O advento do Santuário de Muangai – Carlos Kandanda
O advento do Santuário de Muangai - Carlos Kandanda
ACJ muangai

No dia 13 de Março de 2026 a UNITA completou 60 anos de idade desde que ela foi fundada no dia 13 de Março de 1966, ao longo do rio Muangai, um afluente do rio Lungué-Bungo, na margem directa. Na linha recta a localidade de Muangai fica a cerca de 60 km a Sul da Cidade do Luena, na Província do Moxico.

Passando pela via do Lucusse e Lutuai, a localidade de Muangai, onde a UNITA foi fundada, fica a cerca de 165km. Especificamente, o Berço da UNITA está localizado próxima da nascente do rio Muangai, numa floresta bem-fechada, quase com as mesmas características da floresta do Maiombe, em Cabinda.

Efetivamente, foi nesta localidade histórica onde Dr. Jonas Malheiro Savimbi procedeu ao acto constituinte da fundação da UNITA. Este Acto Constituinte precedeu um conjunto de acções militares no Moxico, no Kuando Kubango e na Lunda levadas acabo pelos Comandantes que foram treinados na Academia Militar de Nanking (China) e no Kongwa (Tanzânia).

Portanto, a fundação da UNITA no Muangai foi precedida de acções militares na Frente Leste de Angola que embocaram na formalização da UNITA como Movimento de Libertação Nacional apoiando-se nas estruturas políticas, militares e diplomáticas.

Foi no Muangai onde se acendeu a chama da liberdade e da autodeterminação, que simbolizou o sol nascente, os raios solares e o cantar do Galo Negro, que anunciava a aurora, o levantar do sono e o despertar da consciência do Povo Angolano colonizado, oprimido e explorado.

O timoneiro da revolução, Dr. Jonas Malheiro Savimbi, no acto fundante, acendeu o fogo, que simbolizou a luz, o farol, a unidade nacional, a identidade cultural, o patriotismo e a liderança clarividente – em busca da independência total. Foi em torno da “Fogueira do Patriota”, no Santuário do Muangai, em que encetou a marcha pela liberdade e pela autodeterminação do Povo Angolano.

O fogo que se acendeu no Muangai tem o simbolismo muito grande, de carácter tradicional, que iluminou o caminho da UNITA até a morte do presidente fundador, Dr. Jonas Malheiro Savimbi, em 2002.

A Chama, que é o símbolo da luz, tem o significado muito profundo, em termos da consciência humana. Repare que, a luz que despertou o povo angolano nunca apagou. Manteve-se sempre acesso. Todavia, faltava um ritual para herdar a chama da liberdade que iniciou no Muangai pelo Dr. Jonas Malheiro Savimbi.

Não foi por acaso que Dr. Jonas Savimbi dirigiu-se à mesma área onde ele fundou o Partido, no Muangai. Repare que, quando Dr. Jonas Savimbi deixou o Andulo (1999) haviam várias opções de onde devia dirigir-se e encetar a resistência.

Por exemplo, podia dirigir-se ao norte do país ou às Lundas. Contra todas as propostas feitas pelos seus comandantes, ele estava decidido em regressar ao Leste, à mesma área do rio Lungué-Bungo onde ele iniciou a Luta Armada e onde vinha tombar heroicamente.

Importa ressaltar o facto de que, a alma e o espírito do Dr. Jonas Malheiro Savimbi não podiam repousar fora do mesmo espaço geográfico onde se encontra o Muangai. Foi o juramento que ele próprio fez de estar lá e ficar lá, onde a sua Alma deve repousar, para consagrar a «Chama da Liberdade» e das Almas de todos patriotas que sacrificaram as suas vidas pela Independência Total de Angola.

Como é sabido, os restos mortais do Dr. Jonas Savimbi repousaram primeiro na cidade do Luena onde mais tarde foram transladados para Lopitanga, à sua terra natal, na província do Bié. Só que, a alma deste grande homem está no Muangai e estará sempre lá – na eternidade.

Por isso, o Muangai não é apenas um berço da UNITA, mas sim, um santuário dos mártires tombados e dos heróis desconhecidos. É um facto incontornável que a história registou com suores, com sofrimentos e com o sangue derramado.

Por analogia, as circunstâncias em que Dr. Jonas Savimbi morreu são idênticas com a crucificação de Jesus Cristo no Monte Calvário, caracterizada por tormentos, injúrias e blasfêmias. Um corpo mutilado, imergido no banho do sangue, exposto ao público, sem pudor e sem sensibilidade humana, num ambiente extremo de barbaridade, de agonia e de revanchismo.

Assim que o Santuário de Muangai transcende a dimensão nacional e o simbolismo político. Ele tem uma dimensão africana, inspirado no pan-africanismo, assente na cultura e na identidade africana. Isso está bem explícito no primeiro Hino da UNITA: “Mutuashile África Yetu.”

Lembro-me que, em 1965, numa conversa bem estendida com Dr. Jonas Savimbi em Lusaka. Ele tinha o mapa de Angola na mesa. Pediu-me para indicar a localidade da minha terra natal. Eu apontei na localidade do Sessa. Uma pequena vila entre Lumbala Nguimbo, Cangamba e a Missão do Muié. Ele disse-me: Essa localidade está situada numa área estratégica.

Perguntei-lhe, como é assim? Dr. Jonas Savimbi explicou-me o seguinte, em detalhes:

Nas minhas conversas com Mao Tsé-Tung, o homem que dirigiu a Revolução Chinesa, aconselhou-me de que devia prestar atenção a este corredor que fica entre os rios Lungué-Bungo e Cuando. Esta região oferece as melhores condições de criar uma Base de Apoio e progredir gradualmente aos centros urbanos, sobretudo ao Caminho-de-Ferro de Benguela e ao planalto central. Esta região é vasta, remota, isolada dos grandes centros urbanos, cheio de rios, de fauna, de flora, de frutas silvestres, de florestas e de terras cultiváveis; tem a população rural, dispersa e sem influência da cultura portuguesa e do sistema colonial.

