“Não sou artista do MPLA nem de nenhum partido. Sou artista angolano e canto para os angolanos” – Eduardo Paim
"Não sou artista do MPLA nem de nenhum partido. Sou artista angolano e canto para os angolanos" – Eduardo Paim
Eduardo paim

Assume-se como um artista do povo angolano, capaz de tocar para A ou B, sem paixões partidárias, sublinhando que “o músico não tem fronteiras”. Resiliente, Eduardo Paim critica as entidades de gestão de direitos de autor que, segundo ele, não pagam as devidas compensações a quem realmente merece. “Organizem a SADIA e a UNAC para que os artistas deixem de ser pedintes”, declara em conversa com o Pungo a Ndongo.

Depois de dez anos sem lançamento, ressurge com Sim, Eu Sou. Qual é o significado deste tema?
É o título que considerei mais apropriado. Representa o início de uma transformação com resultados visíveis a nível mundial. Achei bom fundir essa ideia em Sim, Eu Sou. Sou esta pessoa: resistente, resiliente e fiel à essência da minha personalidade e à forma como encaro a música.

Quantas faixas terá o Extended Play (EP)?
O EP terá quatro músicas, em função das novas plataformas digitais. Hoje já não faz sentido juntar muitas músicas num só item. Para o consumo atual, é mais eficaz lançar aos poucos, para ter maior duração, do que concentrar dois anos de trabalho numa única unidade. O mercado tem a tendência de ouvir apenas o que mais toca e esquecer o resto. Assim, lançando gradualmente, as pessoas podem escolher e o resultado fica mais equilibrado.

Algumas dessas músicas já estão disponíveis em plataformas digitais?
Não. Houve pequenos ajustes de última hora. O lançamento oficial ocorreu em Lisboa, onde algumas cópias foram vendidas no ato, mas a distribuição para o grande público ainda está a cargo de Dionísio Rocha, Jacob Desvarieux e Tito Paris.

Muitas pessoas ainda perguntam a razão do apelido General Kambuengo. Porquê esse título?
Foi uma analogia ao facto de, desde muito jovem, ter conquistado alguma autoridade na música. Estive por detrás de carreiras de muitos artistas angolanos — Robertinho, Jacinto Tchipa, Diabickí, Mamborrô, Clara Monteiro, entre outros. Há toda uma geração onde a “patente” Eduardo Paim se fez sentir.

Apenas por isso?
Também porque as pessoas consideravam-me o “general da música moderna”, por ter proposto uma nova conduta musical que, no início, não foi aceite como sendo genuinamente angolana. Éramos acusados de deturpar a cultura. Mas um país com as dimensões do nosso precisa de diversidade. Não podemos fechar-nos num único estilo.

Então representa essa viragem?
Exatamente. Hoje existe um estilo que proliferou mundialmente: a kizomba. E eu faço parte dessa história. Não é por acaso que me chamam “Rei da Kizomba” e já fui coroado como tal. É um sinal de reconhecimento pelo meu contributo.

O Eduardo Paim afirmou publicamente que a famosa trilha da RNA, a “batucada das 13 horas”, é da sua autoria. Como responde à polémica com Domingos Nguizane e os herdeiros de Candinho?
A minha versão é a verdadeira. A confusão surgiu porque a música passou a ser motivo de orgulho e começaram a aparecer “donos emprestados”. Mas, graças a Deus, ainda estou vivo e posso provar que aquele produto é meu.

Como prova isso?
Em 1975 existia algo semelhante, mas essa versão não se manteve. A minha surgiu entre 1982 e 1983. O percussionista Candinho, de quem fui admirador, fez a primeira versão. Eu, anos depois, criei outra, a que toca até hoje. Fui desafiado pelo senhor Ferreira Marques, chefe da sonoplastia da RNA, que acreditava na minha versatilidade. Fiz o ponto musical que acabou por substituir o tema original. Nunca pensei que isso fosse causar polémica.

E o papel de Domingos Nguizane?
Não entra nessa equação. Ele não compôs essa versão. A que se ouve às 13h e às 20h, nos noticiários da RNA, é da minha autoria e execução.

Recebe direitos de autor por essa criação?
Nunca recebi um kwanza em Angola por direitos de autor. Disse uma vez, num debate, que se me pagassem todos os meus direitos, não precisaria de trabalhar tanto. Usei a trilha da RNA como exemplo e daí surgiu a confusão.

E quanto à pré-sintonia da Luanda Antena Comercial (LAC)?
O processo é simples: a LAC entrega os valores devidos à sociedade de autores, que depois repassa ao criador. Mas em Angola esse circuito falha. As entidades que recebem o dinheiro não o distribuem corretamente. Isso é um roubo, parecem uma organização de malfeitores.

Está a acusar a SADIA e a UNAC-SA?
Prefiro não entrar em detalhes, mas a verdade é esta: sou membro da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) desde 1992 e, lá, recebo os meus direitos de forma transparente. Através da plataforma online controlo tudo sem sair de casa. Aqui não sei quais são os critérios de distribuição.

Isso significa que muitos artistas angolanos recorrem à SPA?
Sim, e com razão. Lá têm segurança. Em Angola, nem sequer sabemos como os direitos são processados. Se recebesse regularmente, a minha condição financeira seria outra.

Vive apenas da música?
Sim. Tenho 61 anos e continuo ativo. O que faltou foi lançar discos em meu nome, mas nunca deixei de produzir para outros artistas ou de atuar. Recentemente estive em Portugal, desde fevereiro, a realizar espetáculos.

E quanto à questão da reforma dos artistas angolanos?
Esse é outro problema. Em Portugal, por exemplo, posso recorrer à SPA para financiar projetos, com tramitação legal e transparente. Já fui financiado duas vezes. Em Angola, quem recorreu à SADIA ou à UNAC para gravar um disco? Ninguém! Aqui, para gravar, precisa-se do favor de um governante, o que é indigno.

Em 2022 foi convidado a atuar numa atividade da UNITA, o que gerou polémica. Como reagiu?
Não vejo polémica nisso. Não sou artista do MPLA, da UNITA ou da FNLA. Sou artista angolano e canto para angolanos. Se a UNITA me convida, vou. Se a FNLA convida, vou. O músico não tem fronteiras políticas. O público é que me interessa, independentemente da sua cor partidária ou crença.

com/Pungo a Ndongo

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