
Yuri Simão, director da Nova Energia, a produtora responsável pelo Show do Mês, na ressaca do concerto Kufikissa, em que foi homenageado o Grupo Kituxi, concedeu uma entrevista ao único diário do país.
O promotor cultural não ficou apenas pelo seu produto, levantou questões acerca dos critérios para a atribuição do Prémio Nacional de Cultura e Artes, a valorização da mediocridade, as políticas culturais, a lei dos direitos autorais e conexos e outros assuntos.
Com as emoções decorrentes das nove temporadas com o slogan “De angolanos para angolanos”, Yuri Simão apresenta os seus pontos de vista com posições muito críticas sobre o meio cultural angolano.
Estamos em Outubro de 2022. Para início de conversa, em Janeiro de 2014, quando aconteceu a primeira edição do Show do Mês, esperava ter esta longevidade?
Nenhum de nós imaginou que teríamos nove temporadas consecutivas, ininterruptas e com regularidade. O que nós pensávamos era apenas fazermos um espectáculo por mês. Nunca pensámos que estaríamos nesta posição.
Mas hoje o Show do Mês é considerado uma marca com credibilidade e inovação. Como foi possível?
A gente se reinventa na verdade, na comunicação. Eu aprendi que as pessoas e as coisas sempre se reinventam e que dificilmente vamos inventar uma nova coisa. O que acontece é que a gente olha para uma oportunidade de dar um toque diferente às coisas, uma música, um arranjo diferente, um estilo e vamos conseguindo sobreviver num mercado que é também muito fértil em criatividade, mas muito fraco em qualidade.
Falou de comunicação e nisso vocês são muito fortes. No início, em 2014, foram dos pioneiros a fazê-lo pelas redes sociais, principalmente o Facebook. O Show do Mês é um produto disto?
Tivemos a sorte de entrar no boom das telecomunicações e a primeira questão é que não tínhamos orçamento para fazer marketing. As redes sociais em Angola mostraram-nos uma janela para comunicar e foram seis anos em que o Show do Mês não teve um único spot em televisão. Também descobrimos que hoje as pessoas olham mais para o telemóvel e não para o ecrã do televisor e que estes trinta segundos podem ser capitalizados noutras plataformas. Sempre usamos as redes sociais, o Facebook principalmente, a seguir o Instagram, como nossa plataforma e depois a Rádio Nacional de Angola que é o nosso primeiro parceiro para fazer spots de rádio.
Como foi desenhado o Show do Mês até chegarmos ao dia 30 de Janeiro de 2014 com a Selda como primeira artista?
Eu estava a fazer um projecto para uma tournée da Banda Maravilha que acabava de lançar o disco “As nossas palmas”, porque nós, Nova Energia, agenciávamos a mesma. A intenção era levar o Semba e recolher coisas por estas cidades, estava a pensar nesta tournée de apresentação do disco. Numa tarde, vou ao Miami Beach, encontro o Waldemar Bastos e ele falou do silêncio que é necessário nas salas de música. Disse que estava farto de fazer espectáculos com comida e bebida, que na época era o normal, com as galas. Assim, depois de montar o concerto falei com o Marito Furtado, o Majó, o Yuma, o Cruz e o Nelson. Mas isto foi um pouco depois, o projecto ficou escrito e guardado porque não se encontrava uma sala adequada. Um dia, Carla Pena, numa época em que estava a pensar desistir da ideia, insistiu para que fosse ao Hotel Royal Plaza. Lá falámos com a directora Eduarda e descobri que existia uma sala perfeita. Estávamos a meio de 2013. Acertámos e no início de Janeiro arrancámos. Depois da Selda tivemos o seguinte alinhamento: Mukenga, Vozes de Março, Pedrito, Gabriel Tchiema, Robertinho, Cantar Teta Lando, Zé Kafala, Angola 70s e fechámos com Ricardo Lemvo.
Nesse ano, apostaram em artistas que estavam praticamente fora dos palcos…
Nessa temporada, fomos buscar o Filipe Mukenga que não fazia espectáculos há dois anos e pensava desistir da carreira, o Robertinho que nunca tinha feito um espectáculo como cabeça de cartaz e o Zé Kafala que das poucas vezes em que actuava fazia participações. Conseguimos o Gabriel Tchiema, que estava com um disco novo fantástico, “Mungole”, e foi o primeiro artista a esgotar o Show do Mês. Outros espectáculos esgotados foram Cantar Teta Lando e Ricardo Lemvo.
