O golo mais caro da história: 90 minutos que custam um país – Hermelindo Chico
O golo mais caro da história: 90 minutos que custam um país - Hermelindo Chico
estadio 11

Em Angola, o jogo mais esperado do ano não é o das urnas, nem o da economia. É o amistoso. Aquele em que a seleção nacional enfrentará a Argentina, campeã do mundo, no Estádio 11 de Novembro. Um evento anunciado como “histórico”, “grandioso” e “orgulho nacional”.

O detalhe é o preço da glória: cerca de 12 milhões de dólares para trazer Messi e companhia, segundo estimativas da imprensa esportiva internacional. E, como se não bastasse, mais de 13 milhões foram gastos na reabilitação do estádio.

Quase 25 milhões de dólares por 90 minutos de futebol, o equivalente a um quarto de milhão por minuto. Um investimento digno de uma potência. Pena que a potência é só no discurso.

Angola, país de petróleo, diamantes e promessas, vive hoje uma das maiores contradições do continente: é rica em recursos e pobre em resultados.

Enquanto o Estado desembolsa milhões para um jogo de exibição, milhares de crianças continuam fora da escola; hospitais enfrentam falta de camas e medicamentos; e famílias inteiras sobrevivem sem água potável, sem saneamento, sem esperança. É o paradoxo de um país onde o espetáculo substitui a política, e a imagem vale mais que a vida.

O governo justifica o gasto como um “investimento na imagem internacional”, alusivo aos 50 anos de independência do país. Mas que imagem é essa?

A de um país que paga caro para brilhar por 90 minutos, enquanto apaga o futuro de uma geração inteira?

A de um Estado que diz “não temos dinheiro” quando se trata de saúde e educação, mas que se torna generoso quando o assunto é futebol e propaganda?

Ironia das ironias: Angola é hoje uma fábrica de emigrantes. Jovens formados, sem oportunidades, buscam futuro longe da terra que os viu nascer.

Não há vaga no hospital, mas há bilhete VIP no estádio. Não há carteira na escola, mas há contrato milionário para um amistoso. Não há remédio no posto, mas há relvado novo e refletores importados. É a economia do espetáculo substituindo a economia do desenvolvimento.

Há quem diga que o jogo trará “visibilidade”. Talvez traga. O mundo verá que, em meio à crise, Angola ainda sabe gastar como rica. Que, mesmo com a dívida externa sufocando o orçamento, ainda há dinheiro para celebrar o luxo, enquanto se pede paciência ao povo. Que, num país onde o salário mínimo não compra uma cesta básica, a prioridade é comprar aplausos internacionais.

Mas a maior tragédia não está nas cifras, está na naturalização do absurdo. Já não se estranha o contraste entre o estádio iluminado e os bairros mergulhados na escuridão.

Já não choca o noticiário que fala em “reformas milionárias” enquanto crianças caminham quilômetros para estudar. O país se acostumou a viver entre o brilho do evento e o breu da realidade.

O amistoso com a Argentina será, de fato, histórico. Mas não pela bola rolando, e sim pelo que ela simboliza: a vitória da aparência sobre a essência, da vaidade sobre o povo, do espetáculo sobre o Estado. Será um retrato nítido de um país que se contenta em parecer grande enquanto seus cidadãos lutam para sobreviver pequenos.

No dia 14 de novembro, quando o apito inicial soar, as câmeras vão mostrar o estádio cheio, a festa, as bandeiras, os hinos. Mas fora das lentes, longe das arquibancadas, um outro jogo continuará sendo jogado: o jogo desigual da fome, da exclusão e da falta de futuro. Um jogo em que o povo nunca vence, e nem sequer é chamado a campo.

Quando o árbitro encerrar os 90 minutos e os jogadores deixarem o relvado, restará o silêncio. O mesmo silêncio dos hospitais sem médicos, das escolas sem professores, das ruas sem saneamento.

E talvez, entre aplausos e fogos, alguém perceba a ironia suprema: enquanto Angola paga para ver Messi, o povo continua pagando para viver.

*PhD em Direito, escritor e pesquisador

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