
Já muitos ouvimos a estória de um indivíduo a recolher o lixo, ciente que os seus braços e pernas não colheriam nem um terço da lixeirada da quilométrica praia suja; imunda. Claro que ele não a limpará toda. Fará apenas o que pode.
Como moral da estória, fica o apelo para que cada um de nós faça a sua parte. Esse exemplo ajuda a perceber a frase: “muitas mãos fazem o trabalho leve”.
Trago essas ideias-chave para falarmos do desenvolvimento de Angola. Não entro em conceitos de desenvolvimento, mas abordo-o aqui como um processo de mudança e progresso que visa melhorar as condições de vida e aumentar o bem-estar de uma sociedade ou de um indivíduo.
Começo por botar por terra os processos históricos (colonização portuguesa, guerra e etc.) para culpabilizar o nosso actual destino, centro-me numa palavra: disciplina!
O passado ficou. É imperioso olhar para frente, buscar modelos de sociedades que já lá estão, onde a disciplina é frequentemente associada ao desenvolvimento.
Quando a abordamos, entendemo-la de várias formas, nomeadamente a disciplina individual (autocontrole e autodisciplina), a disciplina social (normas e regulamentos) e a disciplina organizacional (regras e procedimentos dentro de instituições). Cada uma dessas formas desempenha um papel importante no desenvolvimento duma comunidade ou país.
Vamos sabendo que, em países desenvolvidos, o grau de disciplina dos seus habitantes, particularmente a alta autodisciplina, contribui significativamente para se tornarem mais produtivos, responsáveis e capazes de atingir metas de longo prazo. Claro que para isso contribuem as normas sociais e leis, essenciais para manter a ordem e a coesão social.
Não é notícia observarmos, nas nossas instituições, a falta de uma certa disciplina como garante da eficiência, da qualidade e do cumprimento de objectivos, condicionando inclusive o fornecimento de serviços ou produtos essenciais para a coesão social, o crescimento económico e responder às crises que se instalam ciclicamente.
Voltando ao indivíduo, ao cidadão, constitui-se como DNA nosso comportamento ou situações comuns que reflectem a nossa falta de autodisciplina.
Por exemplo, adiarmos constantemente tarefas importantes, tomarmos decisões sem considerar as consequências (como gastar dinheiro impulsivamente), faltarmos a compromissos, reiteradas inconsistências profissionais ou laborais, incumprimento contratual (verbal e mesmo escrito), são alguns exemplos que demonstram como a falta de autodisciplina pode impactar negativamente na nossa actividade laboral e até nas relações pessoais. Lógico, o desenvolvimento não gosta dessa indisciplina.
Disciplina cidadã em força
Conhecido por sua cultura de disciplina e trabalho árduo, o Japão tem uma das economias mais avançadas do mundo. A autodisciplina é visível na Educação, na força de trabalho e nas práticas sociais.
Com a Alemanha não é diferente. A ética de trabalho alemã é marcada pela precisão e pontualidade, contribuindo imenso para o seu status de potência económica mundial.
O desenvolvimento de uma nação sem disciplina individual é extremamente difícil, senão impossível. A disciplina individual é um componente crucial que contribui para diversos aspectos do progresso social, económico e cultural de uma nação.
Pessoas disciplinadas são mais propensas a cumprir prazos e manter compromissos, o que é vital para o funcionamento eficiente de instituições e empresas.
A disciplina do cidadão é uma força capaz de vencer desafios e adversidades com maior determinação e estabilidade emocional.
Um cidadão autodisciplinado está propenso a tornar-se governante e servidor público disciplinado, pois se torna mais propenso a agir com integridade e transparência, promovendo uma governança eficiente e justa.
A autodisciplina permite que indivíduos se concentrem em seus estudos e trabalhos, melhorando a produtividade e a eficiência. A autodisciplina gera confiança.
A confiança é um pilar nas relações interpessoais e profissionais. A autodisciplina contribui para a construção de um ambiente de confiança mútua, essencial para a cooperação e o trabalho em equipa.
Portanto, promover a autodisciplina através da educação, políticas públicas e cultura é fundamental para o progresso de qualquer sociedade.
Países como Alemanha e Japão adoptaram diversas estratégias e políticas ao longo do tempo para implantar e fortalecer a ética de trabalho, precisão e pontualidade entre os seus cidadãos.
Mas, para isso, foi preciso um forte investimento na Educação e formação dos seus cidadãos. Nesse quesito, o Estado não se deve demitir.