E com Ricardo Lemvo aconteceu o primeiro “livestream” (transmissão online) do Show do Mês…
Foi o primeiro “livestream” transmitido em Angola porque naquela temporada começamos a gravar os espectáculos em HD (alta qualidade). Iniciamos com o concerto do Zé Kafala. Hoje olho para trás e penso “ainda bem que gravámos o Kafala e somos os únicos que o temos em HD”. Havia pouca coisa de artistas angolanos com qualidade. A gente percebeu isso e passamos a postar os concertos no Youtube. Descobrimos que não estávamos a ter um trabalho para nós e sim a dar um contributo à preservação da cultura angolana. Por exemplo, queres ver o Chico Montenegro a cantar e a tocar bongós? O Zé Kafala, o Waldemar Bastos? O Elias dya Kimuezo a cantar ainda com nível? O autor de “Panguiame”, Carlos Burity? Este acervo está disponível para todos, para que possam consultar. Muitos são os aproveitadores que querem comercializar o conteúdo, mas isto são outros quinhentos. Para nós o importante é guardar na memória colectiva os artistas que passaram no palco do Show do Mês. É emocionante termos coisas incríveis, Rui Mingas, vê-lo cantar ainda na homenagem que lhe fizemos nos seus 80 anos de vida… Por exemplo, agora, as imagens do Marito quando morreu eram maioritariamente no Show do Mês. Isto é um investimento no vazio, que no final do dia não tem um retorno financeiro mas tem para a memória de todos nós. Isto tem a ver com o reescrever da história dos tempos modernos e nós temos feito a nossa parte.
O Show do Mês é uma montra para a nova geração de instrumentistas. Como tem sido este processo?
Houve aqui alguns factos. O grande papel das igrejas, a Tocoísta principalmente, na formação de músicos. E graças à organização, ao facto de termos trabalhado com a Banda Maravilha, que tem referência de ser rigorosa. Aliado ao facto de termos colocado regras muito claras no projecto, sobre a forma de estar de todos, desde quem produz, participa como instrumentista, o cantor de cartaz, ao convidado. Enfim, há uma série de regras e procedimentos a ter em conta quanto ao rigor. Então, estes músicos são seleccionados muito por isso. Às vezes, olhamos para um talento e passamos meses a estudar o seu comportamento, a assiduidade, a sua forma de estar, a seriedade… Nós escolhemos não muito pelo cachet que se paga, é muito mais pelo compromisso. Só entra para o show quem quer fazer parte. O Show do Mês tem sido uma montra porque o nosso primeiro item é a qualidade, que na nossa visão é a única coisa que não é negociável. Porque para te superares e estares a um nível alto não podes negar nem brincar com a qualidade. Também tens de ter os padrões lá bem em cima. O Raidel (músico cubano), que foi director do Show do Mês por quatro ou cinco temporadas seguidas, foi das primeiras pessoas que começou a preparar-me para uma mudança geracional de instrumentistas dentro do palco. Durante muito tempo experimentamos vários músicos, uns que já estavam na praça com as manias da mesma… alguns não aceitaram as nossas responsabilidades, disseram que não queriam tocar porque era muita pressão. Começamos com concertos que tinham ensaios de duas semanas, hoje montamos em uma semana, com vinte e quatro músicas. A metodologia são quatro a cinco ensaios. Os músicos estão com a responsabilidade de tirar as músicas, o programa de ensaio é definido com antecedência. Mas isto foi um processo
Falando de antecedência, como tem sido definido o cartaz?
Depois de nove anos é mais difícil definir um cartaz, porque quase não tem ninguém, da linha de seguimento do Show do Mês para o fazer. E mais uma vez, temos de inventar e reinventar. Existe uma premissa: o músico ter onze sucessos, que é metade do reportório e uma carreira sólida. Estes eram os pressupostos, mas depois começamos a perceber que existem alguns artistas que mesmo não tendo uma longa carreira têm obra e talento suficiente. Por exemplo, a Irina Vasconcelos, que tinha um disco com uma banda… nós apostamos nela. A Selda tinha um disco interessante, mas nunca tinha feito um grande concerto, por isso voltamos a convidá-la para outro momento, já noutra qualidade, porque ela merecia estar no Youtube. Então, a escolha tem a ver com a premissa de estar dentro da filosofia do Show do Mês.
