O impacto das redes sociais no debate público e na convivência social – Garcia Bige
O impacto das redes sociais no debate público e na convivência social - Garcia Bige
Garcia Bige

As redes sociais alteraram profundamente a comunicação e a formação da opinião pública, especialmente em Angola, onde se tornaram uma das principais fontes de informação.

Este artigo pretende analisar de forma crítica o impacto dessas plataformas no exercício da cidadania, destacando os desafios da desinformação, da polarização e do afastamento social.

Mais do que apontar problemas, o objectivo é propor caminhos para um uso mais responsável e produtivo das redes sociais, fortalecendo a sociedade civil e incentivando a participação dos cidadãos na vida pública de forma razoável.

A dualidade das redes sociais: aproximação digital, afastamento real

As redes sociais ampliaram o acesso à informação e abriram espaços inéditos para o debate público, alinhando-se à ideia de esfera pública de Jürgen Habermas (The Structural Transformation of the Public Sphere, 1962).

No entanto, também intensificaram a fragmentação do debate e o surgimento de bolhas informacionais, limitando a diversidade de opiniões.

Em Angola, essas plataformas têm permitido maior participação dos cidadãos, mas também reforçam polarizações e desentendimentos. A Primavera Árabe (2010-2012) ilustra o potencial mobilizador das redes sociais.

O movimento resultou em reformas políticas e novas constituições em vários países. Na Tunísia, uma nova Constituição foi implementada em 2014, garantindo mais direitos civis e políticos. O país é considerado o maior sucesso da Primavera Árabe.

Enquanto isso, a insurreição no Capitólio dos EUA (6 de Janeiro de 2021) e a invasão dos Três Poderes no Brasil (8 de Janeiro de 2023) alertam para os riscos da desinformação e da manipulação digital.

A rapidez na disseminação de conteúdos frequentemente compromete a verificação de factos, favorecendo boatos e teorias da conspiração. Isso prejudica a construção de uma sociedade informada e crítica, tornando urgente um debate sobre responsabilidade digital.

Redes sociais e estratégias de comunicação política

Manuel Castells, em Redes de Indignação e Esperança (2012), discute como o poder político se reorganiza na esfera digital, tornando-se cada vez mais dependente do controlo de narrativas.

Em Angola, a crescente presença de figuras públicas nas redes sociais reflecte essa realidade, com estratégias que vão desde o marketing digital até à mobilização de seguidores para influenciar debates e percepções.

A selecção algorítmica de conteúdo, como abordado por Noam Chomsky em Manufacturing Consent (1988), pode favorecer determinadas perspectivas em detrimento de outras, ampliando discursos que nem sempre representam a totalidade da sociedade.

O escândalo do Facebook-Cambridge Analytica (2018) mostrou como os dados dos usuários podem ser utilizados para direccionar campanhas políticas, evidenciando a importância de regulações claras para a transparência digital.

A manipulação política nas redes sociais cria cenários artificiais de apoio ou rejeição a figuras públicas, amplificando discursos e influenciando tendências de forma artificial, comprometendo a autenticidade do debate público.

Juventude e vulnerabilidade digital

A juventude angolana, que representa a maioria da população, é particularmente impactada pelas dinâmicas das redes sociais. Pierre Bourdieu, em “A Distinção” (1979), destaca como a construção da identidade social e cultural é influenciada pelos meios de comunicação.

No ambiente digital, essa influência torna-se ainda mais intensa, tornando os jovens mais susceptíveis a discursos polarizadores e a informações não verificadas. As recentes manifestações em Moçambique, fruto dos resultados eleitorais de 9 de Outubro de 2024, ilustram essa vulnerabilidade.

Líderes como Chapo e Venâncio Mondlane inicialmente divergiram, mas hoje encontraram um entendimento. No entanto, o preço foi alto: muitos cidadãos perderam a vida, deixando um vazio inestimável em suas famílias e amigos, além de órfãos e viúvas. Estes eventos evidenciam o poder e os perigos das redes sociais na mobilização da juventude.

Em Angola, há uma proliferação de podcasts que pouco contribuem para o pensamento crítico da juventude, focando-se no entretenimento e desviando a atenção de debates essenciais.

Se a juventude é o futuro, que tipo de juventude está a ser formada? A resposta a essa questão determinará o destino do país.

Kant, em “Sobre a Pedagogia”, enfatiza que o tipo de educação que se proporciona define a qualidade dos cidadãos e, consequentemente, da sociedade. Urge reflectir como garantir condições básicas para que cada jovem angolano tenha oportunidades de construir um futuro sólido e contribuir para o desenvolvimento do país.

Os jovens de hoje serão os dirigentes e pais de amanhã, e a forma como se formam hoje definirá a direcção do país. A juventude deve ser incentivada a utilizar as redes sociais de forma produtiva, participando em debates construtivos, consumindo conteúdos educativos e fomentando iniciativas comunitárias e empreendedoras.

Exemplos positivos existem: jovens que utilizam as redes sociais para divulgar os seus negócios, como a venda de conteúdos digitais, produtos artesanais e outros.

Esses casos devem ser exaltados e replicados para inspirar mais jovens a usarem as plataformas como ferramentas de crescimento pessoal e económico.

*Docente universitário, especialista em Comunicação Política, Diplomacia, Políticas Públicas e Cooperação Internacional

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