Nada contra empoderadas – António Quino
Nada contra empoderadas – António Quino
António Quino

Por conta duma necessária paridade ou igualdade entre mulheres e homens, entrou em voga o modismo da desconstrução de expressões que atentem contra o género.

Ouvi pelas redes sociais uma jovem bem falante apresentar-se como empoderada e que, por isso, acha discriminatório dizer-se “Por trás de um grande homem existe uma grande mulher”.

Como ela, muitos outros cidadãos acusam a expressão como desprestigiante à mulher, embora a parte da linguística que estuda o significado das palavras não concorde em pleno com isso.

Não discordo que a língua portuguesa seja, em si mesma, tradicionalmente “machista”, com palavras e expressões que subalternizam o papel da mulher. Aplaudo o surgimento de termos que valorizam as mulheres como são, líderes e influenciadoras por direito próprio.

Dito de outro modo, não é este um artigo de machista ou troglodita para empoderadas. Nada disso. Sou adepto de expressões que promovam a paridade, como “Lado a lado constroem um bom lar”.

Apenas pretendo levantar uma discussão observada na sociedade, que se centra nas expressões “Por trás de um grande homem existe uma grande mulher” e “Ao lado de um grande homem, existe uma grande mulher”, relacionando-as directamente ao empoderamento feminino.

As expressões “por trás de”, “atrás de”, “por detrás de” e “ao lado de” são classificadas gramaticalmente como locuções prepositivas, usadas para indicar relações espaciais ou figurativas entre elementos frásicos.

Não é correcto associar a ideia de “pôr trás de um homem existe uma grande mulher” à discriminação. É falso esse postulado, porque a semântica diz que não é necessariamente isso.

Empoderadas

Disse que fui motivado por comentários questionáveis de compatriotas angolanas nas redes sociais, algumas risíveis e outras com elevado tom de arrogância. Identificavam-se como sendo empoderadas.

No geral, disparavam contra a expressão “por trás de” substituindo-a taxativamente pela “ao lado de”. Pensei: eis um exemplo de que arroz de pato não se faz com carne de galinha.

Numa cartilha oficial da ONU, fui ler que o empoderamento feminino é o processo de conceder poder e autonomia às mulheres, garantindo que elas possam tomar decisões importantes para suas vidas e participar plenamente em todas as esferas da sociedade, incluindo os campos social, político e económico.

A ONU refere que promover a igualdade de género significa garantir que mulheres e homens tenham as mesmas oportunidades e direitos, nomeadamente igualdade no trabalho, na educação e na participação política.

Outro aspecto que relevo da cartilha que li é que o empoderamento feminino envolve permitir que as mulheres façam escolhas estratégicas sobre suas vidas (decisões sobre seus corpos, carreiras e relacionamentos), que antes lhes eram negadas.

É evidente que isso deve ser acompanhado por um processo de consciencialização social e educação, auxiliando a compreensão da necessária mudança de normas culturais e estereótipos que limitam as mulheres.

Numa sociedade que se envolve, respeita e apoia o empoderamento feminino, é imprescindível reconhecer e valorizar as contribuições de mulheres em todas as esferas da vida, sem desprimor aos homens. Alias, são pares.

De igual modo, discutir essas expressões (“por trás de”, “atrás de” ou “ao lado de”) ajuda a desconstruir estereótipos tradicionais e pressupostos discriminatórios que podem existir por trás delas, algumas provocadas por homens e mulheres revestidos de tradicionalismos desvirtuados ou arrogâncias geradas por certo poderio material ou estatutário.

É necessário discutir-se essas expressões, como a condenada “Por trás de um grande homem existe uma grande mulher”, que, supostamente, relega as mulheres a papéis secundários, contra a visão moderna e justa da equidade de género.

Embora as narrativas sobre o papel das mulheres evoluam para reflectir uma sociedade mais inclusiva e igualitária, a maior conscientização e valorização das contribuições das mulheres em todos os aspectos da vida não implica anular o papel que um cônjuge desempenha para o sucesso do outro.

Locuções prepositivas

“Por trás de um grande homem existe uma grande mulher” reflecte um período secular em que os homens ocupavam posições de destaque público e as mulheres papéis de suporte, mas nos bastidores. Ou seja, falamos duma época em que as contribuições das mulheres eram frequentemente invisíveis, mas cruciais para o sucesso do homem.

Esta expressão enfatiza o papel de suporte e a influência essencial que a mulher tem no sucesso do homem, mesmo que essa contribuição não seja visível ou reconhecida publicamente, porque ela, mulher, é a força motriz, a alavanca que impulsiona o sucesso do homem, mesmo que não esteja em destaque.

