O apagão da Microsoft e o regresso do “trumpismo” – Adebayo Vunge
O apagão da Microsoft e o regresso do "trumpismo" – Adebayo Vunge
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Um: Na passada sexta-feira, 19 de julho, o mundo quase paralisou fruto de um apagão nos sistemas da Microsoft, decorrente duma actualização com falha do antivírus corporativo da empresa CrowdStrike, chamado Falcon, o qual gerou “bug cibernético” que afectou uma série de países, as operações de empresas, principalmente bancos e aeroportos e até mesmo serviços de governos.

Também entre nós, alguns bancos tiveram stress não reportado publicamente, mas com implicações nos seus sistemas em serviços como abertura de contas e outras operações durante mais alguns dias depois de ter ficado regularizado “no mundo que conta”.

Esta crise esteve longe de ser a primeira, a última ou a mais grave em termos de consequências e mesmo de custos. O que já era levantado por alguns especialistas veio a confirmar-se, ou seja, há uma exposição demasiado grave e perigosa ao digital, o que deixa evidente a fragilidade do mundo actual face aos avanços da digitalização.

Embora haja uma discussão conceptual entre os “nerds”, se se tratou de um ataque ou apenas de uma falha nos sistemas, a verdade é que deixou clara a necessidade das empresas afectadas terem sistemas alternativos, na lógica de back-ups, deixando de confiar exclusivamente num fornecedor, independentemente da sua grandeza.

Bruna Fabiane da Silva é uma IT brasileira que deixa uma dica que me parece óbvia, mas nem sempre as organizações têm vindo a prestar a devida atenção: É indispensável adoptar a regra de política de back-up na ISSO 27001, que é a ISSO de segurança da informação.

Essa norma traz recomendações no sentido de ter uma estratégia de back-up 3,2,1. Significa que a organização tem de disponibilizar três ambientes, para armazenar as informações, sendo dois deles, pelo menos, em mídias físicas, instaladas em lugares separados e um terceiro na núvem, por exemplo”.

Outros aspectos que os especialistas chamam atenção é a interdependência tecnológica, que cria riscos de contágio sistémicos numa indústria. O caso da aviação civil foi muito flagrante agora.

Tudo isso levantou o tema das infraestruturas bem como dos tempos de resposta às crises, criando um stress substancial entre os clientes e consumidores de determinados serviços. Portanto, embora a situação não tenha sido severa, fez moça.

Dois: As eleições nos Estados Unidos da América têm vindo a suscitar vivo interesse em todos os quadrantes. Ora por causa das gafes do Presidente Biden, que se deixou arrastar numa situação complicada, comprometendo a reeleição dos democratas, provavelmente com Kamala Harris como candidata.

Ora também por causa do oponente e ex-Presidente Donald Trump, que é uma figura demasiado controversa, mas que reúne muitos apoios, sobretudo entre os sectores mais conservadores da sociedade.

Um facto parece incontornável: A tentativa de assassinato com os tiros de Thomas Crooks veio facilitar os desígnios de Donald Trump que se apresenta agora como vítima do sistema e muito provavelmente será reeleito Presidente dos Estados Unidos da América.

Fez-me lembrar a facada de Adélio Bispo, que facilitou a eleição do antigo Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ele próprio um acérrimo defensor e aliado do “trumpismo”. O incidente por si tem pontas, no mínimo, estranhas. Ainda assim, repudiamos qualquer tentativa de assassinato contra quem quer que seja.

A saída de Biden da corrida para o seu segundo mandato deixou, entretanto, uma réstia de esperança para os democratas que tentam agora evitar o colapso que se anunciara depois do debate entre os dois candidatos de então e o referido atentado contra Trump.

O sistema eleitoral e político-partidário é complexo. Ainda assim, é preciso não perder de vista que para além das eleições presidenciais há eleições ao nível de condados bem como para o congresso e senado onde é sempre importante manter um certo equilíbrio uma vez que a performance política e governativa dos Presidentes americanos é muito dependente da correlação de forças a nível das duas câmaras parlamentares.

O que mais me preocupa nessa provável reeleição de Trump não é o seu discurso anti-imigrantes e outros laivos que roçam um preocupante retrocesso civilizacional.

O que mais me preocupa é a agenda da política externa que desqualifica o multilateralismo e apresenta uma visão pouco clara – senão mesmo de desprezo em relação ao continente africano, numa altura em que se levantam inúmeros desafios tendentes à estabilização dos focos de conflito, a industrialização do continente, combate à pobreza e da sua abertura como parceiro importante para os determinantes da geopolítica.

África há muito caminha para abandonar a lógica de mero repositório de recursos minerais ou nalguns parcos casos de mercado para determinados produtos. África precisa de ser encarada noutra perspectiva e isso depende mais dos africanos do que de qualquer inquilino da Casa Branca ou qualquer outro palácio presidencial do mundo.

*Jornalista

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