O Coronel Bernardo não é professor — Nsambanzary Newton Xirimbimbi
O Coronel Bernardo não é professor — Nsambanzary Newton Xirimbimbi
coronel bernardo

Ontem, pela primeira vez, notou se uma onda, quase que geral, de reprovação contra o comportamento da Madame Neth Nahara, uma cena filmada no aeroporto internacional, quando tentava seguir viagem. E fez me lembrar um outro caso, o de alguém que venho seguindo há já algum tempo, um caso que me preocupa sobremaneira.

Esta é uma “batata que está a assar” e que um dia pode vir a rebentar. Porque digo isso? Porque o senhor em causa, dá indícios de ter uma vontade doentia de aparecer e estar sempre no spot light. Vou explicar.

Numa altura em que o país enfrenta desafios sérios no sector da educação — com escolas degradadas, professores que não percebem nada sobre o trabalho docente e mal pagos, alunos sem carteiras e currículos que precisam de revisão profunda —, o que se esperaria de um professor era, no mínimo, discrição, sobriedade, competência e compromisso com o saber. Não é isso, infelizmente, o que temos observado com o autointitulado “Coronel Bernardo, o Doce Professor”.

Com milhares de seguidores nas redes sociais, o Coronel tem feito da docência um palco e da sua figura, uma performance constante. Não se trata apenas de ser “irreverente” ou “autêntico”, como os seus defensores alegam. O problema é mais profundo e preocupante: a docência está a ser confundida com espectáculo, e o professor com um personagem em busca de palco.

O que se vê — e se vê porque ele mesmo faz questão de filmar, editar e publicar — são episódios de excessiva exposição, teatralização da rotina escolar, e uma obsessão quase patológica por reconhecimento.

Desde as suas entradas “heroicas” nas escolas com câmaras atrás, até às filmagens de colegas de trabalho sem autorização, passando por vídeos a comer de forma escancarada ou a dar lições de moral em lives improvisadas — tudo revela um desejo compulsivo de estar no centro das atenções.

Esse comportamento não é inofensivo. Pelo contrário: compromete seriamente a imagem da profissão docente e banaliza uma função que é — ou deveria ser — uma das mais nobres da sociedade.

Não basta vestir-se de forma excêntrica ou usar títulos pomposos como “Coronel” ou “Doce Professor” para o ser. Ser professor é carregar uma grande responsabilidade: a de formar consciências, orientar intelectos e servir de modelo ético e pedagógico para os seus estudantes. E para isso, é preciso mais do que fama, seguidores ou gestos mediáticos. É preciso sanidade, método, recato e, acima de tudo, formação.

Há quem, por empatia, veja nas suas denúncias um acto de coragem — e é compreensível. De facto, ninguém pode negar que o sistema educativo angolano está repleto de problemas. Mas é precisamente por isso que não se pode aceitá-lo como “porta-voz” dessa causa.

Porque a forma como faz a denúncia revela, mais do que indignação, desequilíbrio. Revela vaidade, histrionismo e uma perigosa tendência para a autopromoção.

Organizar um congresso sobre educação no quintal de casa, oferecer “bolsas de estudo” com o salário de um professor, arquitectar olimpíadas matemáticas sem respaldo institucional, são gestos que mais se aproximam da encenação do que da acção concreta. E é legítimo perguntar: com que método? Com que legitimidade? Com que estrutura?

A docência não se improvisa. Não é performance. Não é arte cénica. É ciência, é ética, é método. É contenção. É, muitas vezes, ser invisível para que o saber brilhe. Por isso, os professores do ensino geral usam batas brancas — para não distrair, para desaparecer em nome do conteúdo. E é precisamente por isso que o comportamento do Coronel Bernardo soa tão dissonante. Ele não desaparece — ele monopoliza. Ele não ensina — ele projeta-se.

Há quem o comparou com outros profissionais como o Luís Kifas. O caso do Kifas ilustra bem o que quero dizer: é possível ser multifacetado — artista, comunicador, pedagogo — sem confundir os papéis, sem fazer da sala de aula um palco de vaidades. A diferença está na maturidade e no compromisso com os códigos de cada função.

O verdadeiro perigo aqui é que, ao se permitir esse tipo de figura como representante do magistério, corre-se o risco de banalizar ainda mais uma profissão já profundamente desvalorizada.

O senhor Bernardo pode ser muita coisa: rapper, entertainer, influencer, até activista. Mas não é professor. Pelo menos, não no sentido rigoroso, técnico e ético da palavra. Pode até dominar conteúdos — mas não demonstra possuir o equilíbrio, a sobriedade e o discernimento que a função exige.

E para quem ainda insiste em defender o seu estilo por “falta de alternativas”, é bom lembrar que fazer crítica social sem método e sem ética não é coragem — é oportunismo. E gritar contra o sistema, enquanto se alimenta dele e se transforma a dor dos outros num projecto de vaidade pessoal, não é activismo — é ego inflado.

Educar é um acto de humildade, não de exibicionismo. O país precisa de bons professores, não de estrelas.

*Docente

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