O silêncio dos indecentes – Jorge Eurico
O silêncio dos indecentes - Jorge Eurico
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O “Angola Combatente” nasceu na Radio Brazzaville, entre 1962 e 1963. O movimento nacionalista angolano instalado no Congo, depois da expulsão de Léopoldville-Kinshasa por Mobutu Sese Seko, precisava de voz. Mais uma arma para a sua luta.

Ernesto Lara Filho, Aníbal de Melo, Maria Macedo dos Santos, Artur Pestana (Pepetela) e Adolfo Maria fundaram a voz clandestina da luta. Uma emissão valia mais do que dez emboscadas. Era guerra psicológica. Era política. Era poder no éter. O poder da Informação.

Em 1974, o programa instalou-se em Luanda. Veio Bicesse. Vieram as eleições. O partido escolheu uma voz: A de Octávio Pedro Capapa. Militante das Tropas Especiais das Forças Armadas. Militante convicto do MPLA. Às sete da noite o País parava. A sua voz descia pesada sobre a narrativa da UNITA. Sem descanso. Sem trégua.

Em 1992, Jonas Savimbi visitou as instalações da RNA. Capapa estava no hall. Estendeu a mão. Savimbi não sabia que cumprimentava a voz que, todas as noites, desmontava a sua organização em cadeia nacional.

Capapa serviu. Serviu o partido. Serviu o poder. Serviu a narrativa vencedora do MPLA. Octávio Capapa serviu o MPLA com devoção quase beata.

Entregou a voz. Entregou a energia. Entregou a presença política. E terminou doente. Cancro. Cegueira. Sem meios. Sem dignidade mínima. Sem amparo. Literalmente sozinho.

A família bateu à porta da Presidência da República. Resposta: Silêncio. Bateu à porta do partido no poder. Resposta: Silêncio. Silêncio pesado. Silêncio político. Silêncio conveniente. Deu tudo. Recebeu nada. Silêncio dos indecentes.

Hoje anda de candongueiro. Depende de colectas anónimas. É peça descartada pela máquina que ajudou a mover. É preciso ter coração de bruxo para infligir tamanho desprezo a um homem que deu a voz ao poder.

A máquina usa. A máquina consome. A máquina descarta. Octávio Capapa é órfão do partido que ajudou a sustentar. O abandono comunica algo ao País e aos militantes do poder.

O poder tem memória curta. O partido no poder usa. Consome. Recompensa a utilidade. Mas quando a doença, a velhice ou a fragilidade chegam, a máquina não protege quem a serviu.

Octávio Capapa é a imagem de uma promessa silenciosa feita aos que se entregam ao poder. Talvez seja esta a lição amarga da história política. Aqueles que se entregam totalmente a um regime esperam, no fundo, que o regime também os reconheça na hora da vulnerabilidade.

O silêncio sobre Octávio Capapa é maior do que o seu sofrimento. Ninguém protege aqueles que protegem o poder. A ingratidão política é rápida.

A história é paciente. Mas a história nunca esquece. A quem, de boa fé, quiser ajudar a família de Octávio Capapa, ficam os contactos: 939122473 / 942041909.

O silêncio sobre Octávio Capapa é sobre a memória de quem serve o poder. O poder passa. Os homens ficam. E a memória julga o silêncio dos que esqueceram.

*Jornalista

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