Moxico Leste não deve ser cobaia de governação – Manuel Cornélio
Moxico Leste não deve ser cobaia de governação – Manuel Cornélio
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Após o Congresso Extraordinário, popularmente denominado “Congresso dos Ajustes”, surge a manifestação de um antigo desejo: dividir a província do Moxico para atender às questões endógenas e exógenas que afetam os seus cidadãos, conforme expresso pelo executivo liderado pelo Presidente João Lourenço.

No centro desta mudança está a nomeação de Crispiniano dos Santos como primeiro governador da nova província, no âmbito da Nova Divisão Política e Administrativa.

No entanto, a decisão gerou um debate aceso nas redes sociais, especialmente entre cidadãos do Moxico e observadores da política nacional. Tais discussões, permeadas por questões como tribalismo e competência, também nos levaram a refletir sobre o impacto desta escolha.

Em textos anteriores, chegámos a afirmar que “Moxico Leste estaria condenado ao fracasso antes mesmo do seu nascimento”, o que motivou mais discussões e, agora, nos leva a elaborar uma análise mais detalhada.

A contestação à nomeação de Crispiniano dos Santos não decorre da sua idade ou de preconceitos tribais, mas sim de preocupações legítimas sobre a competência necessária para gerir os complexos desafios da nova província.

O Moxico, no seu todo, é uma região marcada por um atraso secular no desenvolvimento, resultado de escolhas inadequadas de liderança e falta de comprometimento com o progresso.

Historicamente, esta província foi palco crucial do início e do fim do conflito armado em Angola, o que exige uma atenção redobrada por parte das autoridades.

As reações à nomeação incluem questionamentos sobre a existência de quadros locais capacitados para assumir este cargo, algo que parece ter sido ignorado.

O relatório sobre tribalismo da Ufolo, elaborado por Rafael Marques, poderia ter servido de referência para uma decisão mais fundamentada, uma vez que aborda profundamente os problemas sociais e políticos nesta região.

A ausência de conhecimento sobre o território a governar compromete a eficácia de qualquer liderança. A Nova Divisão Política e Administrativa foi criada com o objetivo de aproximar os serviços públicos dos cidadãos e tornar governáveis regiões antes consideradas ingovernáveis.

Porém, a nomeação de Crispiniano levanta dúvidas quanto à sua capacidade de compreender e responder às necessidades locais.

Perguntamos: O que Crispiniano dos Santos realizou como Primeiro Secretário da JMPLA? Que projetos relevantes liderou, executou ou deixou como legado? Será esta nomeação um desafio desproporcional para ele?

O Moxico Leste não deve ser tratado como uma cobaia para experiências de governação. A região precisa de uma liderança experiente, conhecedora das dinâmicas locais e capaz de enfrentar os desafios de desenvolvimento.

A escolha de um líder que demonstre competência, capacidade de gestão e sensibilidade às histórias e culturas da região é imperativa para que se alcancem resultados significativos.

O atraso no desenvolvimento da província não se deve apenas a lideranças ineficazes, mas também à apatia dos próprios cidadãos, que raramente reivindicam mudanças concretas. A cumplicidade com a mediocridade tem perpetuado um ciclo de estagnação.

Embora desejemos o melhor para Crispiniano dos Santos, duvidamos que ele consiga atender às expectativas e necessidades da região. Nomear um líder inexperiente para enfrentar desafios tão complexos é, no mínimo, paradoxal.

A passividade dos habitantes locais em relação a esta escolha reflete, infelizmente, uma falta de exigência por soluções reais.

No final, o destino do Moxico Leste depende de lideranças eficazes e de uma cidadania ativa. Até que estas condições sejam cumpridas, a região continuará a enfrentar os mesmos desafios históricos.

*Activista e Jurista

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