A expressão enaltece a importância do apoio e da parceria nas conquistas e sucessos. Embora os homens possam ser vistos como protagonistas em suas histórias, muitas vezes são as mulheres em suas vidas (mães, esposas, irmãs, ou mentoras) que desempenham papéis cruciais, oferecendo suporte emocional ou até mesmo incentivo material.

Daqui, podemos depreender que a frase procura reconhecer, ainda que de maneira limitada, a importância das mulheres no sucesso dos homens. Ela é frequentemente usada para destacar o apoio emocional, moral e prático que as mulheres oferecem, sem o qual o progresso do homem poderia estar condicionado.

Mas, muitas vezes, as mulheres têm suas próprias conquistas e méritos. E a expressão pode obscurecer o reconhecimento individual das mulheres, sugerindo que seu valor está apenas em apoiar o sucesso masculino.

Nesse caso, se a discussão for em torno do reconhecimento de as mulheres não serem apenas o suporte do sucesso do parceiro, mas também protagonistas de suas próprias histórias de sucesso e de suas famílias, a frase torna-se insuficiente do ponto de vista semântico.

Lembro, por exemplo, a história do meu amigo Zé, então taxista. Quando “amigou”, congelou a sua formação académica para apoiar a esposa que queria ser enfermeira, mas que mal sabia ainda ler.

O Zé não passou da 8.ª classe daquele tempo. A mulher hoje é médica. Ambos vivem no Huambo. Recordo-me que o Zé, todas as noites, ia buscar a parceira à escola: “Lá em casa alguém tem que estudar para ajudar nas tarefas escolares dos miúdos, enquanto eu ponho o pão à mesa”, disse-me a dado momento. Isso é parceria.

Nesse exemplo em que a mulher é protagonista da sua própria história de sucesso, com o apoio do esposo, não ficaria nada mal dizer: “Por trás duma grande mulher existe um grande homem”.

O que é importante lembrar, também, é que não devemos confundir com a expressão “Atrás de um grande homem está uma grande mulher”.

Nesse caso, o “atrás de” é posicional e indica uma subordinação ou posição física hierarquizante. Ou seja, indica que a mulher está em posição inferior a do homem.

A outra expressão, “Ao lado de um grande homem existe uma grande mulher”, é mais recente e reflecte mudanças sociais e culturais em direcção à igualdade de género, sem no entanto estabelecer rivalidade com a anterior. Esse termo tenta capturar a paridade, reconhecendo tanto o apoio quanto a parceria igualitária.

O recurso à frase acontece quando se pretende enfatizar a colaboração e a parceria igualitária entre homens e mulheres. Ela estabelece uma posição adjacente ou próxima entre pares.

A paridade entre homens e mulheres é mais valorizada e reconhecida, promovendo a igualdade de género. Havendo o devido apoio do par num contexto moderno tão desafiante e inclusivo das relações, é legítimo dizer-se que “ao lado de um grande homem existe uma grande mulher”, porque os parceiros são vistos como iguais e essenciais para o sucesso conjunto.

Porém, não concordo que esse “ao lado de” seja um avanço em relação à expressão “por trás de”, porque cada uma delas transmite um contexto semântico diferenciado.

Realmente, as duas expressões têm o seu valor e são aplicadas em contextos comunicacionais diferentes, dependendo do que se deseja enfatizar. Ou seja, a primeira destaca o papel de suporte essencial de um para outro, enquanto a segunda promove a ideia de parceria igualitária.

“Por trás de” ou “ao lado de”, cada expressão tem o seu próprio valor contextual. A escolha no uso delas depende do que se deseja enfatizar, porque a interpretação dos significados e como eles se relacionam entre si para formar um sentido completo na comunicação depende do contexto, do conhecimento prévio do falante e do ouvinte e das regras gramaticais e semânticas da língua. Por enquanto, ainda não depende duma vontade obscura aos olhos da semântica.

Respeito quem vê nelas o reforço de estereótipos de género. Eu posiciono-me entre os que as interpretam como uma celebração da parceria e do apoio mútuo entre homens e mulheres, desde que se considere o respectivo contexto comunicacional.

Finalizando, “por trás de um grande homem existe uma grande mulher”, “por trás de uma grande mulher existe um grande homem”, “ao lado de um grande homem existe uma grande mulher” e “ao lado de uma grande mulher existe um grande homem”, são enunciados frásicos que exemplificam como locuções prepositivas expressam relações espaciais e de apoio mútuo entre homens e mulheres, destacando a importância da parceria e do suporte em ambos os géneros.

*Jornalista e escritor

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