O poder da economia criativa baseada no Carnaval – Ismael Mateus
O poder da economia criativa baseada no Carnaval - Ismael Mateus
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Por todo o mundo, as manifestaçoes de Carnaval tem vindo a ser cada vez mais usadas como fontes primárias da chamada Economia Criativa. Em muitos países, com o Brasil à cabeça, usa-se a criatividade dos populares expressa em diversas linguagens artísticas para obter milhões resultantes do Turismo e venda de produtos culturais.

Regra geral, são apresentações artísticas que, ao contrário do nosso caso, não se esgotam num único dia. Há toda uma indústria cultural que se estabelece à volta do Carnaval.

Diz-se que o Carnaval é maior expressão da identidade cultural, porque junta num único acto várias manifestações culturais que reflectem os hábitos e tradições do povo. Para que possamos ter uma indústria cultural, precisamos de deixar de ver o Carnaval como o desfile.

Pode parecer contraditório, mas para valorizar a indústria cultural o desfile tem de perder esse carácter aglutinador e concorrencial dos nossos dias em favor de outras actividades culturais à volta do Carnaval.

Naturalmente, o desfile é e deve continuar a ser o ponto central, mas nada impede que sejam criadas acções paralelas que atraiam outros públicos e outros interesses que não participam dos diversos desfiles que se realizam no país.

A narrativa do resgaste e da preservação das tradições continuará a soar a discurso vazio se não formos capazes de agir, incluir acções concretas que permitam dar um carácter mais utilitário e quiçá mais comercial a toda a criatividade que fruir no carnaval.

Passados quase cinquenta anos de Independência não faz sentido que continuemos a cantar apenas as músicas de Carnaval do passado, relembrando grupos como a Cidrália, os Invejados ou os trabalhos de Ngola Ritmos ou Bonga que, em muitos casos, refere às figuras do Carnaval do passado.

O cancioneiro nacional está, hoje, e bem recheado de referências musicais inspiradas no Carnaval, mas para que a narrativa do resgaste seja efectiva será necessário investir na reinvenção e modernização do que o Carnaval de hoje nos oferece.

É preciso reconhecer que os grupos carnavalescos, apesar das suas limitações financeiras e de meios técnicos, têm conseguido oferecer as raízes das nossas manifestações músico-dançantes, cabendo agora ao Ministério da Cultura, aos agentes culturais e a toda a sociedade “pegar” nessas competências musicais, visuais, coreográficas e dar-lhes um toque de modernidade.

Com os cinquenta anos da Independência Nacional, 2025 será uma excelente oportunidade para tornar o período de Carnaval numa espécie de jornada cultural, uma espécie de movimento cultural (bienal de arte do carnaval) que durante uma ou duas semanas realiza anualmente exposições, espectáculos teatrais, palestras e oficinas de música e dança do Carnaval.

Imagine-se as escolas de dança chamadas neste período para interpretar algumas das danças de Carnaval ou das conhecidas bandas e orquestras serem chamadas a interpretar números musicais cantados nas edições do Carnaval.

É nessas jornadas, sob o signo da famosa frase “É carnaval, ninguém leva a mal” que se devem sonhar com todos os cruzamentos possíveis e imaginários do produto bruto do Carnaval com a música e dança clássicas, músicas electrónicas, na moda, nos bailes típicos, na literatura enfim em todas as manifestações culturais os autores devem ser chamados a criar e inovar inspirados nas relíquias produzidas no Carnaval.

Não temos dúvidas que dessa ousadia virada para a exploração, a fusão, a miscigenação entre as músicas e danças de Carnaval e os variados ritmos modernos brotariam, certamente, novas peças de referência para o nosso cancioneiro.

Acreditamos que as escolas de dança e de música deverão ter um papel importante sendo estimuladas, inclusive com prémios para que assumam um processo de sistematização do ensino dessas danças de Carnaval, nomeadamente codificação de número de movimentos de cada dança, organização das aulas, criação de manuais ou, no caso da música, a estilização em pauta assim como a sua modernização.

Outras duas instituições importantes para transformar o Carnaval numa jornada cultural são a Rádio Nacional de Angola (RNA)e a TPA.

A RNA, que possui a Rádio Cultura e uma banda de música, tem por conta disso e do seu passado responsabilidades acrescidas.

Apesar de algumas vozes críticas, a decisão de “patrocinar” uma banda de música revela-se cada vez estratégica para uma rádio que tem o seu passado muito ligado à preservaçao da Música Popular Angolana.

A RNA possui (ou possuía) arquivos invejáveis da música angolana aos quais não dá nenhuma utilidade. Ter uma banda musical pode permitir usar esses arquivos em processos de remasterização das músicas e a sua modernização para lhes dar novos acessos de qualidade para as mídias de entretenimento, vídeos e streaming.

É por isso também natural que tenhamos a expectativa de que a banda da RNA seja um importante instrumento no resgaste e preservação das manifestações musicais do Carnaval. Depois do grande papel da famosa CT1 na preservação da música popular e infantil, a banda Movimento da RNA deveria dedicar-se sobretudo a modernizar o folclore, sucessos de carnaval e recolha do cancioneiro popular.

O Ministério da Cultura deveria “forçar” um entendimento com a RNA e com os patrocinadores para que, anualmente, nas jornadas culturais do Carnaval a Banda Movimento apresentasse o resultado das suas recolhas de carnaval.

No caso da TPA, usando do grande poder das imagens as atenções, devem estar concentradas na dança. Não faz sentido que um país que tem tantos e variados estilos musicais, os grupos de dança tenham prestações tão pobres e tão falhas de pesquisa.

É com imensa satisfação que vemos a TPA voltar a ter um programa de dança, protagonizado por Manuel Kanza e agora caberá levar que os novos futuros dançarinos sejam colocados perante desafios de dançarem as novas danças sem estereótipo dos grupos de dança que proliferam pelas grandes cidades mas usando a base e as raízes que nos são oferecidas pelos grupo carnavalescos.

Só assim poderemos começar também a falar, em Angola, de Economia Criativa baseada no Carnaval. Precisamos, cada vez mais, de um conjunto de negócios e actividades culturais baseados na criatividade e no capital intelectual. Vao aparecendo cada vez mais autores e produtores que actuam com profissionalismo.

O Governo e as instituições que coordenam a cultura têm de se mostrarem capazes de facilitar o processo de instalação e crescimento de negócios desenvolvidos a partir do conhecimento e criatividade do carnaval e não só.

*Jornalista e escritor

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