Além disso, esta região dar-vos-á o acesso á Zâmbia, em termos da logística e da diplomacia. Pois, uma revolução depende da logística, da comunicação com o exterior e da diplomacia. Uma revolução sem uma base de apoio é insustentável. E, uma base de apoio sem a população local e sem o acesso ao exterior corre o risco de asfixia. As elites locais desempenham o papel fundamental na mobilização do povo e na construção de uma base de apoio.” Fim de citação.

Na altura, na década 60, por inspiração nacionalista e pan-africanista, que estava em voga em África, com os outros jovens estudantes, frequentávamos clandestinamente as embaixadas dos países socialistas em Lusaka. Com destaque, a Embaixada da China que estava muito activa em distribuir os livros e os panfletos sobre o socialismo, o marxismo-leninismo e a Revolução Chinesa.

Portanto, o encontro com Dr. Jonas Savimbi, além de abrir o meu horizonte político, reforçou o meu desejo ardente de ingressar-me na luta de libertação, já que, a minha terra natal e o povo do leste tinham um papel estratégico a desempenhar.

Com o andar do tempo, em todas as etapas da luta de libertação, da guerra fria e da guerra civil, o Leste de Angola foi o palco principal das confrontações militares. Curiosamente, a guerra terminou no mesmo espaço geográfico onde a UNITA foi fundada e onde se celebrou o Memorando do Entendimento, que marcou o final da guerra civil angolana, em 2002.

Enfim, a visão estratégica do Dr. Jonas Malheiro Savimbi, de abrir a Frente Leste, como sendo o «espaço estratégico» da Luta de Libertação, superava o horizonte em termos da dimensão, da amplitude e da certeza.

Aliás, foi uma leitura geopolítica e geoestratégica mais adequada e mais acertada. Pois, todas as frentes militares que foram abertas pelos movimentos de libertação, quer nos centros urbanos, quer no Norte de Angola e quer em Cabinda, falharam redondamente.

Chegando ao âmago desta narrativa histórica, a peregrinação ao Santuário do Muangai, no dia 13 de Março de 2026, assinalando 60 anos da fundação da UNITA, foi marcada por uma «cerimonia tradicional» que aconteceu pela primeira vez em 1966.

Tal e igual como aconteceu em 1966, o comandante Samuel José Chiwale acendeu uma vela. Desta vela, o presidente eleito, Adalberto Costa Júnior, acendeu a sua vela a partir da vela do comandante Samuel Chiwale. Simbolizando a transição do poder e a continuidade da luta, iluminando o caminho da liberdade e da autodeterminação.

Os nacionalistas da luta anticolonial (presentes no local) acenderam as suas velas a partir da vela do comandante Samuel Chiwale como símbolo da preservação dos ideais do Muangai, da herança cultural e da identidade nacional.

Por outro lado, os quadros e militantes da UNITA (presentes no Santuário do Muangai) acenderam as suas velas a partir da vela do presidente eleito, Adalberto Costa Júnior, como símbolo da fidelidade, da entrega total e da firmeza de assegurar a chama da liberdade do Muangai.

Houve um outro pormenor que consistiu em duas cadeiras: Uma cadeira (feita de paus, capim e de cordas de mukuve) encostada na arvore onde sentou Dr. Jonas Savimbi. E uma outra cadeira (do mesmo estilo) que estava próxima da cadeira do Dr. Jonas Malheiro Savimbi, onde sentou o presidente Adalberto Costa Júnior. Isso simbolizou a «linhagem genealógica» da «sucessão do poder» a partir do berço do Partido.

Tradicionalmente, a «Chama do Muangai foi transferida directamente ao Adalberto Costa Júnior», como sendo o «Herdeiro Legítimo». O rito que ocorreu no berço e no Santuário do Muangai, no ponto de vista da tradição africana, significa que, daqui para diante, «os futuros presidentes eleitos terão que passar obrigatoriamente por este protocolo do berço e do Santuário do Muangai».

O actual presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, tem a «chave» do berço e do Santuário do Muangai que lhe foi entregue pelo comandante Samuel Chiwale na presença dos conjurados e dos nacionalistas da luta de libertação nacional.

O memorial que há-de-ser erguido no berço e no Santuário do Muangai servirá de símbolo sagrado dos mártires tombados e dos heróis desconhecidos que sacrificaram as suas vidas pela liberdade, pela autodeterminação, pela democracia plural e pela distribuição equitativa da riqueza do nosso país.

Pois, a praxe é o fruto do costume, que nasce de «actos concretos», que deixam uma obra gigantesca, que permanece no tempo e no espaço – transformando-se numa norma jurídica.

Gostaria de chamar atenção especial aos historiadores, sociólogos, antropólogos, pesquisadores, estudiosos e académicos sobre os rituais tradicionais que ocorreram no dia 13 de Março de 2026 sobre a evolução histórica da UNITA. Pois, esses ritos têm o significado muito grande que caracterizam a UNITA de ser um Partido eminentemente africano, nascido no solo angolano e enraizado na identidade cultural angolana.

Ali estará a «virtude» do Santuário do Muangai, o Berço da UNITA, recheado do «simbolismo» que transcende a nossa imaginação sobre a sua justeza e grandeza. Bem-haja Muangai. Bem-haja o Berço da UNITA.

*Antigo deputado à Assembleia Nacional

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