
Ovídio já alertava no seu Metamorfoses: A vaidade excessiva mata. Conta que Narciso era um jovem de beleza extraordinária. Muitos se apaixonaram por ele. A ninfa Eco estava entre eles. Narciso rejeitava todos.
Como punição pelo orgulho e frieza, foi condenado a apaixonar-se pelo próprio reflexo. Vendo-se na água de uma fonte, definhou até morrer. No lugar do seu corpo nasceu a flor que hoje leva o seu nome.
O mundo vive na Era da Informação. E produz muitos narcisos na política. Há no Executivo angolano sinais claros desse narcisismo. A vaidade pessoal e a comunicação performativa têm ocupado espaço que deveria ser preenchido por resultados concretos.
Auxiliares do Presidente João Lourenço exibem-se nas redes sociais todos os dias. Vaidades dispensáveis para o cidadão-eleitor.
Mostram que trabalham muito. Que são populares. Que são queridos. Que são capazes. Para tal, basta uma câmara de televisão ou um telemóvel a acompanhar uma jornada de campo.
Os auxiliares mais jovens do Titular do Poder Executivo usam e abusam das redes sociais para impressionar. Para disfarçar a sua incompetência. Estão convencidos de que o reflexo nas redes sociais vale mais do que resultados reais.
Trabalham para as redes sociais. Exibem estilo. Mostram exercícios físicos. Festas privadas. O corte da fatiota italiana. Os óculos de sol de marca. O relógio. O sorriso Colgate. Trabalho que é bom, pouco. Ou quase nenhum. O cidadão-eleitor não sente impacto real do que fazem.
A febre narcisista é uma afronta à condição difícil a que os angolanos têm estado sujeitos nos últimos anos. Mas tem um efeito positivo: Revela quem realmente são.
Arranca o verniz do fingimento. Retira a máscara. Expõe a pressa em parecer grande antes de ser grande. Põe a nu a falta de traquejo social. A impreparação técnica. A superficialidade de quem confunde cargo com competência e visibilidade com mérito.
Antigamente dizia-se que quem não trabalha não come. Hoje, quem está no Executivo exibe-se com ufania nas redes sociais. Busca plateia. Aplausos. Filma interações com cidadãos ou funcionários. Exibicionismo que incha de orgulho o sujeito e açula a revolta política do cidadão-eleitor.
O País precisa de trabalhos sérios. Feitos por gente séria. Resultados práticos, decorrentes do compromisso com o Estado angolano.
Ver um auxiliar do Presidente da República mostrar trabalho nas redes sociais é como ver alguém que praticou um gesto duvidoso tentar compensá-lo com caridade filmada para consumo público.
Fazer disso bandeira social ou política é inútil. Uma ofensa moral. O efeito é contraproducente. O que interessa é trabalho feito. Não é o reflexo dele nas redes sociais.
Atenção. Consultoria grátis aos auxiliares do Titular do Poder Executivo: O uso abusivo da imagem pessoal é como narcótico. Pode ter efeito boomerang. Pode prejudicar quem o pratica.
Tal como Narciso, quem se perde no próprio reflexo arrisca o mesmo fim. A má gestão da imagem traz consequências.
Está dado o aviso. Depois não digam: Aqui Del Rei!
*Jornalista