
As dúvidas esfumaram-se, está claro aos olhos de todo o mundo. É um dado adquirido e consumado; simpatizantes, amigos, adversários e até os apolíticos (caso os há), testemunham a maior crise de autoridade nas hostes do partido rubro-negro e, por conseguinte, na condução do Estado.
O presidente do MPLA ignorou todos os alertas provenientes da sociedade. Confiou em demasia no seu próprio entendimento. Montou uma equipa “esquésita” na primeira linha. Dispensou a expertise de muito dos seus companheiros.
Insistiu na sua equipa na direção do partido e na Cidade Alta. As posições de autoridade moral, técnica e sobretudo de articulação política tem estado desguarnecidas. O resultado está aí: até o Valdir Cónego acha que pode fazer melhor do que o Presidente (já só nos faltava a rainha dos ovos para completar o circo ).
É absolutamente perturbador, ou melhor, sofrível admitir que pior do que se está é impossível. É evidente que nenhum dos candidatos a candidatos reúne o mínimo de condições políticas e estatuárias para criar tanta “desordem”, o problema é que com um front office incapaz de fazer as leituras em tempo real, ao contrário focado no business, o que impossibilita a percepção dos sinais provenientes da sociedade, as opções e decisões emanadas da Cidade Alta transformaram-se em ruidosos pesadelos.
É bom lembrar que, apesar de animados com a democracia, há ainda quem considere o Estado uma tirania, uma maneira de impor a vontade de alguns sobre todos e um sintoma de baixa evolução da espécie humana.
Ninguém, por exemplo, assimilou a pertinência da Nova Divisão Política Administrativa. A maioria dos angolanos não percebe a opção para procrastinar as autarquias.
O excesso de endividamento sem um racional claro e o mais importante, a não requalificação do relacionamento com os seus camaradas eduardistas, em especial os filhos, constituem preocupações para além das fronteiras partidárias.
Estar na política não é acomodar o seu ego e as suas vaidades. No fim do dia estamos falar do bem comum. De servir até as pessoas com as quais discordamos.
Ora, não é possível alguém ser tão indesejado pelos seus (ao ponto do Valdir Conego querer substituir o PR), depois de dez anos tentando corrigir o que está mal, salvo se o único objetivo que conduziu a intenção de governar resuma-se à revanche. Ao ódio. A inveja.
É muito estranho que não haja uma engrenagem elaborada numa máquina tão poderosa como é o partido MPLA.
Sabe-se que a direção do partido não considera palpites avulsos, mas seria altamente providencial que, agora no extraordinário, que começa na segunda-feira, reformulasse o front office do partido.
Norberto Garcia tem, claramente, um assento entre os pensadores do partido. E mais, se não se compreender as dinâmicas e as expectativas do novo contexto, o extraordinário seria apenas e só um paliativo.
2027 seria o consumar dos factos há muito anunciados. E enquanto é tempo, é preciso afastar a ideia segundo a qual a política é uma actividade ou ocupação exercida por gente sem carácter, venal, mentirosa e enganadora.
Se pensarmos bem, muitas das referências nacionais são políticas. Nos recordamos delas, exactamente, em consequência dos seus actos políticos. Por isso, a política não pode ser entregue a gente ruim. Não há do mais nobre do que dedicar-se à colectividade. Que haja sabedoria e paz nos momentos de decisão.
Gostaria de terminar essas breves considerações com uma fala do jornalista Salas Neto no seu Facebook a propósito do extraordinário: “Na hora do voto muitos não deverão querer alinhar com quem não se respeita a si próprio. Depois não digam que faltou aviso”.
*Jornalista