O silêncio ensurdecedor do BP do MPLA face à morte do presidente emérito – Artur Queiroz
O silêncio ensurdecedor do BP do MPLA face à morte do presidente emérito - Artur Queiroz
JES caixao

José Eduardo dos Santos faleceu, faz hoje dois anos. Um dia para reflectir sobre a situação social, económica e política em Angola desde 2017 e sobretudo após a sua morte. Mesmo no exílio de Barcelona ainda impunha algum respeito e contensão aos seus sucessores.

Depois do 8 de Julho de 2022 foi o dilúvio. Multiplicaram-se as perseguições aos seus colaboradores mais próximos e familiares. O carro de João Lourenço não tem travões. E assim tudo pode acontecer, até chegar incólume a 2027. A sorte protege os incautos.

O homem que presidiu aos destinos de Angola durante toda a guerra pela soberania nacional e integridade territorial tem um lugar ímpar na história. Todos lhe devemos muitíssimo. Mas particularmente os sicários da UNITA.

Depois de assinar a Acta da Derrota, o presidente PW Botha foi obrigado a capitular em Nova Iorque na cimeira com Angola e Cuba. O ANC estava às portas do poder. O regime racista que Savimbi serviu de armas na mão contra o povo angolano caiu por terra, no Triângulo do Tumpo. Só faltava fazer-lhe o enterro. Os EUA pediram ao Presidente José Eduardo dos Santos que desse a mão à UNITA para não cair na situação de pária. E ele aceitou. Daí o Acordo de Bicesse.

O mesmo argumento foi usado anos antes pelos oficiais do MFA/Angola e o almirante Rosa Coutinho. Agostinho Neto aceitou fazer um acordo com a UNITA na cidade do Luena. Depois a diplomacia do MPLA fez corredores em Adis Abeba para o comité de descolonização reconhecer o “Galo Negro” como movimento de libertação. Aconteceu.

Savimbi foi a correr para Kinshasa onde ofereceu os seus préstimos ao ditador Mobutu. Correu mal. Foi-lhe exigida a submissão. Ali mandava a FNLA e Holden Roberto. Savimbi conhecia muito bem quem estava do outro lado. Foi oferecer os seus préstimos ao regime racista de Pretória.

Apesar desta trajectória sinuosa e traiçoeira, ninguém queria que a UNITA fosse uma organização pária, salvo Savimbi que não queria nem sabia ser outra coisa. Um pária insanável.

O fundador dos Flechas da PIDE e oficial de ligação entre as forças de defesa e segurança sul-africanas e a UNITA, Óscar Cardoso, já contou como Savimbi pôs os seus homens e armas ao serviço das tropas de ocupação, contra a Independência Nacional. Falta saber quase tudo sobre o alinhamento do “Galo Negro” na guerra dos karkamanos contra Angola.

O Presidente José Eduardo dos Santos pôs o poder em disputa nas primeiras eleições multipartidárias, em 1992. Todos vaticinaram a derrota do MPLA. Faltava saber se era uma perda leve ou uma humilhação. Ele acreditou sempre na vitória do partido que tem Angola no coração.

O partido pária, o dirigente pária, praticamente toda a direcção do “Galo Negro” partiram para o golpe de estado militar após a derrota eleitoral. Savimbi pôs em risco as vidas de centenas de dirigentes da UNITA e seus familiares, que se encontravam em Luanda. O grande chefe guerrilheiro, o grande político, era politicamente um básico. Um títere.

Deputados eleitos da UNITA, seus familiares e muitos dirigentes foram apanhados no golpe. O Presidente José Eduardo dos Santos ordenou que todos fossem protegidos e retirados dos locais onde corriam risco de morte. Enquanto uns sicários da UNITA andavam aos tiros nas ruas, outros foram levados para locais seguros.

Face à situação de guerra aberta, o Presidente da República foi aconselhado a declarar o estado de emergência. Recusou. O seu argumento era imbatível: Se suspendermos as liberdades, matamos a democracia ainda no ovo!

Os dez anos da rebelião armada de Savimbi passaram sem nunca serem suspensos direitos, liberdades e garantias. Os democratas angolanos devem-lhe tudo.

Os militares da Operação Kissonde encurralaram o criminoso de guerra Jonas Savimbi. Desmantelaram a UNITA belicista. Estavam todos à mercê do tiro de misericórdia. De Luanda chegou a voz do Comandante em Chefe: “Nem mais um tiro!”

Os membros da UNITA belicista foram retirados vivos da mata. Devem tudo, sobretudo a vida, a José Eduardo dos Santos e às Forças Armadas Angolanas. O Arquitecto da Paz triunfou em toda a linha. E não perdeu tempo. Partiu para a Reconstrução Nacional.

Milhares de milhões foram investidos em todo o país. A rede de estradas foi refeita. Portos e aeroportos voltaram a ser operacionais, equipamentos sociais destruídos pelos sicários da UNITA foram substituídos. Políticas sociais inclusivas foram lançadas. José Eduardo dos Santos um dia resumiu o objectivo da sua política: “Vamos fazer de Angola um país bom pra se viver”.

O Presidente João Lourenço decidiu esbanjar ou desprezar o capital político, económico e social herdado de José Eduardo dos Santos. Não hesitou mostrar que o essencial dos seus dois mandatos constitucionais é destruir a memória dos Presidentes Agostinho Neto e José Eduardo. Perseguir os seus próximos e familiares.

Quem faz da vingança o essencial do seu programa político, mergulha no pântano fétido da infâmia. Alguém entre os seus próximos lhe diga que se encostou voluntariamente ao paredão. Todos vão disparar contra ele. Ninguém lhe vai perdoar. Nem os seus aliados, quando sofrerem na pele o mesmo tratamento que estão a infringir aos antecessores.

Os media públicos e quase todos os privados ignoraram o 8 de Julho. É próprio dos anões, não verem acima do chão. O Presidente João Lourenço nada ganha ao misturar-se com a insignificância. Vai descendo, degrau a degrau, até ao pântano. E quanto mais estrebuchar mais se enterra. Angola merecia melhor. E o Presidente da República eleito também. Quanto ao MPLA, não comento.

Faz hoje dois anos que faleceu o seu Presidente Emérito e o silêncio do Bureau Político é ensurdecedor. Contem com estragos e perdas pesadas. Hoje mando parte de uma entrevista que fiz ao cónego Apolónio e publicada no Jornal de Angola.

*Jornalista

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