
Seria quase um pecado de omissão abordar a história das relações diplomáticas entre África e a Santa Sé sem evocar o nome de António Manuel Nsaku Ne Vunda, sacerdote e nobre do antigo Reino do Congo, escolhido pela sua integridade, fé e coragem para representar, junto do Vaticano, os interesses de um dos mais poderosos reinos africanos da sua época.
O local exacto e a data do seu nascimento permanecem envoltos no silêncio da história, mas sabe-se que Ne Vunda era membro da aristocracia congolesa, detentor do título de Príncipe de Nfuta, e que chegou a Roma com cerca de 33 anos de idade.
Conhecido como “o Negrita”, António Manuel Nsaku Ne Vunda tornou-se, no século XVII, o pioneiro da diplomacia africana junto da Santa Sé, ao ser enviado pelo rei do Congo numa missão de elevado significado político e espiritual: estabelecer relações directas com o Papa, sem a intermediação da Coroa portuguesa.
Segundo os registos históricos, o rei Mpangu-a-Nimi Lukeni lua Mvemba, baptizado pelos portugueses como D. Álvaro II (1587–1613), enviou a Roma uma delegação composta por 25 membros, chefiada por Ne Vunda, com o objectivo de reforçar os laços entre o Reino do Congo e a Igreja Católica.
A missão representava uma ousada afirmação de soberania diplomática e religiosa, desafiando a hegemonia portuguesa sobre os contactos entre África e o Vaticano, numa época em que Lisboa procurava monopolizar a influência católica no continente.
Consciente do peso estratégico da religião na geopolítica do período e da limitação que a exclusividade missionária portuguesa representava para a autonomia do seu reino, o soberano congolês optou por uma via inédita: dialogar directamente com Roma.
A viagem, porém, revelou-se longa e penosa.
Após três anos de travessia, com demoradas escalas no Brasil, em Portugal e em Espanha, e marcada por inúmeros percalços – entre eles um ataque de piratas ao navio que transportava a missão -, Ne Vunda acabou por chegar a Roma através de Génova.
Durante o percurso, muitos membros da delegação sucumbiram às dificuldades da viagem. O próprio embaixador adoeceu gravemente, chegando debilitado à capital da cristandade.
Na obra Comercio y Diplomacia entre Japón y Filipinas en la era Keicho (2017), o historiador Ubaldo Iaccarino descreve Ne Vunda como um homem “negro, de pouca barba, mas de comportamento nobre e grave, profundamente piedoso e devoto, que falava bem português e castelhano”.
A missão que levava consigo era clara: comunicar ao Papa a fidelidade do Reino do Congo à Igreja Católica e solicitar autorização para que o monarca congolês pudesse nomear os seus próprios bispos, à semelhança do privilégio concedido à Coroa portuguesa.
Ao tomar conhecimento da chegada do emissário africano, o Papa Paulo V preparou uma recepção solene, vendo naquela visita uma oportunidade histórica para fortalecer a expansão do catolicismo em África e consolidar uma ligação directa entre Roma e o vasto Reino do Congo, então estendendo-se de Luanda até ao actual Gabão.
Mas o encontro entre ambos ocorreria sob circunstâncias dramáticas.
Já profundamente debilitado, Ne Vunda recebeu o Papa no seu leito de morte, onde, apesar da fragilidade extrema, cumpriu a sua audiência com o líder máximo da Igreja Católica.
Viria a falecer a 6 de Janeiro de 1608, poucos dias após o encontro.

Em reconhecimento pela sua fé, dignidade e sacrifício, o Papa ordenou que fosse sepultado com honras na Basílica de Santa Maria Maior, uma das mais importantes igrejas de Roma, privilégio raríssimo para um estrangeiro, ainda mais para um africano naquele período.
Ali repousa até hoje, ao lado de pontífices, incluindo o próprio Papa Paulo V, que o recebeu, e mais recentemente o Papa Francisco, que determinou a colocação de um busto em sua homenagem junto ao seu túmulo, perpetuando a memória do diplomata africano.
Mais do que o primeiro embaixador africano acreditado na Santa Sé, António Manuel Nsaku Ne Vunda foi também o segundo diplomata não europeu da história a desempenhar tal missão, sendo antecedido apenas pelo japonês Hasekura Tsunenaga.
Hoje, a sua memória é celebrada em África, no Vaticano e em vários círculos académicos internacionais como símbolo precursor da universalidade da Igreja e da antiga tradição diplomática africana.
A alcunha “Negrita”, pela qual ficou conhecido entre os membros do clero romano, longe de qualquer sentido pejorativo moderno, reflectia a singular admiração e afecto com que era tratado pelo Papa e pelos sacerdotes da época.
Séculos depois, o nome de Ne Vunda permanece como testemunho vivo de um tempo em que África já falava com Roma em voz própria e de cabeça erguida.
Por: Morais Silva