O desencanto da geração da paz – Filipe Cahungo
O desencanto da geração da paz - Filipe Cahungo
Filipe

O escritor Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos “Pepetela”, tem um dos seus romances com o título “Geração de Utopia”. Na literatura filosófica, existe uma obra monumental, de Thomas More (1478 – 1535), Utopia. O autor decepcionado com o rei Henrique VIII, por desposar a rainha Catarina de Aragão, valeu-lhe à morte.

Com os processos das independências, os nossos pais estavam orgulhosos por terem conseguido a tão aclamada independência. Uns até profetizavam que o país seria outro e seríamos nós mesmos a governar esse país. De facto, o país transformou-se em outro país, pior que o do período colonial.

A geração de utopia a que intitulou Pepetela na sua obra, se encaixa ao que essa geração pós-independência viveu e vive. Há um outro autor importante no que tem a ver com a literatura filosófica, que é Platão. Para esse, a utopia é alguma coisa ireal, algo que não existe e nunca existirá.

Passados anos, surge uma proposta muito interessante do que viria a ser utopia. Para Victor Hugo, utopia passa a significar a verdade do amanhã.

Perante essas narrativas de gerações, há uma geração que tem merecida pouca atenção, mas que se constitui como aquela que poderá assumir os destinos do país e talvez a geração que se adequa à definição de Victor Hugo.

Refiro-me à geração da Paz, por ser ela que enfrenta um presente duro. A partir da definição de Victor Hugo, será que essa geração deve manter a esperança de um dia melhor?

Na realidade, pertencemos a uma geração desencantada e, face a essa situação, tudo vale e é louvável, até a banalidade tornou-se um valor. O desencanto torna-nos débeis e incapazes de sermos verdadeiros construtores de um amanhã melhor.

É bem verdade o que nos levou à independência é a crença de um amanhã melhor. Mas a geração da paz não tem mais razões com que se comprometer.

Os nossos dias nessa Angola é a verdadeira encarnação daquilo que os estoicos diziam: “comamos e bebamos, porque o amanhã não existe”. Essa máxima retrata o estado de desencantamento a que estiveram expostos os estoicos, agora podemos nos perguntar: que estado de ânimos nos encontramos? Será que podemos fazer desse território como um agora e basta?

Cabe a cada um responder as benditas questões e pensar no compromisso que cada um deve assumir em se tornar num verdadeiro construtor de utopia, deixando assim um mundo melhor.

*Filósofo e professor

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