, mas sim um guia e mestre que defendeu o jornalismo responsável, a autoregulação, bem como um dos embaixadores para o Sindicato nos momentos mais difíceis, de quase absoluta incompreensão sobre o papel do Sindicato dos Jornalistas Angolanos.
“Como sabem, o Sindicato quase que nasceu com este selo da incompreensão desde 1992, e Siona Casimiro como outros fizeram este papel junto das entidades públicas, personalidades políticas. O decano procurou junto dessas pessoas desmistificar, dizendo que era uma associação simplesmente de profissionais que defendia a liberdade de imprensa a par das condições sociais. E este é um dos méritos que ressaltamos também na pessoa do malogrado. “Mais do que chorar e lamentar, devemos agradecer ao aprendizado que tivemos com Siona Casimiro e a intransigência com que defendeu o Sindicato e a liberdade de imprensa”, disse Teixeira Cândido.
“Decano dos jornalistas”
Para a presidente da Comissão de Carteira e Ética (CCE), Maria Luísa Rogério, “Siona Casimiro para o jornalismo angolano é a grande referência e o mestre dos mestres, porque faz parte do jornalismo angolano, uma vez que não podemos falar de jornalismo angolano sem citar Siona Casimiro”.
“Como sabemos, ele nasceu no exílio na República Democrática do Congo, e foi lá onde começou a fazer o jornalismo, mas recebeu a primeira carteira profissional em 1969 da Associação dos Jornalistas Franceses”, ressaltou.
Luísa Rogério referiu que, ao longo desse tempo, Siona Casimiro fez jornalismo e ajudou a montar a estrutura que hoje conhecemos como Agência Angola Press. “É mais um motivo para ser o decano dos jornalistas angolanos”.
Acrescentou que ao longo desses anos, Siona Casimiro ajudou a escrever a história do jornalismo angolano e foi testemunha de diferentes momentos da história de Angola, primeiro no exílio, no âmbito da luta anticolonial, depois no retorno dos nacionalistas de angolanos, tendo emprestado todo seu saber aos jornalistas.
Disse ainda que Siona Casimiro era um jornalista que tinha a sua conduta pautada pela ética profissional e deontologia, encarada como regra geral da profissão, mas ao mesmo tempo também tinha a capacidade de contemporizar. “Ele dizia, nos últimos encontros que mantivemos, que a Comissão de Carteira e Ética não era uma “comissão de castigos”, mas sim um órgão regulador que tinha a vertente de disciplinar porque incluía a pedagogia.
O jornalista Ismael Mateus afirmou que Siona Casimiro “é uma referência e dos mais antigos no mundo do jornalismo angolano, visto que era um grande defensor da ética e deontologia profissional, e uma pessoa preocupada com o Sindicato dos Jornalistas. Apesar de doente, disse, ele se manteve sempre ligado à classe, dando apoio e promovendo, inclusive, debates em torno da Comissão da Carteira e a gestão relacionada ao Sindicato, “de modo que é uma perda que marcou o sindicato, pois era dos conselheiros mais presentes na vida daquele órgão”.
MPLA manifesta pesar
O Secretariado do Bureau Político do MPLA lamentou profundo pesar pelo falecimento do jornalista Siona Casimiro, ocorrido em França, por doença, aos 79 anos de idade.
“Meritoriamente elevado ao estatuto de referência obrigatória da história da Angop, em particular, e do jornalismo angolano, no geral, SIONA CASIMIRO foi um patriota de refinada qualidade, professor de várias gerações de jornalistas, afirmou-se como detentor de elevada capacidade de percepção e discussão dos fenónemos da profissão”, considera o Bureau Político do MPLA.
O órgão de cúpula do partido no poder “reitera que o seu desaparecimento físico deixa um grande vazio dentro da classe jornalística angolana, que o tinha como ‘Decano’” .
“Pelo infausto acontecimento, o Secretariado do Bureau Político do Comité Central do MPLA curva-se perante a memória do malogrado, endereçando à classe jornalística angolana e à família enlutada sentimentos de pesar”, lê-se no comunicado do MPLA.
Titular da Comunicação Social associa-se ao “momento de dor e luto”
O ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Mário Oliveira, associa-se ao “momento de dor e luto”, através de uma nota de condolências pelo passamento físico do veterano jornalista Siona Casimiro, ocorrido quinta-feira, em França, onde se encontrava em tratamento médico.
No documento, chegado à Redacção do Jornal de Angola, o governante escreve que “foi com profunda dor e consternação que o colectivo de trabalhadores deste Ministério tomou conhecimento do passamento físico do jornalista sénior Siona Casimiro, ocorrido na República de França, endereçando à família, à classe jornalística e aos amigos os mais profundos pêsames”. A nota sublinha, ainda, que “Siona Casimiro foi pioneiro e membro fundador do Sindicato dos Jornalistas Angolanos e do MISA”.
Perfil
De pais oriundos do município do Cuimba, província do Zaire, Siona Bole Casimiro Wa Tulanta nasceu a 12 de Maio de 1944, em Matadi, sede provincial do Baixo Congo, província da República Democrática do Congo.
Iniciou a prática do Jornalismo em 1968, em Kinshasa, tendo feito formação nessa área na agência britânica Reuters e num centro especializado de Paris, França.
Diplomado pelo Centro de Formação Profissional de Jornalistas (CFPJ) de Paris, recebeu a carteira profissional pela primeira vez em 1969, após estagiar na Agence Congolaise de Presse (ACP).
Em Julho de 1975 foi admitido nos quadros da Angop, onde chefiou o Departamento da Redacção Exterior da referida agência, no período de 1987 a 1989, tendo sido autor das análises semanais sobre vários assuntos da vida nacional, com o título ‘Scoop da Semana’.
Trabalhou para vários órgãos estrangeiros, com destaque para as agências de notícias France Press, da França, e Associated Press (AP), dos EUA, sendo que, nessa última, era considerado um dos seus melhores correspondentes locais, em África.
O malogrado foi um dos vencedores da primeira edição do Prémio Fórum de Jornalismo 2020, atribuído pelo Fórum das Mulheres Jornalistas para Igualdade do Género (FMJIG), criado para galardoar profissionais na área da Comunicação Social, que tratam de matérias sobre os assuntos ligados à mulher, sua inclusão social, inserção na sociedade, igualdade do género, entre outras valorizações da classe feminina.
É autor dos livros ‘Maquis e arredores – memórias do jornalismo que acompanhou a luta de libertação nacional’ e ‘Padres, Madres e a devida vénia’, um roteiro para correspondentes da Rádio Ecclesia e jornalistas de assuntos religiosos.
Foi membro fundador do Sindicato dos Jornalistas Angolanos e detentor da Carteira Profissional número um (1), emitida pela Comissão da Carteira e Ética de Angola (CCE).
Com/JA