Houve escolhas que quando anunciadas deixaram os showistas conservadores reticentes, escolhas como Kiaku Kyadaff, Yola Semedo, Ary e outros, distantes da linha saudosista da Nova Energia…
Temos a particularidade de conseguir fidelizar o público, mas o tempo passa e as pessoas querem sempre mais novidades e temos de nos reinventar. O primeiro artista jovem, da moda, a ir ao Show do Mês foi o Kyaku Kyadaff, não porque estava a bater, mas principalmente porque participou no Cantar Teta Lando e nós percebemos que a musicalidade dele era muito superior à Kizomba que estava a fazer. Então conseguiu-se montar um espectáculo em torno dele e com as características da musicalidade dele. Mas se reparar no espectáculo do Kiaku, a música mais ovacionada foi uma valsa que ele tem no seu disco com o Emanuel Mendes. Este foi o maior momento, relegando sucessos como “Entre Sete Rosas”. Com a Yola Semedo fizemos o 360 Graus, um concerto muito tenso, com muito pouco tempo de preparação. Mas a Yola é um dos espectáculos que nós gostaríamos de voltar a fazer, talvez nesta temporada. Temos estado a conversar, queremos trazer uma Yola mais acústica, com o potencial vocal que ela tem. Quanto à Ary, já tinham se passado seis ou sete temporadas e ainda não a tínhamos tido no palco do Show do Mês e mesmo dentro da Nova Energia houve muita resistência, mas quando chegou o momento certo ela percebeu aquilo que eu queria no espectáculo e penso que fizemos um dos concertos mais bonitos e os showistas saíram de lá agradados porque viram uma Ary completamente transformada.
Tem partilhado o conhecimento com outras empresas do sector?
Vou dividir a minha resposta em duas partes. Primeiro nós somos sabichões, no sentido de que não temos nada a aprender com o outro, o que é muito mau, mas temos o privilégio de poder partilhar com alguns produtores, por exemplo, eu gosto muito do Júlio Silva, da Cristina Miranda e do Adão Filipe. Às vezes, estamos a ensaiar e ligo para pedir opinião, perguntando acerca de artistas com quem já trabalharam, detalhes e outras dicas. Nós investimos nos técnicos, em formação online e presencial, na qualidade da produção, para que os nossos espectáculos tenham um nível aceitável.
Onde a Nova Energia foi buscar esta experiência para montar espectáculos?
A nossa experiência vem do Hospitality da FIFA, em que se diz “nós não queremos que as pessoas vão a um espectáculo, queremos que vão a um concerto e vivam uma experiência”. Esta é a essência do Show do Mês, não é ir a um espectáculo, é viver uma experiência. Chegas, estacionas, vês as pessoas, és fotografado, convives, não há confusão, todas as pessoas são tratadas com respeito e qualidade. Se fizermos um espectáculo dos anos 80, é preparado um cenário para tal, a caracterização dos músicos, tudo isto para viveres uma experiência. Vais ao Show Piô e tens jantes, pneus… antes do concerto estás completamente despido do “eu sou” e aberto a levar aquilo que é o espectáculo. Vês mais velhos brincarem logo à entrada de uma sala como se fossem crianças e quando as portas abrem eles portam-se como crianças e estão prontos para receber o Pipiadora, a Mangonha, porque a comunicação toda do evento foi montada para isso. Nós fomos os primeiros a pôr canecas nos eventos e a levar kissângua, quitutes e a música do musseque para o Talatona.
E quando é que levam a música do musseque para o musseque?
Tudo depende daquilo que é o conceito e do público que tu queres. Acho que tem coisas dentro dos centros recreativos que são únicas, como a atmosfera que se vive no Kilamba. E digo que quem nunca foi ao Kilamba só perde, porque o ambiente que se vive lá no Muzonguê da Tradição, no Caldo do Poeira e noutros momentos culturais é único e é fantástico. Assim como o ambiente que se vive no Funge do Show do Mês, que é outra coisa. Dentro do nível e tipo de público, penso que cada um pode fazer, eu não posso ser melhor que o João Adilson, tenho de aprender com ele e vice-versa, todos têm de ocupar um nicho do mercado.
Músicos versus “animadores com microfone na mão”
Qual é o seu olhar sobre o que se passa no sector dos espectáculos, com a realização de vários concertos…
É uma pena. Há falta de formação e tenho muita dificuldade de ir ver outros espectáculos, porque depois choca com a minha sinceridade. Isto não ajuda a dar o feedback. Para o que queremos ser como indústria, ou pseúdo-indústria temos de crescer e nos profissionalizarmos cada vez mais.
Eu, normalmente, quando vou a um espectáculo, tenho algum interesse em tirar dúvidas, apreciar um miúdo com talento, ver detalhes… Gosto dos concertos da Casa 70, gosto do Festival da LAC, gosto de coisas com qualidade, com músicos e não com animadores com microfone na mão. É importante nós em Angola fazermos a distinção de duas categorias: animadores com microfone e cantores. E devemos ter a coragem de dizer que este é animador e aquele é cantor. Não seremos os únicos, aqui bem perto, no Congo Democrático têm o animateur e o chanteuse. Mesmo no passado, cá os conjuntos tinham animadores, quando o ritmo estava forte davam uma espécie de palavras de ordem e depois voltava o cantor.
