O Pan-africanismo morreu: só falta fazer o óbito – João Melo
O Pan-africanismo morreu: só falta fazer o óbito - João Melo
uniao africana

O Pan-africanismo, se alguma existiu mesmo, no sentido de possuir uma materialidade efectiva, para além das teorizações, dos discursos e das boas intenções, parece ter morrido de vez, apenas faltando reconhecê-lo e fazer o respectivo óbito.

É verdade que, no período inicial das independências africanas, a ideia de uma África unida, nos termos esboçados pelos pais-fundadores, como Nkrumah e outros, confrontou-se com as duas metanarrativas dominantes na época – o Liberalismo e o Marxismo – e os dois concomitantes modelos de desenvolvimento propostos à humanidade – o Capitalismo e o Socialismo –, o que impediu a efectiva concretização do Pan-africanismo como um modelo próprio de construção e integração das novas nações africanas. O mesmo tornou-se uma simples palavra, sem qualquer conteúdo concreto.

Entretanto, entre o fim do século passado e o início do actual, alguns sinais pareciam apontar para a possibilidade real de começar a construir de facto uma efectiva união africana, baseada, como parece não apenas inevitável mas recomendável, na economia.

A substituição da velha Organização da Unidade Africana (OUA) pela União Africana e o aparente foco desta última em desenhar novas estratégias económicas comuns, tentando, ao mesmo tempo, alterar os termos das relações dos países africanos com o resto do mundo, em especial as grandes potências, e fomentar a cooperação intra-africana, a partir das diferentes regiões, deram novas esperanças aos povos africanos.

Foi sol de pouca dura. Para resumir, os termos das relações económicas de África com as principais potências externas mantiveram-se os mesmos, no essencial, em que pesem importantes diferenças operacionais e de prioridades, como no caso da cooperação com a China, focada na construção de infra-estruturas, cuja finalidade e enquadramento estratégico, entretanto, são, em geral, um mistério perturbador.

A cooperação intra-africana, por seu turno, não avançou. Assim, e quando está prestes a terminar o primeiro quartel do novo milénio, África está menos unida do que parecia estar desde as primeiras décadas da sua independência até ao final do século passado.

Essa falta de unidade reflete-se, perigosamente, no domínio geopolítico. De facto, não apenas os países africanos parecem virar-se apenas para dentro deles próprios, como tendem a abdicar de uma postura internacional não-alinhada, como era a tradição dominante do continente, encostando-se à ou às potências que considerem mais úteis ao seu desejado desenvolvimento interno. Ledo engano, pois as grandes potências não têm amigos, mas interesses.

Apenas para dar dois exemplos dessa tendência para o alinhamento com as principais potências globais, embora de sinal contrário, cite-se os casos do Rwanda, cujas responsabilidades na desestabilização da República Democrática do Congo para mim são óbvias (além da maka rwandesa de “espaço vital”, a desestabilização da RDC interessa, desde logo, às grandes potências ocidentais; como esquecer, por outro lado, o acordo do Rwanda com o Reino Unido para receber os imigrantes africanos ilegais?), assim como o da agora denominada Aliança dos Estados do Sahel (Burkina Faso, Mali e Níger), que não hesita em recorrer ao apoio russo para combater o terrorismo islâmico e, ao mesmo tempo, libertar-se da perniciosa influência da “France-Afrique”, a vexatória política neocolonial adoptada por Paris desde as primeiras independências das suas antigas colónias africanas.

Não deixa de ser curioso – assinale-se – o temor do Ocidente Alargado por aquilo a que chama a “influência russa no Sahel”, quando a influência das grandes potências ocidentais em África, de natureza colonial e neocolonial, data de há séculos.

Mas, seja como for, o ponto que quero assinalar é a actual tendência de vários países africanos para procurarem o “colo protector” das grandes potências globais, ao invés de contribuírem para fortalecer a União Africana, que tem condições para ser um actor geopolítico importante.

Senegal

No meu último artigo, estranhamente, o décimo parágrafo saiu totalmente truncado e incompreensível. Por isso, reponho-o aqui:

“Os ´democratas imperialistas´ ocidentais, que se julgam no direito, talvez divino, de tutelar os processos de construção da democracia nas demais regiões do mundo, já deram mostras de que, para eles, tanto faz. Se isso servir os seus interesses, poderão apoiar tranquilamente o desejo de Sall de disputar um terceiro mandato, tal como, só para dar um exemplo, aconteceu no Rwanda, com Paul Kagame”.

Esse parágrafo referia-se, obviamente, a intenção do actual Presidente do Senegal, Macky Sall, disputar um terceiro mandato, à revelia da Constituição do seu país. Entretanto, tudo indica que o Tribunal Constitucional senegalês barrou de vez essa possível intenção.

Com efeito, no dia 15 de Fevereiro, o mesmo anulou o Decreto Presidencial do dia 3 deste mês que adiava sine die as eleições marcadas para o dia 25. A presidência senegalesa já acatou publicamente essa decisão.

Por falta de tempo útil, o mais certo é que o pleito não seja disputado a 25, mas terá de sê-lo o mais breve possível. Aparentemente, Macky Sall não tem quaisquer condições para concorrer mais uma vez, por falta de timing para tentar alterar a constituição em questão de dias.

Tudo indica, pois, que a democracia senegalesa – uma das que melhor funciona no nosso continente – prevaleceu.

*Jornalista e escritor

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