O aumento do número de rádios privadas não trouxe nada de novo – Ismael Mateus
O aumento do número de rádios privadas não trouxe nada de novo - Ismael Mateus
Ismael M

É sem dúvidas chegado o momento de iniciar uma reflexão sobre os ganhos para a democracia e para os cidadãos da existência de mais de vinte rádios privadas na cidade de Luanda.

Com a chegada ao poder do Presidente João Lourenço quebraram-se as principais dificuldades que impediam o aparecimento de mais rádios privadas no país e, num ápice, o número quadruplicou. Luanda tem hoje cerca de 30 rádios privadas, que deveriam oferecer ao público ouvinte um serviço diversificado e mais democrático.

Embora haja diversidade, as rádios privadas estão muito longe de prestarem um bom serviço à sociedade. Comecemos pela isenção e tratamento equidistante que era uma das principais queixas feitas não só às rádios públicas, mas também às poucas privadas da época José Eduardo dos Santos.

Neste ponto específico o aumento do número de rádios não trouxe nada de novo. Os graves problemas relacionados com a ausência do contraditório, com o tratamento parcial dos factos e com a falta de isenção dos jornalistas continua, apesar de não existirem rádios de uma única tendência.

Hoje, são os interesses dos proprietários que ditam a linha editorial das rádios e cada grupo de interesse, nalguns casos mesmo dentro da mesma tendência ideológica, procura ter a sua rádio para “vender” uma versão dos factos, escolher os analistas e os temas a abordar de acordo com os seus interesses. Não encontramos um caso que possa ser apresentado como uma referência de isenção, imparcialidade e equidistância profissional.

Em termos de plástica, o aumento do número de rádios também não trouxe nada de novo. Pelo contrário, usa-se e abusa-se do recurso ao ouvinte que com mensagens e ligações telefónicas acabam por ser os verdadeiros realizadores.

Na maioria das rádios, a reportagem desapareceu, tal como a crónica e os motivos de interesse. As manhãs informativas estão cheias de fait-divers e de notícias políticas que são exactamente as mesmas em todos os canais e tratadas da mesma forma.

Aliás grande parte das rádios nem sequer procura captar sons próprios, preferindo usar os registos magnéticos da concorrência sem as citar.

Os jovens jornalistas raramente passam por um período de aprendizagem e, sem estágios nem acompanhamento, produzem um jornalismo sem rigor, parcial e de acordo com a vontade conjectural do dono da rádio.

Musicalmente é tudo igual também. Tocam as músicas que estão a bater e, não poucas vezes, é exactamente a mesma música que passa por todos os canais no mesmo dia ou na mesma semana.

Não há dinheiro para comprar discos para personalizar as emissões e por isso as rádios optam por empregar discos-jockey como operadores de som que depois, em vez dos realizadores, são eles que se encarregam de colocar a música no ar, na base do critério do que “está a bater”.

Poderíamos obviamente valorizar o facto destas novas rádios terem dado novas oportunidades de trabalho a jovens saídos das faculdades. É um facto que centenas e centenas de jovens estão empregados, mas o cenário é de uma situação laboral extremamente frágil, com contratos altamente precários, despedimentos, salários em atraso, não há pagamento de Segurança Social e, nalguns casos, nem do Imposto de Rendimento de Trabalho (IRT).

Mas o problema não é apenas ao nível da renumeração e na precariedade das relações laborais. As condições de trabalho na grande maioria das rádios, incluindo públicas, também não são as melhores, com falta de transportes para reportagens, falta de equipamentos, como telefones e respectivo saldo, material de transmissão e até papel para as impressoras.

Ainda assim, a criação de rádios tornou-se um dos negócios mais atractivos. Não há publicidade suficiente para essa quantidade de rádios. Com a economia em retracção, a publicidade encolhe e os grandes anunciantes, mesmo que estiquem o seu leque de alcance, não conseguem publicitar em metade das rádios existentes.

As rádios sobrevivem da venda de espaços de antena principalmente a igrejas e seitas não reconhecidas. O conteúdo dessas igrejas e seitas é altamente manipulador e até contra a ciência, advogando a cura de doenças, o fácil enriquecimento ou a solução milagrosa para problemas sociais.

A quase todas as rádios faltam estratégias comerciais e comunicativas. Para a grande parte dos proprietários basta que o projecto esteja no ar e existam igrejas pagantes com tempo de antena.

Como agora podemos verificar, a abertura política, que se acreditava que seria a solução para a democratização dos conteúdos e para a transição para um jornalismo mais isento e mais responsável, está a revelar-se um autêntico fiasco, salvo no facto de que o cidadão tem hoje mais opções de escolha e pode sempre mudar o canal para a conversa que mais se ajuste ao que quer ouvir ou à sua cor política.

Mais do que nunca, o tema da autonomia jornalística está sobre a mesa. Tanto na rádio pública como nas privadas é grande a interferência dos proprietários nos conteúdos jornalísticos, ao ponto de os jornalistas buscarem temas, analistas e factos de acordo com esse condicionalismo.

Este cenário só é possível perante a ausência do regulador, que deveria ser a Entidade de Regulação da Comunicação Social (ERCA). Em condições normais, a participação das igrejas nas rádios privadas deveria ser regulamentada, incluindo o número de horas de emissão, os períodos do dia disponíveis e, naturalmente, o conteúdo a transmitir.

Enquanto não houver fiscalização não haverá o passo que da nossa parte há muito esperamos: um processo de fusão de rádios para a constituição de projectos comerciais e jornalísticos mais robustos, mais responsáveis e mais profissionais. A proliferação de rádios sem capacidade e sem qualquer impacto, não traz nada de novo.

*Jornalista e escritor

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