Mas são estes cantores que estão nas grandes actividades culturais e são os músicos de referência, como isto é possível?
Mas será que são mesmo músicos? Cantas desafinado, não conheces as notas que estás a cantar, só actuas em playback… não consegues actuar ao vivo e és músico? Devemos ter respeito pelas profissões. O animador de cabine não é jornalista. Devemos respeitar as profissões senão vou achar que também sou músico. Estou preocupado com o que vamos deixar, porque estamos numa sociedade com um consumo tão rápido que não sabes o que é hoje o sucesso.
Em tempos levantou uma polémica e houve uma corrente que tratou o Yuri Simão de arrogante em relação à nova geração de artistas nacionais e de desvalorizar aqueles que não são da linha musical em que aposta…
Fique bem claro que não podemos valorizar o que não tem valor. Começamos por aí. Sei que isto vai dar outro problema, mas eu já disse que não podemos negociar a qualidade, nem podemos construir uma sociedade medíocre. Ponto. Alguns destes miúdos têm talento extraordinário, só que não têm a capacidade de trabalharem em produtos noutros formatos e ficam em coisas efémeras. Eu não tenho nada contra uma geração de artistas diferentes, que não sejam do Semba, eu gosto de Kizomba e de outros tipos de música, agora, não posso ouvir coisas que são uma mentira. Temos de desmistificar. Cantor é cantor e animador é animador. Falar sobre um beat não é cantar, porque o canto é uma coisa muito séria.
Mas eles ganham prémios nacionais e internacionais…
Quais prémios? Em que o povo vota? O povo apenas consome aquilo que lhe dão a consumir, a qualidade tem outro custo. Olha, vão passar anos até chegar outros irmãos Kafala. Se existe tanta qualidade me mostrem um a seguir ao Zé Kafala… são tão bons estes miúdos, me mostrem uma formação que consiga ter a consistência de Os Kiezos, Os Jovens do Prenda, serem melhores que a Banda Maravilha, a Banda Movimento… mas temos muitos instrumentistas, eu defendo a qualidade. Senão não teríamos talentos como a Heróide, Branca Celeste, Aylasa, Lethus, Dennis Samaya, Luwawa… É uma mentira que o Yuri Simão não gosta de artistas novos, a Nova Energia não pode é gostar de coisas más, horríveis, isto é que não.
Mas muitos apostam nestes artistas…
Não quero citar nomes para não gerar mais polémicas, mas metade destes meninos não sabem cantar nem conhecem as notas, então temos de dizer que são animadores em cima de um beat, são desafinados. A mistura destas coisas provocou a ascensão da má qualidade e quem tem responsabilidade para com a música deve ser sincero e dizer as coisas como elas são, vai doer um bocado, mas é preciso dizer a verdade. O Presidente da República disse que era preciso combater a corrupção, que ela existia e nós devemos ter a coragem de dizer que é necessário combater o mediocrismo. A mediocridade cultural pode enterrar um povo.
Não está a ser muito duro?
Nós não podemos elevar a cultura ao nível do povo, mas sim elevar o povo ao nível da sua cultura. Nós não somos de uma cultura medíocre, nem existem culturas boas ou más e neste país saíram vozes como Waldemar Bastos, Bonga… temos de trabalhar e se tens talento trabalhe mais. Podem até fazer Coliseu e outros espectáculos lá fora que nada valem, diz-me qual é o angolano que é referência lá fora? O mesmo que o é há mais de trinta anos, Bonga. Portugal é um mercado pequeno que achamos que é a porta de entrada para a Europa, o que é uma mentira, porque nem mesmo eles entraram. Nós temos de ir lutar onde os outros lutam: Paris, Londres… mesmo assim há uma mutação dos mercados. Temos referências no mercado angolano actual? Poucas. Vamos voltar aos mais velhos Sam Mangwana, Bonga, Rui Mingas, Os Merengues… que já eram ouvidos por África.
Mas o que é facto é que os artistas convidados para as actividades do Estado são os que consideras “animadores com microfone na mão”…
Uma coisa é o Estado como política cultural e outra é o Estado como política populacional das massas, chamarei assim. Quando quer uma actividade cheia, o Estado vai chamar o Nagrelha, porque pretende alcançar um determinado público. Eu acho que todos são necessários, mesmo aqueles que cantam mal, porque podemos transformá-los em um pouco melhor. Por exemplo no Brasil foram vinte anos para levar o Funk ao Rock In Rio.
in JA