O que têm em comum regimes longevos e autoritários – Faustino Henrique
O que têm em comum regimes longevos e autoritários - Faustino Henrique
Jl e JES

Os regimes longevos e autoritários, mesmo quando acabam derrubados, deixam sequelas, muitas vezes, inapagáveis, na medida em que leva muitos anos para que os países por si governados se reencontrem e reorganizem.

A situação agrava-se nos casos que tais regimes subsistem não apenas na base do autoritarismo ou mesmo ditadura, mas também por via de um círculo restrito de pessoas afectas ao mesmo grupo etnolinguístico, via de regra minoritário no país, como sucedeu com Mobutu, no ex-Zaíre e, agora, na Síria, com Bashar al-Assad.

Se recuarmos no tempo e exemplificarmos com regimes, com a mesma natureza, até aos casos mais recentes, facilmente daremos conta de que as semelhanças, na forma como “se aguentaram”, como acabaram derrubados, quase sempre pela via da força, e nos efeitos provocados com a sua queda, que se prolongam no tempo, são impressionantes e verdadeiros “casos de estudo”.

O Haiti, desde a partida da família Duvalier, em 1986, já com a segunda geração, na era Baby Doc, nunca mais se reencontrou ao ponto de voltar aos anos dourados de segurança e estabilidade, mesmo quando comparados ao período mais sombrio em que vigorava a mão tenebrosa dos Tontons Macoutes.

A tentativa de regresso à normalização democrática, nos anos 90, com a eleição do padre ligado ao movimento da Teologia de Libertação, provou-se insuficiente para repor o país no caminho da legalidade, restando saber se as razões ainda se deveram à pesada herança dos Duvalier.

E hoje o país está à mercê de um conjunto de “sindicatos de grupos criminosos”, em que desponta a aliança de nove grupos liderados pelo famoso Jimmy Cherizier “Barbacue”, cuja alcunha (churrasco) se deve ao histórico de incendiar pessoas vivas, que controla 80 por cento de Port-au-Prince, a capital do país.

A ditadura de 32 anos do Presidente Mobutu, na República do Zaíre, terminou em Maio de 1997, de forma dolorosa e desnecessária para o velho Marechal, mas as sequelas estão presentes até hoje ao ponto de alguns associarem à suposta herança.

Na verdade, há uma obra literária, publicada, recentemente, embora virada para o retrato musical do país, que alegadamente faz menção da “sombra” do homem que preferia a expressão “falecido Presidente” em detrimento de ex-Chefe de Estado, ao ponto dos autores descreverem que “há um pouco de Mobutu em cada um de nós”.

Escreve a Jeune Afrique, numa peça assinada por François Soudan, que “será necessário, sem dúvida, mais de uma geração até que os congoleses se libertem da influência mental de um ditador que moldou as suas mentes durante mais de trinta anos.

Porque o Mobutismo era, no sentido literal do termo, totalitarismo. Um totalitarismo bantu temperado com palavrões e maruvo, certamente, mas também um laboratório de estupidez e um desastre de pensamento em que a grande maioria dos seus concidadãos mergulhou, por vezes, com êxtase”.

E a RDC procura resgatar, com muita dificuldade, os anos de paz e estabilidade que usufruiu sob a liderança de Mobutu, ao lado do regular funcionamento das instituições, mesmo nas circunstâncias em que funcionavam.

Até a Guiné-Bissau, depois da era Nino Vieira, podíamos, também, enquadrar aqui no rol de países que viveram regimes autoritários ou ditatoriais e de cuja herança nunca mais se libertaram.

Quem olha, hoje, para a Somália, pós-Mohammed Siad Barre, Líbia pós-Muamar El Kadhaffi, Iraque pós-Saddam Hussein e, muito recentemente, a Síria, depois do dia 8 de Dezembro, quando Bashar Al Assad, contra todas as expectativas, fugiu do país, traça, neste último, as mesmas semelhanças dos casos que lhes são anteriores.

Embora subsistam declarações importantes dos “novos senhores do poder” na Síria, dificilmente aquele país vai reencontrar-se no curto e médio prazos, a julgar pelas variáveis apontadas e pela realidade actual do país.

Congregados a ferro e fogo pela família Assad, os vários grupos sociais que fazem parte da Síria, os árabes sunitas, curdos árabes e não árabes, druzos, cristãos, alawitas, iazidis, mandeus e turcos, grande parte deles antagónicos entre si, confrontam-se com um desafio gigantesco de se reencontrarem e reorganizar.

Mas, como dizia Hegel, a história repete-se, pelo menos, duas vezes, uma perspectiva que na Síria, como de resto nos regimes autoritários e até ditatoriais, vai ocorrer e levar longos anos até a uma eventual estabilização.

Esperemos para ver em que medida é que estamos enganados se porventura não vai acontecer na Síria o que ocorreu na Líbia, Iraque, ex-Zaíre, Somália, Guiné-Bissau e Haiti, apenas para citar estes.

*Jornalista

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