
O jogo político, nas democracias liberais, envolve, basicamente, o exercício do poder e a prática de oposição, dois rostos de uma mesma moeda que, independentemente do papel de cada um, é impossível dizer que haja democracia sem a existência notável, útil e actuante dos dois.
Nas democracias em processo de maturação, se assim se pode caracterizar o jogo democrático como na maioria dos países africanos, há ainda uma complexa e conflituosa interacção entre o poder e a oposição que leva, muitas vezes, a concluir que um parece existir para anular o outro.
Daí alguns sectores, volta e meia, fazerem apologia dos pactos de regime, consensos sobre os principais dossiers da governação ou acordos para evitar rupturas acentuadas que “amedrontem” a todos, na véspera de eventual ocorrência das alternâncias ao poder.
E nesta luta pelo poder, normal em qualquer democracia liberal, consolidada ou em processo de maturação, muitas vezes, os membros das principais forças políticas, militantes, amigos e simpatizantes são levados a tomar posições nem sempre consentâneas com os interesses do Estado e da Democracia em si.
Em Angola, o jogo democrático está a tomar contornos, de maneira desnecessária, de um verdadeiro jogo de soma zero, que se traduz no facto de a vitória de um concorrente significar, necessária e obrigatoriamente, a derrota do outro.
É provável que seja um estádio da democracia angolana, embora, como muitos alegam e com alguma razão, mais de trinta anos depois, era já suposto entrar-se para uma fase em que os discursos de figuras do partido no poder e os da oposição, particularmente das duas principais formações políticas, MPLA e UNITA, envolvesse maturidade, tratamento digno, respeito, tolerância e compromisso de viver juntos na diferença de opinião.
É estranho que, mais de trinta anos depois do apelo de Jonas Savimbi, em pleno discurso de campanha para as eleições de Setembro de 1992, segundo a qual “não devia existir uma oposição doentia entre a UNITA e o MPLA”, continuam dos dois lados a velha narrativa de anulação um do outro.
Há dos dois lados a prevalência da mentalidade do período de conflito armado não apenas ao ponto de deixar transparecer a ideia de um medo recíproco, mas também até ao limite de, raramente, assistir-se a declarações em que um dos lados assuma que, em determinada matéria, o outro esteve bem.
E tende a crescer a linha divisória que separa os angolanos entre os que alinham com o MPLA e os que alinham com a UNITA, quando as pessoas se interessam, à velocidade de cruzeiro, em saber de que lado se está em determinado debate, assunto ou discussão que passe, também, pelas redes sociais.
Hoje, falar bem da governação é ser do MPLA e falar mal é ser da UNITA, como se nos dois lados não houvesse nada diferente do que se lhes atribui ou sobre os quais se lhes fala.
Parece que os militantes, amigos e simpatizantes dos dois principais partidos políticos angolanos estão proibidos de elogiar o que de bom existe no outro sem ser confundido, razão pela qual deve prevalecer a ideia maniqueísta segundo a qual ou se está com o MPLA ou se está com a UNITA, um procedimento que está a levar ao empobrecimento do jogo democrático.
E o pior é que parece não existir, pelo menos a julgar pela inacção dos dois partidos, vontade e determinação para lidar com as “ervas daninhas” dos dois lados que corroem o jogo democrático.
É verdade que os militantes, amigos e simpatizantes dos partidos políticos, bem como os responsáveis, são livres de emitirem as suas opiniões, mas quando se está em presença de declarações ou práticas que atentem contra o jogo democrático, as formações políticas com responsabilidades e vocação de poder devem ter a obrigação de se demarcarem desses posicionamentos.
E, lamentavelmente, como parece suceder, são as “ervas daninhas”, dois lados, que tendem a ser as mais ouvidas, consideravelmente seguidas e transformadas em referência de militância política.
Esperemos que estes excessos, vindos dos dois lados, que consistem em declarações incendiárias, postagens ultrajantes nas redes sociais e práticas que visam anular o outro lado, não se acentuem, sob o olhar impávido dos órgãos de disciplina dos partidos, à medida que nos encaminhamos para os desafios eleitorais.
Estamos todos lembrados do comunicado inflamado do Secretariado do Bureau Político que acusava a UNITA de “se imiscuir nos assuntos internos” do partido no poder, da mesma maneira como acompanhamos o imbróglio em que se meteu o general Abílio José Augusto Kamalata Numa, situações completamente evitáveis.
É urgente que os dois partidos políticos reduzam o espaço de actuação das “ervas daninhas”, muitas actuando inocentemente como verdadeiros idiotas úteis das formações políticas, passe a redundância, pois pensam que desempenham um papel proveitoso ao jogo democrático, quando são, na verdade, prejudiciais. Ou são mesmo úteis aos partidos?
*Jornalista