O contributo da igreja na promoção de valores morais e cívicos – Pedro de Castro Maria
O contributo da igreja na promoção de valores morais e cívicos – Pedro de Castro Maria
igreja

Analisar o contributo da igreja na promoção de valores morais e cívicos revela-se como um grande desafio nos dias de hoje, tendo em conta a actualidade e pertinência que o assunto encerra.

Na sociedade angolana fala-se, amiúde, de uma crise acentuada de valores, que suscita o levantamento de vozes de vários actores preocupados com a situação e nem sempre a igreja tem sido apontada como um ente positivo na promoção dos referidos valores.

Na perspectiva da ciência, Émile Durkheim concebe a igreja como uma colectividade fundada num mesmo sentimento religioso, ou seja, que partilha uma fé comum. Para este teórico da Escola Francesa de Sociologia, “uma sociedade cujos membros estão unidos por representarem da mesma maneira o mundo sagrado e traduzirem essa representação comum em práticas idênticas, é isso a que chamamos igreja”.

Assim, entendo igreja como a instituição do fenómeno religioso, ou seja, a igreja é a instituição religiosa por excelência.

Na perspectiva da própria igreja, o art. 13.º do Manual de Instrução para Candidatos a Membros na Igreja Metodista Unida define a igreja como “(…) uma congregação de fiéis na qual se prega a pura palavra de Deus e se ministram devidamente os sacramentos, com todas as coisas a eles necessários, conforme a instituição de Cristo”.

O bispo Emílio de Carvalho, ao fazer referência ao facto da palavra igreja ser mencionada pela primeira vez no Novo Testamento em Actos 5: 11, propõe o sentido de igreja como uma companhia, “(…) um grupo de homens e de mulheres chamados pelo Evangelho, incorporados a Cristo pelo baptismo, animados pelo amor, disciplinados e unidos por toda a espécie de comunhão”.

Esta concepção de igreja, para além de ser baseada numa denominação específica, enfatiza a figura de Cristo como estando no centro. Por via disso, esta definição enquadra-se numa perspsctiva religiosa-cristã.

Que contributo se espera, então, da igreja na promoção de valores morais e cívicos? A partir do conceito de igreja posso depreender que, quer na perspectiva sociológica, quer na voz de uma de suas denominações, ela é uma instituição eminentemente moral e cívica.

A igreja cristã, em particular, advoga a prática do bem em oposição ao mal, o exercício do amor, a unidade entre as pessoas de diversos extractos sociais e a observância de um código de conduta, plasmado na Bíblia Sagrada e literatura complementar.

Eventualmente posso estar a deixar ficar a ideia de que a igreja é um posso de virtudes, imune aos conflitos sociais do seu tempo. Longe estou de pretender veicular tal ideia. A igreja é uma instituição divina, porque se acredita que foi fundada por Deus, na pessoa de seu filho Jesus Cristo, mas é também uma instituição humana, constituída por seres humanos, falíveis, susceptíveis à prática dos males que outros membros da sociedade praticam.

Eugen Drewermann, em “Funcionários de Deus”, chama à atenção da necessidade da igreja, em coerência consigo mesma e, ao contrário de todos os outros agrupamentos humanos, construir uma comunidade que não se funde nem sobre a experiência de suas falhas nem sobre quaisquer estruturas de violência interiorizada, mas que viva essencialmente da oferta da graça e da franqueza e da confiança.

Dalai Lama constata o facto triste de, na história da humanidade, a religião ter sido uma tão grande causa de conflitos. Todavia, considera a religião como sendo bastante relevante no mundo de hoje, pois, como disse, embora a crença religiosa não seja uma pré-condição para o comportamento ético nem para a felicidade, as qualidades espirituais de amor e compaixão, de paciência, tolerância, perdão, humildade e afins são indispensáveis para que uma pessoa pratique ou não uma religião.

Há valores culturais da sociedade angolana, de matriz maioritariamente bantu, que a igreja pode ajudar a promover. Valores como o forte sentimento de solidariedade, ante a tendência que cresce de forma galopante do individualismo típico das sociedades neo-liberais, o respeito por entes sagrados, o apego à terra, a organização social do meio, o apreço aos símbolos culturais, o respeito e a conservação dos bens públicos, a importância da distinção entre o espaço privado e o espaço público, a preservação da memória colectiva, o adestramento e acompanhamento das novas gerações no sentido de serem capacitados a serem membros mais úteis à sociedade, dentre outros, são traços comportamentais que a igreja deve abraçar e promover.

*Sociólogo, docente e investigador no ISCED – Luanda e investigador no Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido