
O poder político precisa de vigilância. Precisa de contraditório. Precisa de jornalistas. Jornalistas que perguntem. Duvidem. Insistam. É a lógica do contra-poder. Quando o Jornalismo abdica dessa função, o poder deixa de ser escrutinado. Passa a mover-se sem resistência. Sente-se impune. Inescrutinável.
Foi o que não aconteceu no Brasil. O Jornalismo teve um papel relevante no fim da ditadura militar brasileira associada ao período da ditadura militar (1964-1985). Expôs abusos. Enfrentou a censura. Manteve espaços de debate. Ajudou a reconstruir a esfera pública durante a abertura democrática. Os jornalistas fizeram a sua parte.
Em Angola, o percurso foi outro. Entre 1975 e 1991, parte significativa da Imprensa funcionou como instrumento de propaganda do MPLA. Uma arma de combate político. Foram dezasseis anos de catecismo ideológico imposto ao País. O Jornalismo começou verdadeiramente a respirar em 1991, com os Acordos de Bicesse.
Abriu-se uma breve estação de pluralismo. Surgiu uma geração de jornalistas inquietos. Curiosos. Afoitos.
Foi, talvez, o momento mais airoso do Jornalismo angolano depois da Independência. Mas a janela fechou-se. O poder político percebeu rapidamente o risco da existência de uma Imprensa livre.
Depois de 2002, com o fim da guerra, o cerco começou a apertar. O espaço de liberdade foi encolhendo. O Jornalismo ficou condicionado. A partir de 2017, o ambiente ficou ainda mais pesado.
Angola teria hoje outro rumo se o Jornalismo tivesse continuado a trilhar a vereda aberta no pós-Bicesse. Se os jornalistas tivessem preservado o espírito ousado daquela plêiade que então emergiu a pala dos Acordos de Bicesse.
O poder político não abusaria tanto. Os governantes seriam mais escrutinados. Pensariam duas vezes antes de tratar as políticas públicas com leviandade. A leveza de ser político teria medo. O País saberia melhor o que pensam os actores políticos e ao que realmente se propõem.
Hoje há muitos jornalistas em Angola. Mas há pouco ou quase nenhum Jornalismo, frequentemente de natureza superficial e de frágil densidade analítica.
Alguns aceitam ser tratados como “rapazes da Informação” ou jornalistas “bem-comportados”. Chamam “chefes” aos auxiliares do Titular do Poder Executivo.
Confundem deferência institucional com subordinação moral. O Jornalismo angolano falha, assim, uma das suas funções essenciais: A de escrutinar o poder político.
O silêncio da Imprensa é sempre um triunfo discreto do poder político. Quer-se Liberdade, mas evita-se o preço dela. A qualidade da democracia mede-se também pela coragem da Imprensa. Sem jornalistas livres, o poder deixa de ter adversários. Passa a ter apenas eco.
Deixa de ser desafiado.
Passa a ter amanuenses e relações públicas ao seu dispor.
Obituário. Octávio Capapa. Voz sonante. Audível. Indómita. Jogava na defesa do MPLA. Driblava o meio-campo da polarização política com o seu verbo, nos velhos e tristes anos de chumbo em Angola. O jornalista Octávio Capapa virou saudade.
Era expectável. Era indesejável. Capapa partiu. Foi ao encontro de Elias Francisco. Mateus Miala. Maindo Andrade. Emanuel Cardoso. Jorge Muzwela Kidi. Soldados às ordens do MPLA no combate político-mediático na Angola pós-Acordos de Bicesse.
Agora estão novamente reunidos. A velha Redacção do “Angola Combatente” está novamente composta. Voltou a reunir-se. Peçam a Alexandre Gourgel (Xandocas) ou a Rui de Carvalho (Ruca) que redijam os textos. Talvez esteja na hora de mais uma edição do tronitruante “Angola Combatente”.
*Jornalista