Veja o exemplo da Alemanha, cujo sistema educacional combina aprendizado em sala de aula com formação prática em empresas. As escolas alemãs promovem a autonomia dos alunos, incentivando a auto-organização e a responsabilidade pessoal desde cedo.
As escolas oferecem suporte individualizado para ajudar os alunos a desenvolverem habilidades de autogestão e disciplina, preparando-os para carreiras profissionais. Isso garante que os alunos adquiram habilidades práticas e um forte senso de responsabilidade desde cedo.
Ou seja, os alemães são ensinados a assumir responsabilidade por suas acções, o que se traduz numa abordagem disciplinada e confiável no trabalho. A cultura alemã valoriza a eficiência e a pontualidade.
À semelhança da Alemanha, também o Japão assenta o seu pilar de disciplina sobre uma educação e formação cidadã virada para o desenvolvimento colectivo, complementando com um currículo que inclui Educação Moral e Cívica, abordando questões como respeito, disciplina e ética desde cedo.
Ainda na escola primária, os japoneses são ensinados a valorizar a disciplina, a pontualidade e a cooperação, incentivados fortemente a participar em actividades extracurriculares, o que ajuda a desenvolver habilidades de disciplina, trabalho em equipa e responsabilidade.
As escolas no Japão, ensinam os alunos a seguirem horários e regras de maneira consistente, incentivam a limpeza, a organização e o respeito mútuo.
O sistema põe os professores e funcionários a servirem como modelos de comportamento, demonstrando disciplina e comprometimento.
Na componente corporativa, as empresas japonesas oferecem treinamento intensivo aos novos funcionários, enfatizando a importância da precisão e da ética de trabalho.
Como uma imagem de marca, o Japão possui uma cultura corporativa muito forte, onde a lealdade à empresa e ao trabalho árduo são altamente valorizados.
Ambos os países adoptaram práticas que integram a disciplina nas rotinas escolares e enfatizam o desenvolvimento de habilidades de autogestão, o que contribui significativamente para uma cultura de disciplina cidadã tanto dentro quanto fora do ambiente escolar.
Angola é possível…
Para o caso de Angola, que possui um grande potencial para o desenvolvimento devido aos seus vastos recursos naturais e humanos, além da necessidade de se combater o cancro da corrupção e o seu processo de metastização, é crucial que a melhoria do sistema educacional corresponda aos reais anseios da necessária mudança de mentalidade para o progresso colectivo, com investimentos em formação de professores, infra-estrutura escolar e currículo actualizado.
Mas se, por um lado, o Governo precisa implementar políticas eficazes, combater a corrupção, investir em infra-estrutura e reformar a Educação, os cidadãos devem autodisciplinar-se e promover a disciplina, participando ‘cidadãmente’ na vida do país de forma contínua.
Tanto para o Governo quanto para o cidadão, desenvolver autodisciplina é um processo gradual que requer paciência e prática, mas é fundamental para alcançar objectivos e manter um desempenho consistente. Juntos, esses esforços podem criar uma cultura propícia ao crescimento económico sustentável e ao bem-estar social.
Evidentemente, o órgão executivo do Estado tem uma responsabilidade considerável na forma como a escassa disciplina individual impacta negativamente no desenvolvimento do país.
Entretanto, atribuir-se exclusivamente ao Governo a responsabilidade pelo não desenvolvimento do país pode levar a ignorar o papel crucial de cada cidadão.
Dito de outro modo, negar a responsabilidade individual pode levar à apatia e à falta de acção por parte dos cidadãos, o que pode perpetuar problemas como funcionários públicos que aceitam subornos ou desviam fundos destinados a serviços públicos, atrasos e a falta de pontualidade, desrespeito às leis de Trânsito por parte de motoristas e piões, venda informal em locais impróprios, lixo descartado de forma inadequada, vandalização de bens públicos, etc., santo favor à estagnação do desenvolvimento.
Se os cidadãos acreditarem que apenas o Governo deve resolver todos os problemas, podem sentir-se desmotivados a contribuírem com soluções ou a envolverem-se em iniciativas locais, negligenciando as novas ideias e abordagens para a resolução de problemas locais, como o envolvimento em projectos voluntários e iniciativas comunitárias, criação e apoio a negócios locais para a geração de empregos.
Ou seja, é possível construir-se a cultura de que não devemos esperar que venha o pedreiro levantar o muro da solução. Coloquemos antes, cada um de nós, um tijolo para juntos erguermos o nosso muro do progresso.
*Jornalista e escritor